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Guerra no Irã pode empurrar mais 45 milhões de pessoas para a fome

Embora Washington insista que o conflito com Teerã não está lhe causando prejuízos, os números contam outra história.
Guerra no Irã pode empurrar mais 45 milhões de pessoas para a fomeRT

Em meio à incerteza nos campos militar e diplomático da guerra no Irã, no front econômico já ocorreram acontecimentos que não indicam nada de positivo, explica o analista Karthik Sankaran em um artigo para o Responsible Statecraft publicado na terça-feira (26).

O autor, pesquisador sênior de geoeconomia do programa "Sul Global" do Instituto Quincy, sediado em Washington, lembra que os preços do petróleo Brent — embora tenham recuado para US$ 91 (R$ 458) após as notícias sobre um possível acordo —  continuam significativamente acima dos US$ 60 (R$ 302) por barril registrados no início de janeiro.

Segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), o déficit total no fornecimento de petróleo proveniente do Golfo Pérsico alcançava aproximadamente 1 bilhão de barris em 13 de maio.

Esse déficit foi compensado por uma menor demanda, pelo aumento da produção fora da região e pela redução das reservas globais em 250 milhões de barris. No entanto, o diretor da AIE advertiu que os estoques estão diminuindo em um ritmo insustentável.

"O maior impacto do aumento dos preços (e da escassez direta) de combustíveis, produtos petroquímicos e fertilizantes está sendo sentido pelas camadas mais pobres da população dos países do Sul Global", escreve Sankaran.

Na Somália, os custos do transporte de milho e da água dobraram ou até triplicaram, enquanto no Quênia os protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis deixaram quatro mortos.

"Histórias como essas se repetem amplamente em todo o Sul Global", destaca o analista, citando um relatório do Programa Mundial de Alimentos que prevê que mais 45 milhões de pessoas poderão enfrentar situação de fome aguda.

Indicadores regionais

O especialista explica que a economia dos países em desenvolvimento sofre com o aumento do déficit comercial, da inflação, da desvalorização das moedas e da redução das reservas.

Muitos países estão vendendo ouro e reservas em moeda estrangeira. As perdas das reservas das Filipinas chegam a 8,1%, as da Índia a 5,1% e as da Indonésia a 3,8%.

Nesse contexto, a Europa é menos dependente do petróleo do Golfo Pérsico — apenas 7% de seu petróleo bruto provém da região —, enquanto a Ásia obtém cerca de 60% de seu abastecimento a partir dela.

No entanto, observa o autor, a Europa não está livre das consequências. O comissário europeu para Economia e Produtividade advertiu que o bloco enfrentará um "choque" estagflacionário.

Sankaran ressalta que a União Europeia e o Reino Unido, por serem regiões relativamente ricas, podem arcar com subsídios fiscais para empresas afetadas. Isso, porém, obriga os países mais pobres, que não têm condições de financiar medidas semelhantes, a reduzir sua demanda por petróleo.

O analista destaca que a América Latina mostrou maior resiliência às turbulências, já que Argentina, Brasil, Colômbia e Equador são exportadores líquidos de energia, enquanto o México possui um pequeno déficit, mas compra a maior parte de seu gás dos Estados Unidos.

O Chile, esclarece, é a principal exceção. Ainda assim, por ser exportadora de produtos agrícolas, a região latino-americana é vulnerável ao aumento dos preços dos fertilizantes e à inflação, o que pode obrigar os bancos centrais a elevar as taxas de juros.

O impacto da guerra nos Estados Unidos

O autor afirma que o governo Trump minimizou o impacto da guerra sobre a população norte-americana, destacando o aumento da produção de petróleo e a redução da dependência das importações.

No entanto, segundo estudos do Federal Reserve de Nova York, as famílias de menor renda foram mais afetadas do que as autoridades admitem, sendo obrigadas a alterar seus trajetos para evitar gastos excessivos com combustível.

Além disso, a agricultura dos Estados Unidos sofreu um duplo impacto: os preços dos fertilizantes e do diesel dispararam, acrescenta Sankaran.

Um relatório da organização Farm Bureau aponta que 70% dos agricultores afirmam não ter condições de comprar todos os fertilizantes necessários. O autor adverte que isso pode provocar uma redução da produtividade agrícola e um aumento dos preços dos alimentos, afetando de forma especialmente severa os pequenos produtores do Sul Global.

Sinais de alerta

Sankaran avalia que, embora o mercado de ações dos Estados Unidos tenha permanecido estável graças às empresas de inteligência artificial e de semicondutores, os mercados globais de títulos apresentam sinais preocupantes.

O aumento das pressões inflacionárias e dos custos orçamentários provocou uma elevação significativa dos rendimentos dos títulos públicos em todo o mundo. Após a inflação anual nos Estados Unidos subir 3,8% em relação ao mês anterior, o rendimento dos títulos do Tesouro americano de 30 anos atingiu o nível mais alto em três décadas.

Segundo o autor, isso é uma boa notícia para os detentores de títulos recém-emitidos, mas prejudica quem deseja comprar ou refinanciar um imóvel, já que as taxas de hipoteca sobem junto com os rendimentos dos títulos públicos.

"Assim, as consequências desta guerra dentro dos Estados Unidos podem não ser tão graves quanto em grande parte dos países do Sul Global. No entanto, mesmo dentro dos Estados Unidos, muito mais pessoas perderão do que ganharão com os efeitos econômicos desta guerra", conclui Sankaran.