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Trabalho escravo em fazenda no Pará resulta em condenação da Volkswagen

Correspondente da RT no Brasil visitou fazenda no sul do Pará, onde trabalhadores relataram dívidas, isolamento e restrição de saída entre 1974 e 1986.

Durante o período do regime militar no Brasil, a ocupação da Amazônia foi incentivada sob o lema "Integrar para não entregar", com a entrada de grandes empresas na região.

Nesse contexto, uma fazenda ligada à montadora Volkswagen, no sul do estado do Pará, tornou-se cenário de trabalho escravo.

A correspondente da RT no Brasil, Milena Portella, visitou a fazenda onde funcionou o empreendimento Vale do Rio Cristalino, uma das maiores áreas da região.

Entre 1974 e 1986, centenas de trabalhadores foram levados ao local com promessas de emprego para atuar na derrubada da floresta e na abertura de pastagens em uma área superior a 140 mil hectares.

Ao chegarem, os trabalhadores encontravam um sistema baseado em dívidas, isolamento e restrições de deslocamento. Muitos não conseguiam retornar às suas cidades de origem.

De acordo com Rafael Garcia Rodrigues, fiscal do Ministério Público do Trabalho (MPT), "eles eram submetidos às mais variadas violências físicas e psicológicas".

Segundo ele, "esses trabalhadores permaneciam na mata sem qualquer condição de higiene, de saúde, condição mínima de trabalho, de alimentação". Ele acrescenta que "eram proibidos de sair da fazenda e retornar para suas residências".

Como tudo era realizado?

O esquema começava antes da chegada à fazenda. Aliciadores percorriam pequenas cidades, faziam promessas de emprego e criavam dívidas antecipadas. Já no local, os trabalhadores permaneciam vinculados ao sistema.

Eles viviam em alojamentos sem estrutura, enfrentavam jornadas extensas de trabalho e precisavam pagar por itens como alimentação, ferramentas e transporte. As dívidas aumentavam continuamente.

Os relatos começaram a ser reunidos no fim dos anos 1970 pelo padre Ricardo Rezende Figueira, autor de denúncias e pesquisador sobre trabalho escravo contemporâneo na UFRJ. Com o tempo, as denúncias se ampliaram.

"Dentro da fazenda, um trabalhador perguntou quem é o padre? Eu falei, sou eu". Ele relata: "ele me agarrou e disse, você tem que me salvar".

Questionado sobre "salvar do que", o trabalhador respondeu: "salvar porque eu estou aqui há nove meses trabalhando, tenho dívida, a dívida só aumenta, e eu não tenho como pagar". E acrescentou: "estou com malária, vou morrer aqui dentro sem poder sair".

As denúncias da Comissão Pastoral da Terra levaram o então deputado e advogado Expedito Soares até a fazenda para verificar a situação. "Havia quatro trabalhadores sentados na carroceria", relatou. 

Ele relata que pediu ao motorista que parasse o veículo para verificar a situação. "Os caras estavam amarrados", afirmou. Segundo ele, "tinha um pneu, dois estavam no pneu, o outro estava sentado no chão".

Ao questionar o motivo, ouviu como resposta "é porque eles tentaram fugir estando devendo a fazenda".

Em 2026, a Justiça brasileira condenou a Volkswagen, em segunda instância, ao pagamento de mais de 165 milhões de reais por danos morais coletivos, ao reconhecer a existência de trabalho escravo na fazenda. A empresa ainda pode recorrer a instâncias superiores, enquanto seguem ações individuais.

O ex-trabalhador da fazenda Volkswagen, João José, também relatou as condições enfrentadas. "Apesar de a gente fazer muito serviço, não deu para tirar a saúde".

"Eu não tirei saldo nenhum e os outros também não", afirmou. 

Atualmente, parte das terras é destinada à reforma agrária.