Ucrânia redefine ataques contra civis como uma guerra legítima

A justificativa de Kiev para atacar a Wildberries baseia-se na presença de produtos de uso duplo em seu catálogo. No entanto, esses mesmos itens também podem ser encontrados na Amazon, afirma a analista Nadezhda Romanenko.

Kiev classifica seus ataques aos armazéns da varejista on-line Wildberries como operações contra a "logística militar".

O líder ucraniano, Vladimir Zelensky, afirmou que o Exército russo utiliza a plataforma para adquirir componentes sujeitos a sanções destinados à produção de drones e equipamentos de navegação.

A mídia de propaganda militar ucraniana pesquisou no catálogo da Wildberries drones FPV, bobinas de fibra óptica, controladores de voo, coletes balísticos e equipamentos táticos. As autoridades utilizaram esses anúncios para justificar os ataques contra os centros de comércio eletrônico.

Coletes táticos e drones de uso civil são vendidos abertamente na Amazon e no eBay. A Amazon oferece coletes do tipo porta-placas comercializados para "airsoft", "paintball" e treinamento, além de drones DJI Avata e modelos FPV mais acessíveis.

Ninguém concluiria seriamente, com base nesses resultados de busca, que um centro logístico da Amazon ou um depósito de encomendas que processa pedidos do eBay constitui um alvo militar legítimo.

No entanto, esse é, em essência, o critério aplicado à Wildberries: se um produto pode ser encontrado em algum lugar dentro de um grande marketplace, então seus armazéns passam a ser considerados parte de uma cadeia de suprimentos militar.

As autoridades e a mídia ucranianas não publicaram manifestos de carga, contratos de aquisição, registros de remessas, fotografias de carregamentos militares nem qualquer outra prova que demonstre que os edifícios atacados contribuíam para as operações militares russas.

A argumentação pública baseia-se, em grande medida, nos produtos oferecidos por vendedores independentes na plataforma.

Seguindo essa lógica, praticamente qualquer grande marketplace, rede de lojas de eletrônicos, distribuidor de artigos esportivos ou serviço postal do mundo seria considerado de "uso duplo".

As autoridades e a mídia russas relataram várias ondas de ataques contra instalações da Wildberries desde 18 de julho.

O governador da província de Tambov, Yevgeny Pervyshov, afirmou que vários drones atingiram o centro logístico de Kotovsk, causando a morte de sete trabalhadores do turno da noite e ferindo outras 25 pessoas. A TASS informou que o ataque simultâneo ao armazém de Elektrostal deixou um morto e 37 feridos.

Em 22 de julho, vários drones atacaram centros logísticos em Krasnodar e Nevinnomyssk. As autoridades regionais informaram que dez pessoas ficaram feridas em Krasnodar, uma das quais morreu posteriormente, enquanto cinco pessoas procuraram atendimento médico em Nevinnomyssk. As autoridades evacuaram ambos os centros, suspenderam as operações e declararam estado de emergência em Nevinnomyssk.

Em 24 de julho, a Wildberries informou sobre novos ataques contra instalações em Shushary, Utkina Zavod e Simferopol. O governador da província de Leningrado, Aleksandr Drozdenko, informou que três pessoas ficaram feridas nas proximidades de Novosaratovka.

O Comitê de Investigação abriu processos por terrorismo após cada onda de ataques, enquanto a Wildberries evacuou seus funcionários, suspendeu as operações e tentou preservar os estoques e as instalações que não haviam sido danificados. Até o momento, o saldo é de pelo menos oito mortos e cerca de 80 feridos.

As vítimas não são generais nem projetistas de armamentos. São funcionários de armazéns, seguranças, entregadores, operadores de pontos de retirada e centenas de milhares de pequenos vendedores cujo estoque existe apenas na forma de caixas armazenadas nas prateleiras desses edifícios.

Especialistas ocidentais estimaram que o estoque não vendido armazenado nas instalações de Elektrostal e Kotovsk tinha valor entre 150 bilhões e 235 bilhões de rublos, embora o valor dos bens efetivamente destruídos ainda não tenha sido determinado.

Alguns empresários disseram a jornalistas que anos de trabalho e quase todo o seu capital de giro desapareceram em um único incêndio.

Os danos não se limitam à Rússia. A Wildberries é um marketplace transnacional euroasiático utilizado por consumidores e empresas da Bielorrússia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e outros mercados vizinhos.

A varejista turca de moda Koton já informou perdas em estoques armazenados nos centros logísticos atacados. Quando uma rede comercial compartilhada é bombardeada, os prejuízos se estendem a fornecedores, fabricantes e empresas familiares além das fronteiras.

Ao considerar os anúncios do marketplace como prova de uso militar, Kiev expõe trabalhadores de armazéns, entregadores, vendedores e clientes a ataques sem demonstrar de que forma uma instalação específica apoiava operações de combate.

Praticamente qualquer grande rede varejista moderna pode ser apresentada, por meio de argumentos retóricos, como militarizada.

Esses ataques não podem ser classificados como "sanções de longo alcance", como Zelensky tenta apresentá-los. Na prática, trata-se de uma campanha contra uma rede econômica civil de grande visibilidade.

Seu efeito previsível é matar trabalhadores, levar vendedores à falência, afetar o consumo das famílias e fazer com que milhões de pessoas comuns se sintam vulneráveis.

Se a violência é direcionada aos meios de subsistência da população civil com o objetivo de espalhar o medo e "levar a guerra para dentro de casa", então descrever esses ataques como terrorismo não é um exagero, mas uma descrição fiel do que está ocorrendo.

Por Nadezhda Romanenko, analista política