
EUA ao resgate? A razão por trás da intervenção em favor da moeda de aliado

Nesta segunda-feira (3), o dólar se desvalorizou fortemente em relação ao iene japonês depois que o presidente dos EUA e o ministro das Finanças do Japão confirmaram ter intervindo no mercado de câmbio. Antes do final da semana passada, o dólar estava sendo negociado acima de 163 ienes, aproximando-se de seu nível mais alto em 40 anos.
Já na manhã de segunda-feira (3), após o anúncio oficial da intervenção, o dólar caiu para quase 155,20 ienes e estava cotado a 156,70 ienes no final da tarde (horário de Tóquio).

A prolongada desvalorização do iene em relação ao dólar tem sido motivo de frustração para o Japão: como o país asiático importa grande parte do que consome, uma moeda fraca eleva os preços. Os altos preços do petróleo agravaram esse problema, pressionando o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi a tomar medidas para conter o aumento do custo de vida.
Apoiar o iene para sustentar a própria dívida
Além de ser um gesto diplomático incomum — trata-se da primeira intervenção coordenada entre EUA e Japão para comprar ienes desde 1998 — para Washington, a medida pode ser vista principalmente como uma medida de autoproteção financeira.

No cerne da manobra está o mercado de títulos do Tesouro dos EUA, a espinha dorsal do financiamento estatal e um barômetro do custo de sua dívida.
Donald Trump confirmou o "gesto de amizade" dos EUA, assegurando que seu país se beneficiará da intervenção, enquanto que a Ministra das Finanças japonesa, Satsuki Katayama, admitiu as compras de ienes em coordenação com o Tesouro dos EUA, algo raro em um mercado onde essas operações geralmente são comunicadas apenas parcialmente ou simplesmente feitas de forma discreta.
O Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro dos EUA, seguido pelo Reino Unido e pela China. Quando o iene se desvaloriza, Tóquio normalmente intervém comprando ienes e vendendo moeda estrangeira, mas, para obter dólares para esta intervenção, poderia ser necessário vender títulos do Tesouro dos EUA.
Isso aumentaria os juros e encarecia o já elevado custo do financiamento da dívida americana em um momento onde o tema é politicamente explosivo e macroeconomicamente sensível para Washington. No final de julho, o título de 10 anos rendia entre 4,6% e 4,7%.
Um relatório recente do GAO, o órgão de auditoria do Congresso americano, alertou que a deterioração das perspectivas fiscais e períodos de tensão podem enfraquecer a demanda por títulos do Tesouro e o papel global do dólar, aumentando os riscos para as finanças públicas. Nesse contexto, evitar vendas por parte do maior credor estrangeiro não é um detalhe menor e sim uma prioridade estratégica.
Em vez de um resgate altruísta do iene, a intervenção coordenada pode ser interpretada como uma mensagem para o mercado: os EUA querem evitar que a defesa da moeda japonesa se torne um problema para o preço de sua própria dívida.


