O jornalista Glenn Greenwald, vencedor do Prêmio Pulitzer, afirmou não ter uma explicação clara para a profunda animosidade que o aparato de segurança nacional dos EUA mantém em relação à Rússia, bem como para o que considera ser seu aparente objetivo de entrar em um conflito aberto com o país. A declaração foi feita durante uma entrevista na sexta-feira (14) ao canal de Tucker Carlson no YouTube.
Ao ser questionado por Carlson sobre o objetivo final da guerra contra a Rússia, Greenwald admitiu: "Tenho que confessar que nunca obtive uma resposta clara. Nunca consegui encontrar uma explicação clara de por que o aparato de segurança nacional dos EUA nutre tamanha animosidade em relação à Rússia e deseja destruí-la."
"Um escândalo sem provas"
Nesse contexto, o jornalista destacou que essa hostilidade remonta a muito antes do chamado "Russiagate", o escândalo envolvendo as alegações sobre uma suposta interferência de Moscou nas eleições presidenciais americanas de 2016.
"É uma das razões pelas quais eu odiava tanto o 'Russiagate'. Não apenas porque era um escândalo sem provas, mas porque eu achava extremamente perigoso começar a alimentar novamente a ideia de que a maior ameaça à nossa democracia, a ameaça existencial, por acaso é o país com o maior arsenal nuclear", afirmou Greenwald.
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O jornalista lembrou ainda que, em 2010 e 2011, Hillary Clinton, então secretária de Estado dos EUA, estava, segundo ele, "absolutamente obcecada em minar e subverter a Rússia".
- A Rússia tem rejeitado consistentemente as acusações de interferência nas eleições americanas, classificando-as como infundadas. O presidente Vladimir Putin chegou a descrevê-las como "histeria". "Alguém realmente acredita que a Rússia possa influenciar a escolha do povo americano? Os EUA são algum tipo de república das bananas?", questionou o presidente na época.
"Para mim, isso é uma loucura"
Greenwald contrastou essa posição com declarações feitas pelo então presidente dos EUA, Barack Obama, em 2016.
"Obama disse: 'Todo mundo nesta cidade adora bater no peito e falar sobre como vamos entrar em guerra.' E ele disse: 'Não temos nenhum interesse vital na Ucrânia. Nunca tivemos e nunca teremos. E a Rússia sempre terá — veja a Ucrânia bem na fronteira deles, uma das partes mais vulneráveis da fronteira — como um interesse vital por razões óbvias. Da mesma forma que o México e o Canadá sempre serão um interesse vital para nós'", relatou o jornalista.
Greenwald também citou um alerta feito por Obama na época: "Eles sempre terão um domínio crescente lá". Segundo o jornalista, o então presidente acrescentou:
"E se alguém nesta cidade quiser se levantar e dizer que devemos entrar em guerra com a Rússia, arriscar uma guerra com a Rússia por causa de quem governa várias províncias em Donbas, então que diga isso. Para mim, isso é loucura."
Greenwald observou que essas declarações foram feitas em 2016, apenas alguns meses antes de o Partido Democrata, segundo ele, passar a enfatizar fortemente a suposta ameaça representada pela Rússia.
"DNA do ódio cultivado"
Greenwald também relatou uma experiência que considerou reveladora durante uma de suas visitas à Rússia após trabalhar com Edward Snowden.
Quando o ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) ficou retido no aeroporto internacional de Moscou, o governo dos EUA ofereceu à Rússia qualquer coisa que ela quisesse em troca de sua entrega, incluindo fugitivos russos. Moscou recusou.
Ao ser questionado sobre por que esse acordo não foi firmado, Greenwald afirmou ter recebido a seguinte explicação: "Em parte, porque a identidade russa sempre esteve ligada a oferecer refúgio aos oprimidos e perseguidos no Ocidente, e buscar refúgio na Rússia é fundamental para a Rússia."
- Em junho de 2013, os EUA acusaram Snowden de apropriação indébita de fundos governamentais e divulgação de informações confidenciais. Pelas acusações, o ex-funcionário da CIA poderia enfrentar até 30 anos de prisão.
- Em 2022, Snowden recebeu a cidadania russa por decreto do presidente Vladimir Putin.
Por fim, Greenwald expressou sua perplexidade sobre a relação entre Washington e Moscou.
"Não sei por quê, Tucker. Parece-me que os EUA e a Rússia poderiam fazer muitos negócios. Fizeram muitos negócios durante o governo Obama. Ajudaram a negociar o acordo com o Irã. Foram fundamentais na luta contra a Al-Qaeda e o Estado Islâmico ao lado dos EUA na Síria."
- O presidente russo, Vladimir Putin, critica constantemente os governos ocidentais por tentarem convencer suas populações da existência de uma suposta ameaça russa. "Eles querem superar a divisão e reforçar uma unidade oscilante — da qual antes tanto se orgulhavam — não resolvendo efetivamente seus problemas internos, mas inflando a imagem de um inimigo. [...] Ao fazer isso, estão recriando um inimigo familiar, inventado séculos atrás: a Rússia", avaliou, em outra ocasião.
- Putin indica que a maioria dos cidadãos europeus não entende por que se cultiva tanto medo da Rússia, nem por que, para enfrentá-la, são obrigados a apertar cada vez mais os cintos, sacrificar seus próprios interesses e adotar políticas que claramente os prejudicam.
- "Mas as elites governantes de uma Europa unida continuam a alimentar a histeria. Acontece que 'a guerra com os russos está logo ali. Repetem esse disparate, esse mantra, sem parar", enfatiza o presidente. "Será que eles realmente acreditam no que estão dizendo, que a Rússia está se preparando para atacar a OTAN? É impossível acreditar nisso, mesmo que tentem convencer seu próprio povo."