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15 anos do Sudão do Sul: entenda por que o estado mais novo do mundo está à beira do colapso

Por trás do caos humanitário e de um ciclo de guerras civis, violência interétnica e instabilidade política, escondem-se disputas estratégicas pelo controle das reservas de petróleo e a influência das grandes potências na região.
15 anos do Sudão do Sul: entenda por que o estado mais novo do mundo está à beira do colapsoGettyimages.ru / The Sydney Morning Herald / Contributor

O Sudão do Sul é o país mais novo do mundo, tendo sido criado há apenas 15 anos. No entanto, os problemas econômicos, violência sectária e a instabilidade política que motivaram a independência persistem  problemas que têm raízes profundas na história do país, às vezes plantados deliberadamente, outras, por negligência.

Sudão sob o governo britânico: nações divididas 

A região que hoje abriga dois estados independentes foi alvo de colonizadores por muito tempo. O Império Otomano já havia estabelecido presença na região no século XVI, trazendo consigo a escravidão, que moldou a economia e sociedade sudanesas para sempre.

Em 1821, a região foi ocupada pelo Egito, então parte do Império Otomano, e no final do século XIX um acordo de governança conjunta entre o Reino Unido e o Egito tornou o Sudão, na prática, em uma colônia britânica

Nesta altura, tanto por causa das diferenças na administração, razões geográficas — como a divisão do território pelo rio Nilo Branco — e a postura dos colonizadores, as diferenças entre Sudão e Sudão do Sul se tornavam cada vez mais drásticas.

Os britânicos já governavam a colônia como dois estados de fato separados. Enquanto o Norte falava árabe e sua cultura islâmica, já consolidada, era vista como mais "civilizada", o Sul, de matriz animista e africana, era rotulado como "bárbaro" e incapaz de abrigar atividades econômicas mais complexas, que foram intencionalmente concentradas no norte.

Os povos do Sul, historicamente marginalizados, eram sujeitos a uma dominação mais direta dos britânicos que buscava impedir que eles fossem assimilados pelo Norte, justificada pela necessidade de corrigir a injustiça histórica causada pela escravidão.

Locais não podiam batizar seus filhos com nomes árabes, casamentos interétnicos eram fortemente desencorajados e missionários cristãos proselitizavam com liberdade, ressaltando a diferença de identidade entre as duas regiões.

Sudaneses unificados 

Diante da crescente insatisfação, as autoridades britânicas já analisavam alternativas como formalizar a divisão dos países ou juntar o Sudão do Sul às suas colônias na África Oriental. No entanto, em 1947, governadores provinciais optaram por manter o estado unitário.

Em 1º de janeiro de 1956, o Sudão tornou-se oficialmente independente.

Entre a decisão de preservar a unidade territorial e o fim do domínio colonial, as autoridades britânicas abandonaram rapidamente sua política de administração separada do Sul e promoveram uma "sudanização" conduzida principalmente pelas elites árabes do Norte, reduzindo a autonomia administrativa anteriormente concedida às províncias meridionais.

Na prática, a manutenção do Estado unificado consolidou a predominância política e cultural do Norte sobre o Sul, cujas populações passaram a enxergar o novo governo central como a continuidade de uma dominação colonial.

As guerras civis 

A violência interétnica foi uma constante na história do Sudão independente, que esteve em guerra civil pela maior parte da sua existência, com o status do Sul sendo justamente o maior ponto de conflito. A primeira guerra, entre 1955 a 1972, terminou com um acordo assinado na Etiópia que formalizou a criação da Região Autônoma do Sudão do Sul.

Em 1983, sob pressão de fundamentalistas islâmicos descontentes com o status quo, a autonomia conquistada pelo Sudão do Sul foi revogada, dando origem à segunda guerra civil.

O conflito armado, o mais longo da história da África, se estendeu até 2005, quando um acordo de paz abriu caminho para um referendo de independência do sul.

Independência do Sudão do Sul 

Em janeiro de 2011, 98% dos eleitores do Sudão do Sul votaram esmagadoramente pela independência. Em apenas seis meses, seu primeiro presidente tomou posse: Salva Kiir Mayardit, sucessor de John Garang, líder do movimento independentista durante toda a guerra civil, que venceu as eleições com 93% dos votos.

Os conflitos interétnicos porém não cessaram, dessa vez entre as etnias que compunham o próprio Sudão do Sul. Em 2013, divergências entre o presidente Salva Kiir Mayardit e o vice-presidente Riek Machar mergulharam o país na sua própria guerra civil.


Mayardit é originário da etnia dinka, que consiste em 40% da população do país e exercia posição dominante, enquanto Machar é nuer. Tensões étnicas entre os diferentes povos do Sudão do Sul, que praticam agricultura de subsistência e pastoreio e disputam os mesmos recursos, não tardaram a surgir.

O conflito entre o exército regular e as tropas leais a Machar deixou mais de 2,2 milhões de refugiados até o acordo de paz de 2018, mediado por Uganda e pelo antigo inimigo comum, o Sudão.

O acordo não trouxe a paz definitiva que se esperava. As reformas constitucionais e na composição das forças armadas jamais foram implementadas, e em 2025 Machar foi colocado em prisão domiciliar acusado de traição.

Novos conflitos entre os rebeldes nuer e o governo central eclodiram em 2025, trazendo mais instabilidade e pobreza em um país aonde mais de 70% da população precisa de ajuda humanitária.

As agências da ONU destacam fome e violência sexual, a ameaça de uma epidemia de cólera, e estimam que o total de 10 milhões precisa da ajuda humanitária nos dois países, simultaneamente afetados por conflitos. 

Em fevereiro de 2026 o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos denunciou as violações ao acordo e a nova onda de hostilidades, enfatizando o risco de graves violações aos direitos humanos, ao direito internacional e a impossibilidade de se construir uma democracia estável no país.

EUA e petróleo 

A independência do Sudão do Sul veio com apoio quase unânime da comunidade internacional e das potências ocidentais, como os EUA. Porém esse apoio não foi puramente por preocupaçoes idealistas e humanitárias: ele refletiu interesses estratégicos concretos, especialmente ligados ao petróleo e à influência regional.

Desde a descoberta de reservas no sul do Sudão, Washington passou a ver a região como um espaço importante para sua manter sua influência sobre o continente africano e para o equilíbrio de poder no Chifre da África. O governo do Sudão era visto como um regime hostil, e seria útil abrir espaço para um novo aliado no sul, mais alinhado aos interesses ocidentais.

O Sudão do Sul concentrava a maior parte das reservas de petróleo da antiga unidade sudanesa, o que transformou a independência em algo muito além de um processo político interno. A separação do país passou a envolver disputas sobre controle de recursos, exportação de petróleo e influência sobre as novas elites sul-sudanesas.

Sem acesso ao mar, o Sudão do Sul depende de outros países para transportar o seu petróleo para exportação, com a única rota viável sendo por um oleoduto ligando o país ao Mar Vermelho, na cidade de Porto Sudão.

O uso do porto para exportações ainda é um ponto de atrito entre os dois países. Dependente de ajuda humanitária, vulnerável a pressões dos países vizinhos e sem unidade e estabilidade interna, a independência não trouxe soberania de fato ao Sudão do Sul.