O médico infectologista brasileiro Marcus Lacerda, diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirmou que os países de língua portuguesa passaram a ser uma prioridade da iniciativa, que pode contar com apoio da expertise brasileira.
Em entrevista à ONU News na quarta-feira (29), ele defendeu que o português seja usado como ferramenta para fortalecer a cooperação científica e acelerar o combate às chamadas doenças tropicais, como dengue, zika e malária.
À frente do programa desde março, Lacerda explicou que o TDR atua há mais de cinco décadas na formação de pesquisadores em países de baixa e média renda, além de apoiar o desenvolvimento e a implementação de medicamentos, vacinas e outras tecnologias.
"Não adianta registrar ou desenvolver uma droga ou vacina se ela não chegar até as pessoas que mais precisam", afirmou.
Destaque brasileiro
Segundo o infectologista, o Brasil se destaca pela capacidade de pesquisa e produção de tecnologias para o enfrentamento dessas doenças, impulsionado por instituições como a Fiocruz e o Instituto Butantan.
Já os países africanos de língua portuguesa ainda enfrentam dificuldades para ampliar a cooperação na área da saúde, apesar da existência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
"Esses vários países devem usar a língua como uma ferramenta de intercâmbio de experiências", defendeu Lacerda, ressaltando que a presença de um brasileiro na direção do TDR reforça a prioridade dada às nações lusófonas.
Novas tecnologias
O diretor também apontou que a burocracia em processos regulatórios e de aprovação ética dificulta a transformação de evidências científicas em políticas públicas. Segundo ele, a implementação de novas tecnologias precisa considerar as características culturais e sociais de cada população.
Para os próximos anos, Lacerda avalia que a inteligência artificial terá papel central no enfrentamento das doenças tropicais. Além de facilitar a produção científica de pesquisadores de países em desenvolvimento, a tecnologia poderá ser usada para criar modelos preditivos capazes de antecipar surtos e epidemias.