'Como perder amigos e influenciar nada': Nobel de Economia destrói política externa de Trump

Paul Krugman afirma que novas tarifas contra o Canadá são ilegais, sem estratégia e transformam os Estados Unidos em um "valentão ineficaz, mais doente e mais pobre", isolado no cenário internacional.

O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, criticou duramente a política comercial e externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A análise ocorreu no contexto da nova rodada de tarifas de 50% imposta pelo governo americano sobre produtos canadenses.

Em artigo publicado nesta terça-feira (21), Krugman classificou a medida como um exemplo de "como perder amigos e influenciar nada", em referência oposta ao livro "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas", de Dale Carnegie, publicado em 1936. Ele ainda afirmou que Washington está destruindo uma das relações diplomáticas mais importantes do país.

Segundo o economista, a decisão representa mais um capítulo de uma estratégia errática do líder norte-americano.

Krugman ironizou a justificativa apresentada pela Casa Branca para a medida. Embora o governo afirme que as tarifas respondem ao suposto tratamento discriminatório dado pelo Canadá a produtos americanos, ele observa que essas ações retaliatórias citadas dos canadenses surgiram justamente como reação às tarifas anteriores, adotadas pelos Estados Unidos ainda em 2025, além das declarações de Trump defendendo que o Canadá se tornasse o "51º estado" norte-americano.

"Indizivelmente idiota"

O Nobel também cita uma publicação recente de Trump nas redes sociais, na qual o presidente ameaçou impor tarifas por causa da fumaça dos incêndios florestais vindos do Canadá. Para Krugman, culpar o país vizinho por incêndios em uma vasta floresta boreal, agravados pelo aquecimento global, é "indizivelmente idiota".

Na avaliação do economista, as novas tarifas são "quase certamente ilegais", pois violam o acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA), renegociado e assinado pelo próprio Trump durante seu primeiro mandato. "Um acordo com Donald Trump dura apenas até que ele decida rompê-lo", escreveu.

Krugman sustenta ainda que a medida não segue qualquer estratégia econômica consistente. "Isso realmente é um ataque de raiva", afirma, acrescentando que as tarifas prejudicarão consumidores americanos sem obter concessões do Canadá, onde a indignação contra os Estados Unidos só aumenta.

Ao analisar os impactos diplomáticos, o economista lamenta o desgaste da relação entre os dois países. "O Canadá deveria ser, e costumava ser, o maior amigo dos Estados Unidos no mundo", escreveu, destacando que ambas as nações compartilham valores políticos e morais fundamentais. 

Um valentão

Krugman conclui com uma avaliação severa sobre a posição internacional dos Estados Unidos sob Trump. Em vez da prometida "era de ouro", diz enxergar "uma América que se tornou um valentão ineficaz, mais doente, mais pobre e dividida pelo extremismo político, sem amigos em lugar nenhum do mundo".

Novas tarifas

Na segunda-feira (20), Trump anunciou tarifas de 50% sobre uma série de produtos canadenses, alegando que o país adota um "tratamento discriminatório" contra bens americanos. A medida atinge setores como automóveis, laticínios e bebidas alcoólicas, mas exclui produtos energéticos, potássio, minerais críticos e itens que já estavam sujeitos a tarifas, como aço, alumínio, cobre, madeira e determinados veículos.

A decisão ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre os dois países. O governo do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, havia imposto uma tarifa de 25% sobre veículos americanos e diversas províncias retiraram bebidas alcoólicas produzidas nos Estados Unidos das prateleiras em resposta às tarifas anteriormente adotadas por Washington.