Quando se fala em soft power, costuma-se pensar em cultura, arte, cinema ou gastronomia — produtos que conquistam corações e mentes no exterior. Pequim, no entanto, aposta em outro instrumento: sua tecnologia de inteligência artificial (IA) aberta e de baixo custo.
O presidente chinês, Xi Jinping, definiu recentemente a IA de código aberto como peça central da ambição do país de influenciar o desenvolvimento global da tecnologia. Ele classificou o modelo aberto — que permite compartilhar e modificar livremente boa parte do software — como uma "oportunidade única e histórica" para espalhar os benefícios da IA pelo mundo. "O desenvolvimento da IA não deve ser um esforço unilateral de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional", afirmou.
O apelo chinês por uma nova ordem da IA surge em meio à disputa por domínio global entre as grandes empresas americanas e suas rivais chinesas, de acordo com especialistas ouvidos pelo jornal The New York Times.
Rivalidade entre EUA e China pelo domínio da IA
Empresas americanas como OpenAI, Anthropic e Google guardam sua tecnologia a sete chaves, sob o argumento de que proteger o código-fonte garante mais segurança e mais controle sobre sistemas poderosos. Já as chinesas DeepSeek, Moonshot AI, Z.ai e Alibaba defendem o código aberto: sustentam que esses sistemas custam menos, aceleram a adoção global e não são menos seguros que os fechados.
A rivalidade se intensifica à medida que as chinesas encurtam a distância em desempenho. Companhias dos EUA acusam parte das concorrentes de extrair indevidamente dados de seus sistemas para avançar nas próprias tecnologias. Executivos e investidores do setor também temem que a IA aberta chinesa abale a economia da produção de IA: os modelos chineses são mais eficientes e consomem menos capacidade computacional. A inovação é movida em parte pela necessidade, já que as restrições comerciais de Washington limitaram o acesso aos chips mais avançados da Nvidia.
Se as alternativas chinesas forem quase tão boas e mais baratas — as estimativas variam de 50% a 90% em algumas tarefas —, podem comprometer os planos de negócios americanos e as avaliações bilionárias das líderes do setor nos EUA. A tecnologia chinesa, aliás, vem sendo cada vez mais adotada por engenheiros e empresas americanas em busca de corte de custos.
Especialistas em segurança alertam que a abordagem aberta — que envolve publicar tanto o software quanto os parâmetros numéricos usados no treinamento — aumenta o risco de a tecnologia ser usada em ataques cibernéticos ou até na fabricação de armas biológicas. Os modelos fechados do Vale do Silício, porém, também têm falhas: a OpenAI reconheceu nesta semana que um modelo em fase de testes saiu do controle e atacou os sistemas de outra empresa.
A estratégia de Pequim
Tratar o software aberto de IA como instrumento de soft power significa buscar influência pela persuasão e pela atração, e não pela coerção militar ou econômica. É um caminho barato de acesso à IA para programadores e para países que querem pegar a próxima onda tecnológica.
"Quem se beneficia de software de IA gratuito certamente reconhece isso", disse Lawrence Lessig, professor da Faculdade de Direito de Harvard e especialista em políticas de tecnologia. "Do ponto de vista político, é uma enorme vantagem para a China."
Para Kyle Chan, pesquisador da Brookings Institution, promover a IA de código aberto "serve a dois objetivos da China: reforçar sua imagem como líder inclusiva em IA e reduzir a dependência global da IA americana". A estratégia, segundo Wendy Chang, analista sênior do instituto alemão Merics, é "conquistar participação de mercado no mundo todo, mesmo que isso não se traduza em lucro imediato".
Passos práticos rumo à governança global
A China já montou centros conjuntos de desenvolvimento e treinamento em IA em dezenas de países. Em 2024, criou o Centro de Cooperação e Desenvolvimento de IA China-BRICS para aprofundar a colaboração dentro do grupo. Em 2025, empresas chinesas ajudaram o Laos a desenvolver o primeiro grande modelo de linguagem em laociano, segundo o China Daily.
Em meados de julho, Pequim anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Wocai, na sigla em inglês), voltada a definir princípios de governança e a promover a adoção da tecnologia em países parceiros. Nos próximos cinco anos, o país deve oferecer 5 mil programas de treinamento e seminários a estudantes e trabalhadores de nações em desenvolvimento, além de ampliar iniciativas já em curso na África, na Ásia, no Oriente Médio e na América Latina.
"A governança da IA depende não apenas de princípios legais, mas também de instituições científicas, sistemas educacionais e cooperação internacional de longo prazo", afirmou Hernán Gabriel Borisonik, diretor do Centro de Ciência e Pensamento da Universidade Nacional de San Martín, na Argentina.
Carlos María Correa, diretor executivo do South Centre — organização intergovernamental de países em desenvolvimento sediada na Suíça —, avalia que "a cooperação internacional e as iniciativas de capacitação são fundamentais para reduzir a lacuna global em IA". Ele elogia as iniciativas chinesas de governança por priorizarem o desenvolvimento sustentável e contribuírem para "um cenário global de IA mais equilibrado, fomentando benefícios mútuos e reduzindo as desigualdades existentes".