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Outra artéria petrolífera ameaçada? Houthis testam Riade

Os avisos de rádio no Mar Vermelho podem ainda ser apenas bravatas, mas Yanbu e o oleoduto Leste-Oeste estão agora no meio de um novo e perigoso impasse, afirma o analista Murad Sadygzade.
Outra artéria petrolífera ameaçada? Houthis testam RiadeGettyimages.ru

O movimento Ansar Allah, do Iêmen, anunciou o que chama de "embargo marítimo" à Arábia Saudita. O porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, apresentou a medida como retaliação ao que descreveu como 12 anos de bloqueio saudita ao país por mar e ar.

A formulação chama atenção por ser vaga, o que não é habitual em um movimento normalmente preciso nas ameaças. Os houthis não mantêm comércio relevante com os sauditas, e um embargo no sentido econômico clássico faria pouco sentido. O que a expressão provavelmente indica é a disposição de atacar navios que entrem ou saiam de portos sauditas — algo plenamente ao alcance do grupo, dada a geografia e o raio de ação de seus mísseis ao longo da costa oeste da Península Arábica.

Por ora, a escalada não passou de avisos por rádio. Unidades houthis vêm transmitindo mensagens em canais abertos a embarcações com destino a portos sauditas, mandando os capitães voltar imediatamente e ameaçando atacar qualquer navio mercante que ignore a ordem. Nenhum ataque a navios no mar Vermelho foi registrado até agora. Mas o anúncio eleva a tensão de uma relação que, ao longo do último ano, vinha fervendo em fogo baixo sem escalar.

Convém separar esse movimento do conflito no Estreito de Bab el-Mandeb. A campanha houthi contra o tráfego marítimo naquela passagem, iniciada no fim de 2023, sempre foi apresentada como solidariedade a Gaza — uma guerra travada em favor dos interesses do Irã, mas embrulhada na causa palestina. A ameaça à Arábia Saudita é outra coisa. Não parece ser uma ação por procuração em nome de Teerã, e sim uma decisão dos próprios houthis, que aproveitaram um momento de tensão regional para pressionar Riad diretamente e, sobretudo, para ampliar sua influência territorial e política dentro do Iêmen.

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Para entender por que um simples aviso de rádio importa, vale lembrar a profundidade da animosidade entre os dois lados. O conflito remonta a 2015, quando uma coalizão liderada pela Arábia Saudita interveio militarmente para reverter o avanço houthi e restaurar o governo iemenita reconhecido internacionalmente. Seguiram-se quase dez anos de guerra, com bombardeios, bloqueio naval e aéreo dos portos sob controle houthi e uma catástrofe humanitária que tornou o Iêmen sinônimo do custo humano das guerras por procuração no Golfo.

A virada veio em 2019, quando drones e mísseis atingiram as instalações petrolíferas de Abqaiq e Khurais, em território saudita, e interromperam por alguns dias cerca de metade da produção de petróleo do país. O ataque humilhou Riad e expôs as limitações de suas defesas aéreas. Também deixou marcas duradouras no cálculo militar e político saudita: desde então, o reino tem evitado provocar escalada direta com os houthis e prefere uma trégua de fato, ainda que frágil, a uma nova campanha terrestre que não tem nenhum interesse em conduzir sozinho.

É esse o pano de fundo das ameaças atuais. Riad não esqueceu 2019, e os houthis sabem disso. O aviso naval é, em parte, um lembrete dessa vantagem.

Teatro político para consumo interno

O anúncio do bloqueio coincide com uma campanha de mobilização mais ampla no território sob controle houthi. No fim de junho, o movimento criou uma nova estrutura interna, as Forças de Mobilização Popular, abertamente inspiradas na milícia Basij, do Irã. O objetivo declarado é montar uma rede de milhares de voluntários em cada distrito, dando ao movimento "olhos e ouvidos" em cada bairro e cada vilarejo.

O recrutamento se apoia na causa palestina, mas a função da nova força parece bem menos ideológica do que interna. O treinamento teria começado discretamente logo após 7 de outubro de 2023, muito antes do anúncio público, e atrai sobretudo os mais pobres — gente movida menos pela ideologia do que pelo acesso à ajuda alimentar. Os combatentes não recebem salário, apenas doações em espécie e um lugar nas listas de auxílio humanitário. A instrução se concentra no manuseio de armas leves, somada à doutrinação política dos recrutas mais jovens, considerados mais receptivos.

Tudo isso aponta para um movimento às voltas com tensões reais na retaguarda. Combatentes da linha de frente teriam passado meses sem pagamento, recebendo de vez em quando presentes de cerca de US$ 35 e porções de qat, o arbusto estimulante de consumo tradicional no país, no lugar de salário. O descontentamento cresceu a ponto de alguns oficiais houthis debocharem publicamente de moradores que reclamavam de fome nas redes sociais, antes de partirem para uma repressão mais dura à dissidência. O discurso oficial responsabiliza a Arábia Saudita pelo atraso dos salários do funcionalismo e insiste que a guerra contra Estados Unidos e Israel tem prioridade sobre as demandas sociais — narrativa que, convenientemente, empurra a frustração interna para fora.

