Encerrado no sábado (6), o Fórum Internacional Econômico de São Petersburgo (SPEIF-2026) materializou a relevância e influência político-econômica da Rússia, atraindo participantes de todo o mundo e presenças ilustres que evidenciam que está olhando para o país neste momento, com olhos ao futuro.
Dentre os convidados, uma presença representou não apenas a visão desse futuro pelo alcance contemporâneo das relações de cooperação e amizade da Rússia com outros países, mas também as raízes de um passado de amizade.
A participação da presidente da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan, em visita de Estado, simboliza a potencialidade de fundamento desta memória histórica em um efetivo motor de confiança e prosperidade mútua.
Primeiros contatos
O primeiro vínculo formal conhecido entre a Rússia e a Tanzânia remonta a 1896, quando foi assinado em Londres, no Reino Unido, o acordo sobre as relações comerciais entre o Império Russo e Zanzibar, formações estatais que antecederam a configuração atual de ambos os países.
O documento previa bases para intercâmbio mercantil e abertura para a nomeação de cônsules, numa época em que Zanzibar era um ponto central das redes suaílis e do comércio do Oceano Índico.
Antes disso, em 1892, o interesse russo pela região já aparecia em discussões diplomáticas ligadas à Conferência Antiescravidão de Bruxelas e à presença europeia no arquipélago.
Esse passado ganhou um registro incomum na viagem de Selim bin Abakari, natural de Zanzibar, que percorreu a Rússia em 1896 ao lado do médico alemão Theodor Bumiller. Seu relato, escrito em suaíli, passou por São Petersburgo, Moscou, a região do Volga, a Sibéria, os montes Altai, o Cazaquistão e a Ásia Central.
O texto é valioso porque mostra a Rússia do fim do século XIX pela perspectiva de um africano, com atenção a mercados, clima, deslocamentos, comunidades muçulmanas e reações de russos ao encontro com um visitante de outra etnia. Na narrativa de Selim, Moscou é vista como um centro comercial ativo; São Petersburgo impressiona pelas noites brancas; a Sibéria surge marcada por contrastes climáticos e pela presença de comunidades muçulmanas.
Luta anticolonial e defesa do socialismo
A fase moderna das relações começa com a descolonização da África Oriental. O Estado da Tanganica se tornou independente em 9 de dezembro de 1961, e a União Soviética foi um dos primeiros países a reconhecê-lo oficialmente. Em 18 de janeiro de 1964, o governo soviético e a República Popular de Zanzibar e Pemba estabeleceram relações diplomáticas. Depois da revolução de Zanzibar e da união com Tanganica, formou-se em 26 de abril de 1964 a República Unida da Tanzânia, que consolidou o novo quadro diplomático.
Julius Nyerere, primeiro presidente do país, deu forma política a essa nova etapa. A sua ideia de Ujamaa — frequentemente traduzida como "fraternidade comunitária" — foi sistematizada na Declaração de Arusha, de 5 de fevereiro de 1967, que defendeu socialismo e autossuficiência. A lógica visava desenvolver o país sem depender em excesso de capitais externos, preservando soberania política e margem de decisão nacional.
"Nenhuma nação tem o direito de tomar decisões por outra nação; nenhum povo por outro povo", sintetizou Nyerere em 1968, formulando a filosofia que guiaria boa parte da política externa tanzaniana pela história. A frase resume o tipo de independência que a Tanzânia buscava — isto é, cooperação, sim, mas sem tutela — fundamentando os motivos de seu interesse de aproximação com Moscou.
No curso da Guerra Fria, essa relação combinou proximidade política e prudência ideológica. Moscou via com interesse o experimento da Tanzânia, mas entendia que o Ujamaa não era uma reprodução do marxismo-leninismo soviético. Ao mesmo tempo, o governo tanzaniano assumia papel relevante no apoio a movimentos de libertação africanos e servia de base para organizações como a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO) e o Congresso Nacional Africano (ANC). A Tanzânia se tornou uma peça inestimável da política anticolonial na África Oriental e Austral.
Cooperação como instrumento de emancipação
Educação, formação técnica, medicina, geologia e assistência institucional foram áreas centrais de cooperação concreta, fruto dessa convergência política.
O Banco Mundial registrou que o maior contrato de exploração mineral então assinado pela Tanzânia havia sido o firmado em 1969 com a Technoexport soviética, para mapeamento de áreas centrais e ocidentais e prospecção de ouro e metais básicos em Mpanda e Lupa. É um dado revelador, demonstrando que a parceria não se limitou ao discurso ideológico, mas alcançou áreas de base, com potencial direto para a estrutura produtiva do país.
