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Transformando cultura em algoritmos: como e por que empresas de IA compram e destroem livros físicos

Investigações recentes e denúncias de profissionais do setor revelam que gigantes da tecnologia estão destruindo livros físicos para alimentar modelos de linguagem.
Transformando cultura em algoritmos: como e por que empresas de IA compram e destroem livros físicosGettyimages.ru / tamaw

Uma investigação da 404 Media, veículo fundado por jornalistas que cobre tecnologia, revelou, na segunda-feira (17) que a empresa Amazon está envolvida na destruição de livros raros para treinar seus modelos de IA

O caso faz parte de um escândalo que eclodiu nos últimos meses, com autores, historiadores, arquivistas e leitores denunciando gigantes da inteligência artificial (IA) por estarem comprando livros raros e antigos em massa, alimentando-os em seus modelos e posteriormente destruindo os exemplares físicos originais.

Acusações contra Anthropic e destruição em massa

Documentos judicializados em uma ação movida contra a empresa Anthropic no início deste ano revelaram que a empresa comprou milhões de livros físicos, contratou empresas terceirizadas para cortar suas encadernações, passou as páginas por scanners de alta velocidade e depois triturou os originais em uma operação cunhada de "Projeto Panamá", segundo a investigação do The Washington Post.

Um documento interno do caso definiu o projeto como um "esforço para escanear destrutivamente todos os livros do mundo". 

A prática não se limita à Anthropic. A reportagem descreve como um vendedor de livros raros, que recebeu um pedido anônimo de quase mil exemplares, permitiu que os repórteres colocassem um rastreador dentro de um dos livros que acompanhou o pacote até um armazém de propriedade da Amazon em Las Vegas, codificado como "VGT3", com um logotipo que exibe um tiranossauro rex prestes devorarando um livro aberto.

Por que as empresas de IA estão destruindo livros?

A resposta está em dois problemas críticos: responsabilidade legal e qualidade dos dados.

Fugir da responsabilidade legal

O uso de arquivos online piratas, as chamadas "bibliotecas sombra", pode expor as empresas de IA a processos judiciais. A Anthropic, por exemplo, já concordou em pagar US$ 1,5 bilhão para resolver uma disputa com autores que alegavam pirataria de seus livros, enquanto a Meta* e o Google também enfrentam ações semelhantes.

Já a compra de livros físicos oferece uma solução. A legislação americana permite que o comprador de um livro físico o destrua, e um juiz federal decidiu que a digitalização de livros adquiridos legalmente para treinamento de IA se qualifica como "uso transformador" e, portanto, é permitida.

Dados livres de IA

Outra razão citada pela reportagem é que os livros impressos antes de 2022 garantem que o texto esteja livre de "poluição" por IA, já que a internet agora está repleta de páginas escritas por inteligência artificial, e retroalimentar novos modelos com esse material é menos eficiente, já que eles precisam de informação de outras fontes para melhorar seu aprendizado.

Na Austrália, vendedores relataram ao The Guardian ondas de pedidos de uma empresa chamada Zoom Books, que se descreve como uma recicladora de livros. O fato mais preocupante é que são destruídos livros raros e antigos que podem não contar com outros exemplares conservados.

*Classificada na Rússia como uma organização extremista, cujas redes sociais são proibidas em seu território.