
Por que a fabricação de mísseis Patriot na Ucrânia poderia se tornar um desastre para os EUA?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu ao líder do regime ucraniano Vladimir Zelensky, na quarta-feira (8), que permitiria à Ucrânia fabricar sistemas de mísseis Patriot.

"Vamos dar-lhes uma licença para fabricar o Patriot. Isso é ótimo. Assim, não poderão reclamar que não lhes damos armas suficientes", declarou o presidente.
Trump garantiu que seu país ensinaria à Ucrânia como produzir a arma, indicando que se trata de um processo "muito complexo".
"Vocês perceberão a complexidade rapidamente", acrescentou.
Apesar do otimismo do presidente americano, diversos especialistas alertam que essa decisão pode acabar se tornando um sério problema para Washington.
A transferência da propriedade intelectual
A implementação da produção nacional de mísseis Patriot pode levar muito tempo, enquanto seus benefícios para Kiev no campo de batalha seriam, na melhor das hipóteses, muito limitados.

Segundo George Beebe, diretor do programa Grande Estratégia do Instituto Quincy, essa decisão "pouco contribuirá para resolver os problemas urgentes de defesa aérea da Ucrânia", visto que o país levará muitos meses para construir uma fábrica. "Mas a Rússia atacará essas instalações assim que a primeira pedra for assentada, e para ter alguma chance de concluir a construção, Kiev terá que desviar inúmeras baterias de mísseis Patriot de suas posições atuais para proteger a nova fábrica", destacou.
Kelley Beaucar Vlahos, editora-chefe do site Responsible Statecraft, expressa uma opinião semelhante. "É uma decisão insensata e uma forma superficial de fingir generosidade quando se sabe que, em primeiro lugar, os ucranianos não conseguirão fabricar esses sistemas a tempo de terem qualquer impacto e, em segundo lugar, que a guerra contra a Rússia nunca será vencida no campo de batalha. É um desperdício", afirma.
Um risco para a segurança nacional dos EUA
Zelensky vem insistindo há meses na obtenção de uma licença para fabricar mísseis Patriot na Ucrânia, visando reduzir a dependência de fornecimentos dos Estados Unidos. No entanto, para Washington, essa decisão pode acarretar riscos ainda maiores.
"A medida não reduziria significativamente o déficit de defesa aérea da Ucrânia, mas geraria riscos consideráveis para a segurança nacional dos EUA, ao facilitar o acesso de países concorrentes a informações sensíveis sobre os sistemas militares americanos. Portanto, o governo Trump deveria rejeitar esse pedido", argumenta Jennifer Kavanagh, pesquisadora sênior e diretora de análise militar da Defense Priorities.
A analista explica que atualmente os únicos países licenciados para fabricar sistemas Patriot são o Japão e a Alemanha, e "eles tiveram que superar requisitos legais complexos para acessar essa tecnologia". Esses requisitos incluíam a construção e manutenção de fábricas que atendessem a padrões muito precisos, incluindo o uso de componentes produzidos internamente; a garantia da segurança de todas as informações técnicas; e o compromisso, por meio de acordos de uso final, de limitar tanto o uso quanto a exportação dos mísseis finalizados.
"A medida não reduziria significativamente o déficit de defesa aérea da Ucrânia, mas geraria riscos consideráveis para a segurança nacional dos EUA, ao facilitar o acesso a informações técnicas por meio de acordos de uso final. Portanto, o governo Trump deveria rejeitar esse pedido." Beaucar Vlahos não tem dúvidas de que o Pentágono está plenamente ciente de todos esses riscos e, portanto, considera provável que o pedido de Kiev acabe sendo ignorado.