Nesse sentido, a cooperação em educação técnica foi um dos legados mais visíveis desse período. Em 1969, a URSS e a Tanzânia assinaram acordo para o envio de professores soviéticos a escolas e faculdades tanzanianas.
A assistência também se traduziu em infraestrutura, com o Mbeya Technical College inaugurado em 1986 com apoio soviético e ainda em funcionamento no sul do país. Em paralelo, o ensino superior soviético formou médicos, engenheiros, professores e quadros administrativos que depois ocuparam posições-chave na Tanzânia independente.
Pesquisas sobre a circulação de estudantes africanos na URSS são bem documentadas que, e dados oficiais apontam que somente a Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba (RUDN), sediada em Moscou, formou mais de 1,100 estudantes tanzanianos ao longo do tempo. A formação de quadros era e segue sendo uma forma de criar vínculos duradouros, a partir da construção dos Estados e da capacitação de serviços e avanço tecnológico-científico.
Esther Daniel Mwaikambo, primeira mulher formada em medicina da Tanzânia, oferece uma das biografias mais reveladoras dessa relação, evidenciada por sua graduação na RUDN. Depois de retornar a seu país de origem, tornou-se referência na pediatria tanzaniana e na organização de iniciativas de saúde pública. Sua trajetória demonstra como a cooperação ultrapassou a diplomacia e entrou na própria arquitetura social do país.
Sobrevida de uma amizade
O fim da URSS reduziu o impulso dessas relações, mas não apagou seus efeitos. O Centro Russo de Ciência e Cultura em Dar es Salaam passou a funcionar em 1990 e, desde então, preserva a ponte linguística e cultural construída ao longo do século XX.
A diplomacia russa insiste que os laços sobreviveram à mudança de época porque deixaram de ser apenas estatais e passaram a ser também humanos, profissionais e acadêmicos.
Especialmente nos últimos anos, Moscou voltou a enxergar a Tanzânia como parceiro prioritário na África Oriental. A embaixada russa em Dar es Salaam afirma que a base da relação foi construída durante a luta anticolonial e que a dinâmica bilateral vem crescendo.
Neste ano, a representação russa destacou o avanço da cooperação em defesa e educação; em fevereiro, o chanceler tanzaniano Mahmoud Thabit Kombo esteve em Moscou; e, em 2025, se reuniu a comissão intergovernamental sobre comércio e cooperação econômica.
Ganhos estratégicos
A Tanzânia é um país com saída para o Oceano Índico, portos relevantes e ligação logística com uma vasta região do interior africano, desenhando uma geografia particularmente estratégica e geopoliticamente atraente. Em Dar es Salaam, Tanga e Mtwara, a infraestrutura portuária conecta a Tanzânia a vizinhos como Zâmbia, Ruanda, Burundi, Uganda e República Democrática do Congo.
Para Moscou, isso torna o país um possível corredor de distribuição e uma plataforma de presença regional.
Em 2024, as importações da Tanzânia vindas da Rússia somaram US$ 295,33 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhões), sendo US$ 252,3 milhões representados por trigo e outros cereais, e US$ 37,54 milhões por fertilizantes.
Em relação a projetos de valor agregado, a Rússia coopera com o país na exploração de urânio do rio Mkuju, conduzido pela Mantra Tanzania, ligada à Uranium One e à Rosatom.
Em 30 de julho de 2025, a empresa anunciou a entrada em operação de uma planta piloto de processamento de mineral. Segundo a Rosatom, o projeto é um marco para as reservas estratégicas de urânio da Tanzânia e para a expansão da cadeia nuclear russa no exterior.
A natureza histórica dessa cooperação e a potencialidade latente em um caminho de prosperidade comum ecoa nos fundamentos da política tanzaniana o princípio de autonomia que Nyerere sintetizou e legou para seus sucessores. A Tanzânia cultivou relações com soviéticos, russos, chineses, ocidentais e instituições multilaterais sem abandonar sua autodeterminação.
É essa continuidade que dá densidade à relação com Moscou até hoje. A afinidade histórica existe; o que define seu futuro, porém, é a qualidade genuína dessa parceria como um eixo de sustentação de uma relação que é útil e cooperativa para dois países em busca de aprofundar sua soberania.