
Quatro anos após o assassinato de presidente, Haiti afunda no medo e no caos

Quatro anos após o assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, em 7 de julho de 2021, em sua residência particular em Porto Príncipe, o país segue mergulhado no caos. A investigação sobre o crime segue lentamente tanto no Haiti quanto no exterior, enquanto a crise humanitária se agrava, a violência explode e o Estado se desintegra.

Moïse foi executado por um grupo de mercenários, em sua maioria ex-militares colombianos, numa operação que, de acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, foi planejada e financiada no sul da Flórida. Pelo menos 17 colombianos foram detidos, além de haitianos e empresários radicados nos EUA.
A viúva de Moïse, Martine Moïse, ficou ferida no ataque. Posteriormente, foi acusada de conspiração por um juiz haitiano, o que ela chamou de perseguição política.
Justiça a conta-gotas
Até o momento, cinco pessoas foram condenadas à prisão perpétua nos Estados Unidos, em julgamento realizado no tribunal federal de Miami. Entre os sentenciados estão:
o ex-senador haitiano John Joël Joseph,
o empresário haitiano Rodolphe Jaar,
o ex-informante da Administração de Repressão às Drogas dos EUA (DEA, sigla em inglês), Joseph Vincent,
e os ex-militares colombianos Mario Antonio Palacios e Germán Rivera García.

Outro julgamento que envolve cinco réus — entre eles o empresário venezuelano-americano Antonio Intriago, o pastor haitiano-americano Christian Sanon e o financista equatoriano Walter Veintemilla — estava previsto para maio de 2025, mas foi adiado para março de 2026.
Na semana passada, o ex-primeiro-ministro haitiano Claude Joseph negou publicamente qualquer envolvimento no crime. Em entrevista ao The Haitian Times, classificou como "falsas e infundadas" as acusações feitas contra ele em fevereiro de 2024 pelo juiz Walther Wesser Voltaire.
A juíza federal Jacqueline Becerra explicou que a defesa ainda não teve acesso completo às dezenas de horas de gravações incluídas nas provas. Além disso, destacou que a coleta de testemunhos no Haiti tem sido dificultada pela violência generalizada e pelo colapso institucional.
Na semana passada, o ex-primeiro-ministro do Haiti, Claude Joseph, negou publicamente qualquer envolvimento no crime. Em entrevista ao The Haitian Times, classificou como "falsas e sem fundamento" as acusações feitas contra ele em fevereiro de 2024 pelo juiz Walther Wesser Voltaire.
"Eu era um alvo político desde o primeiro dia", afirmou Joseph, dizendo estar disposto a cooperar com a Justiça, mas sem aceitar ser usado como bode expiatório. Ele também questionou a legitimidade do processo, alegando que não teve acesso às provas nem direito pleno de defesa.
A investigação local está praticamente paralisada. De acordo com a mesma mídia local, o processo permanece nas mãos do juiz Voltaire, sem avanços desde as acusações iniciais apresentadas em fevereiro de 2024.
A falta de um processo justo, ameaças aos operadores judiciais e a crise de segurança impediram o andamento do caso. Segundo a imprensa local, muitos dos réus sequer foram formalmente convocados e as audiências preliminares estão suspensas por tempo indeterminado.
Um país tomado pela violência
A escalada da violência no Haiti atingiu níveis inéditos em 2025. Segundo o Escritório Integrado da ONU no Haiti (BINUH), mais de 4.000 assassinatos foram registrados até agora este ano, incluindo 465 mulheres e crianças, um aumento de 24% em relação a 2024.
O subsecretário-geral da ONU para a Europa, Ásia Central e Américas, Miroslav Jenča, alertou o Conselho que a capital Porto Príncipe está "para todos os efeitos paralisada por gangues e isolada". Ele também advertiu que, sem intervenção internacional urgente, o colapso total do Estado é uma possibilidade real.
De acordo com o Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC), mais de 1,3 milhão de haitianos foram forçados a deixar suas casas pela violência, três vezes mais que em 2023 e seis vezes mais que em 2022.
A diretora do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, sigla em inglês), Ghada Waly, informou que cerca de 90% de Porto Príncipe está sob controle de grupos armados. O crime, segundo ela, se expande rapidamente para outras regiões do país.
Entre os impactos diretos, Waly mencionou o fechamento de uma hidrelétrica responsável por 30% da energia do Haiti e o surgimento de grupos de vigilantes armados.
Apesar disso, o Conselho Eleitoral Provisório, com apoio da ONU, segue tentando organizar eleições em fevereiro de 2026. Mas Jenča adverte: as divisões políticas internas e a violência em curso comprometem seriamente essa possibilidade.
Uma missão internacional, poucos resultados
A Missão Multinacional de Apoio à Segurança (MSS, sigla em inglês), liderada pelo Quênia e com aval da ONU, completou um ano no Haiti em 25 de junho. Desde a chegada dos primeiros 400 policiais quenianos em 2024, a força já soma mil integrantes, com contribuições de Jamaica, Belize, Bahamas, Guatemala e El Salvador, informou a agência de notícias EFE.
Seu objetivo é apoiar a Polícia Nacional do Haiti no combate às gangues, mas os avanços têm sido limitados até agora.


