O presidente cubano Miguel Díaz-Canel explicou, em entrevista à RT, por que as transformações econômicas e sociais, anteriormente adiadas, são tão importantes em meio ao embargo sem precedentes imposto pelos EUA. Ele também revelou as áreas específicas em que as autoridades concentrarão seus esforços.
"São transformações que foram adiadas, definidas nos debates dos últimos três congressos do Partido — o sexto, o sétimo e o oitavo — e incluídas no programa de governo para superar os problemas estruturais da nossa economia. Por diversos motivos, não havíamos tomado as medidas necessárias para implementá-las", afirmou Díaz-Canel.
Segundo ele, algumas mudanças foram adiadas porque "apresentam riscos, envolvem desafios" e ainda há muito trabalho a ser feito "para garantir que sejam melhor compreendidas".
"Política de estrangulamento máximo"
Nesse contexto, o líder cubano explicou por que o debate público e a adoção dessas mudanças são tão importantes agora. "Hoje, não estamos apenas vivenciando o bloqueio tradicional que suportamos há mais de 66 anos, mas também sua intensificação, que foi a característica definidora do governo Trump durante seu primeiro mandato. Agora, temos os efeitos combinados desses dois períodos e, além disso, um bloqueio energético. É uma política de sufocamento máximo, de pressão máxima, com o único objetivo de quebrar a vontade do Estado", disse Díaz-Canel.
"Estamos vivenciando, no âmbito internacional, [...] um contexto extremamente complexo, em que há uma guinada hegemônica por parte do governo dos Estados Unidos, que tenta esmagar o multilateralismo, que usa a força como meio de resolver conflitos e que também conduz o mundo por um caminho em que o direito internacional e a Carta das Nações Unidas são desrespeitados. E, nesse contexto, houve um aumento na agressividade da política desse governo em relação a Cuba", prosseguiu o presidente.
"Eles estão aplicando punição coletiva contra a população cubana. É uma expressão de genocídio e crime. E acredito que, em algum momento, aqueles que orquestraram essa política contra Cuba terão que responder internacionalmente pelo crime e genocídio que perpetraram contra Cuba", disse ele.
Ele enfatizou que "é uma situação sem precedentes, uma situação extremamente incomum" e "de complexa gravidade".
"Diante disso, devemos agir com senso de urgência, com senso de responsabilidade e também com muita serenidade, para evitar improvisações, para evitar erros, e sabendo também que é um processo dialético, que terá contradições, que em determinado momento algo pode não correr bem, e que devemos ter a capacidade de superar e retificar essas questões", argumentou.
"Para nós, o debate é fundamental. [...] Não se pode fazer uma revolução, não se podem fazer estas transformações sem participação e controlo popular. Agora, antes de mais, as medidas, as transformações propostas, não são económicas, são socioeconómicas. E não abandonaram de forma alguma os conceitos de justiça social", salientou Díaz-Canel.
Ao mesmo tempo, apelou ao realismo. "Já passaram seis meses desde que chegou um carregamento de combustível; apenas um navio russo chegou com ajuda humanitária", observou. "Aqui, exerceram tanta pressão sobre as empresas estrangeiras que uma parte significativa delas se retirou do país. Hoje, os nossos processos económicos, produtivos e de serviços estão gravemente deteriorados como parte desta punição coletiva", acrescentou.
Qual é a essência das transformações?
O presidente explicou também a natureza das alterações planeadas. "Qual é a essência das transformações que estamos propondo? Bem, que essas transformações liberem as forças produtivas e que, ao liberá-las, criemos riqueza e sejamos capazes de distribuí-la com justiça social", enfatizou.
"Até o final de julho, estaremos em condições de começar a implementar 121 dessas mais de 170 transformações. Veremos que, na mesma sequência em que essas transformações serão implementadas, algumas das primeiras serão voltadas justamente para questões sociais, para pessoas vulneráveis, para aposentados, para pessoas de baixa renda", explicou o líder cubano.
"Vamos começar a trabalhar, vamos corrigir o que está errado, vamos expandir o que está certo e vamos assimilar as novas propostas", concluiu Díaz-Canel.