'Tragédia de magnitude que nunca imaginamos': Delcy Rodríguez faz balanço após terremotos

Desastres naturais já deixaram 2.595 mortos na Venezuela. A presidente encarregada anunciou a criação de um "fundo para a reconstrução" do país ligado ao FMI.

A presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, participou de uma entrevista coletiva nesta quinta-feira (2), na qual detalhou as medidas tomadas por seu governo para lidar com os danos causados dos terremotos devastadores que assolaram o país sul-americano no dia 24 de junho. Segundo a autoridade, o desastre natural já deixou 2.595 mortos e mais de 12.400 feridos.

"O que ocorreu foi uma tragédia natural de uma magnitude que nunca imaginamos, embora fosse possível que um evento sísmico ocorresse em nosso país", afirmou Rodríguez a jornalistas.

Ações imediatas

Assim, a presidente encarregada desmentiu as notícias da mídia — que classificou como "mesquinhas e cruéis" — segundo as quais seu governo não prestou assistência oportuna às vítimas.

"Imediatamente, todo o Estado venezuelano entrou em ação. A primeira medida que tomamos, poucas horas após o ocorrido, foi emitir um decreto criando o Estado-Maior para lidar com essa situação de emergência diante de um desastre natural, conforme previsto nas leis da República", afirmou.

E prosseguiu: "Não esperamos um dia, dois dias, três dias: a mobilização ocorreu imediatamente. Obviamente, nos locais onde os prédios desabaram, as primeiras pessoas a chegar foram os sobreviventes do próprio desabamento, familiares e vizinhos", aos quais se juntaram posteriormente equipes de resgate e voluntários especializados e não especializados vindos de todo o país, após o estabelecimento de uma ponte aérea.

A autoridade revelou que, após receber os primeiros relatos, seu governo estava ciente de que estava enfrentando "uma grande catástrofe natural" e que o estado de La Guaira "havia se tornado uma área de desastre".

Segundo Rodríguez, "nas primeiras horas" foram mobilizados 4.000 funcionários civis e militares. No dia seguinte, 25 de junho, o número aumentou para 14.000 e, atualmente, somente nessa região há mais de 19.000 efetivos em campo. Além disso, foi tomada a decisão de militarizá-la, "para restringir o acesso e permitir que os especialistas em resgate e busca realizassem seu trabalho".

Rodríguez agradeceu a resposta internacional à crise, com ligações de "72 chefes de Estado e de Governo" e o envio de equipes de resgate para salvar o maior número possível de vidas. "Vejam só, 147 países demonstraram solidariedade com a Venezuela. Agradeço em nome do nosso povo", declarou.

"Fizemos uma comparação das respostas a eventos semelhantes ocorridos recentemente em outros países e constatamos que nossa ativação institucional foi a mais precoce", ressaltou.

Danos e reconstrução

De acordo com o último boletim, 189 edifícios desabaram nas regiões afetadas pelos terremotos. 181 dessas construções encontram-se em La Guaira, onde uma parcela significativa de funcionários da Secretaria de Governo, da Prefeitura e das forças militares e de segurança perdeu a vida.

A presidente encarregada informou que um grupo israelense "altamente especializado" encontra-se na Venezuela, atuando em processos de "reconstrução de infraestrutura, avaliação da situação das infraestruturas que não desabaram completamente, mas que podem ter sofrido danos" e localização de pessoas com vida.

Rodríguez anunciou ainda a criação de um "fundo para a reconstrução", que terá um capital inicial equivalente a US$ 200 milhões provenientes de recursos da Venezuela depositados no Fundo Monetário Internacional (FMI). Esses recursos, explicou, serão necessários para restaurar ou reconstruir os 855 edifícios, infraestruturas e serviços que sofreram danos devido aos terremotos, aos quais se seguiram 862 réplicas.

"Precisamos estar atentos para que essas estruturas que foram afetadas, que foram danificadas, não sofram um impacto ainda maior devido às réplicas", alertou. Segundo a autoridade, estão em andamento estudos científicos do solo para garantir que as novas moradias a serem construídas para as vítimas da tragédia sejam erguidas em locais seguros.

Além disso, ela acrescentou que o Estado venezuelano abriu uma conta na Corporação Andina de Fomento (CAF) para receber doações internacionais. "O dinheiro que chegar à CAF será destinado à habitação, com todos os mecanismos de auditoria. É por isso que vai para um banco internacional", explicou.

"Ninguém vai para uma vala comum"

Ao ser questionada pela imprensa sobre a possibilidade de as pessoas que perderam a vida na tragédia serem enterradas em uma vala comum, Rodríguez negou essa possibilidade e afirmou que as decisões adotadas pelo Executivo estão em conformidade com o previsto nos protocolos internacionais e com o disposto nas leis locais.

"Desde o início, eu disse: 'Ninguém vai para uma vala comum' e dei a ordem ao vice-presidente setorial [Diosdado Cabello] de que a primeira coisa [a ser feita] fosse a identificação por impressão digital e fotografia. Nos casos em que isso não foi possível, recorremos à análise odontológica forense. Todos os médicos legistas estão trabalhando nessa tarefa, o que permitiu que cada corpo tivesse um prontuário que possibilitasse sua identificação", explicou.

Nesse contexto, a autoridade destacou que as estimativas sobre o número provável de vítimas dos terremotos, feitas por organismos internacionais e divulgadas pela imprensa, foram elaboradas partindo do pressuposto de que os tremores afetariam as áreas próximas à Cordilheira da Costa, mais densamente povoadas do que o litoral marítimo, onde há muitas residências de veraneio.

"Não queremos divulgar números que não tenham sido rigorosamente comprovados", afirmou, após ser questionada pelos jornalistas sobre a discrepância entre os números oficiais e as projeções mencionadas.