
Europa tem plano B se EUA abandonarem a OTAN

Ante o contínuo esfriamento das relações entre os EUA e seus aliados europeus, a UE se prepara com cada vez mais seriedade para um cenário em que Washington poderá reduzir sua participação na OTAN.
Trump já criticou repetidamente a aliança por sua falta de apoio na guerra contra o Irã e a classificou como "um tigre de papel". Ao mesmo tempo, líderes europeus criticam de forma cada vez mais aberta a aventura militar EUA-israelense no Oriente Médio.
Nesse contexto, a revista The Economist informa em publicação na terça-feira (19) que capitais europeias começaram a elaborar planos secretos para condução de operações militares em caso de uma possível saída dos EUA da OTAN.
Em que consiste o plano?
Segundo a publicação, após a crise da Groenlândia, vários países da UE concluíram que a Europa precisa se preparar para garantir sua própria segurança sem depender da infraestrutura militar dos EUA nem dos mecanismos de comando da OTAN.

"A crise da Groenlândia foi um alerta. Percebemos que precisamos de um Plano B", afirmou um funcionário da Defesa da Suécia.
Segundo a revista, a essência do Plano B consiste não apenas na autossuficiência em munições, mas também no desenvolvimento de um mecanismo de comando em que o papel principal seja exercido por militares europeus.
Como destaca a The Economist, a base dessa arquitetura de segurança no norte da Europa poderia ser uma coalizão formada pelos países bálticos e escandinavos, junto com a Polônia.
Outra opção considerada é a Força Expedicionária Conjunta (JEF), uma aliança liderada pelo Reino Unido que reúne dez países do norte da Europa e do Báltico, com sede próxima a Londres. Inicialmente, a estrutura foi criada em 2014 como complemento da OTAN para responder rapidamente a situações de crise fora do alcance do artigo 5º da aliança. Agora, porém, a JEF pode se tornar o protótipo de um futuro sistema de segurança europeu sem os EUA.
Convém a Trump sair da OTAN?
As ameaças do presidente dos EUA de abandonar a aliança dão aos líderes europeus mais instrumentos de influência, avalia o cientista político russo Timofey Bordachev, diretor de programas do Clube de Discussão Internacional Valdai.
"Na Europa, entende-se perfeitamente que, sem manter sua presença no Velho Continente, Washington corre o risco de entrar em isolamento geopolítico total. E todo esse discurso de que a OTAN serve para proteger os europeus de supostos inimigos terríveis não passa da reprodução de um mito. Todo o sentido desse mito é criar uma embalagem bonita para a realidade das relações entre EUA e Europa, nas quais é justamente Washington a parte mais interessada em manter as 'relações especiais'", afirmou.
Segundo o especialista, esse cenário faria com que os custos de um possível confronto com a Rússia fossem inevitavelmente mais altos, já que privaria os EUA de sua base operacional e colocaria seu território em risco.
Além disso, Washington perderia a possibilidade de pressionar a Rússia com o avanço de seus recursos nucleares em direção à fronteira russa.
"Em outras palavras, para os Estados Unidos, a presença militar na Europa é um enorme trunfo diplomático, cuja perda seria uma catástrofe para suas relações com seus principais rivais na Eurásia. Os governos anteriores entendiam isso perfeitamente, mas há dúvidas de que a atual Administração tenha isso tão claro", acrescentou.