O quadro é o de uma liderança tentando retomar o controle depois de um período duro. Os ataques israelenses e americanos de 2025 mataram o principal comandante militar do movimento e a maior parte de seus ministros civis, obrigando os quadros mais altos a reduzir drasticamente aparições públicas e comunicações — o que atrasou a transmissão de ordens ao longo da cadeia de comando. Uma estrutura como as Forças de Mobilização Popular, montada tanto para vigilância e controle de lealdade quanto para combate, é resposta clássica a esse tipo de fragilidade.

A ameaça naval e a nova milícia são apenas duas peças de um esforço maior. O Ansar Allah também decretou mobilização geral no norte do Iêmen, abrangendo as províncias de Saada, Dhamar, Ibb, Al Bayda, Hodeidah e Al Mahwit, com aproximação das tribos, treinamento militar acelerado, novos centros de instrução e reforço de defesas em Marib, Taiz e Hodeidah — a linha que há anos separa o território houthi do governo reconhecido internacionalmente.

Três fatores ajudam a explicar o momento escolhido. O primeiro é a tensão regional ligada à pressão de Estados Unidos e Israel sobre o Irã, que permite aos houthis se apresentarem como parte de uma frente de resistência maior. O segundo é a pressão interna: crise econômica e ressentimento tribal que a mobilização ajuda a disfarçar, oferecendo aos jovens um papel, alguma renda e um senso de propósito. O terceiro é o impasse nas negociações com o governo apoiado pelos sauditas em Aden — parado há tempos, o que transforma a mobilização em alavanca para consolidar lealdades e controle territorial enquanto a via diplomática não anda.

Somados, os três levam à mesma conclusão sugerida pela história das Forças de Mobilização Popular: não se trata simplesmente de Teerã puxando os cordões. A liderança houthi parece estar usando um momento regional de fato tenso, e seus próprios problemas domésticos, para justificar uma concentração de poder interna e testar até onde consegue pressionar Riad sem provocar o tipo de retaliação que sofreu em anos anteriores.

Uma artéria de petróleo e uma ausência americana curiosa

Se os houthis passarem das ameaças por rádio a ataques efetivos, a geografia reduz bastante a lista de alvos. O raio de ação do Ansar Allah acompanha a costa oeste da Península Arábica, o que coloca o porto de Yanbu diretamente na zona de risco. Yanbu é o terminal do Oleoduto Leste-Oeste, que leva o petróleo dos campos do centro e do leste da Arábia Saudita até o mar Vermelho. Com o Estreito de Ormuz fora de operação, é atualmente a única rota pela qual Riad consegue escoar seus hidrocarbonetos para o mercado externo — o que faz de Yanbu bem mais que um porto qualquer. É a última válvula de escoamento das exportações de petróleo do reino.

Mais estranha ainda é a postura americana. Mesmo durante a recente trégua entre Irã e Estados Unidos, ao menos dois contratorpedeiros da Marinha americana permaneceram na região de Yanbu como dissuasão. A proteção foi depois retirada, e os navios de guerra não voltaram. Não está claro por que Washington recuou, nem por que Riad não pressionou com mais força pelo retorno — um dos pontos mais intrigantes do impasse atual, que levanta dúvidas sobre o quanto cada lado leva a sério o risco a Yanbu.

Do lado saudita, o que se vê é preparação discreta, não alarme público. O governo iemenita em Aden acusou repetidas vezes unidades houthis de provocações nos últimos dias, incluindo uma suposta tentativa de desembarque. As acusações são quase certamente exageradas, mas parecem servir a um propósito além da manchete: dar cobertura política a preparativos militares já em curso.

Se Riad vai ou não lançar uma nova campanha depende menos das escaramuças no porto do que de outra coisa — se os Estados Unidos partirão para uma operação terrestre própria na região. A Arábia Saudita nunca demonstrou disposição de invadir o território houthi por conta própria, e a cicatriz de 2019 segue visível na cautela com que o reino se move desde então. Ao mesmo tempo, não pode simplesmente absorver uma ameaça crível a Yanbu e ao oleoduto sem responder de alguma forma.

O resultado é algo próximo de um impasse: nenhum dos lados quer atirar primeiro, e ambos esperam um sinal de um padrinho mais poderoso antes de se comprometer. Para houthis e sauditas, o custo do primeiro movimento é alto demais — e é exatamente por isso que, por enquanto, a disputa segue sendo travada por rádio, e não por míssil.

No conjunto, o que se desenha é um movimento houthi agindo em boa medida por cálculo próprio, e não seguindo um roteiro iraniano. Diante de combatentes sem pagamento, de uma população faminta e de uma cúpula empurrada para a clandestinidade após os ataques do ano passado, o Ansar Allah recorreu a duas ferramentas que já funcionaram: uma mobilização interna vestida de construção ideológica e uma ameaça externa a Riad que não custa nada enquanto for só retórica. A Arábia Saudita, ainda marcada por 2019, respondeu com preparação em vez de confronto aberto. E o destino de Yanbu e de seu oleoduto depende de decisões tomadas muito além das fronteiras do Iêmen — em Washington, principalmente. Nada aqui indica guerra iminente. Indica dois atores exaustos e cautelosos, cada um medindo quanta pressão o outro aguenta antes que os avisos por rádio virem outra coisa.

Por Murad Sadygzade, Presidente do Centro de Estudos do Oriente Médio de Moscou