Em entrevista ao podcast "A Máquina" promovido pela Folha de S.Paulo, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, comentou sobre os novos desafios gerados pela inteligência artificial (IA) no processo eleitoral e rechaçou o argumento do "deepfake do bem", comparando-o a uma famosa foto do presidente Tancredo Neves que foi divulgada em 1985 para acalmar a população sobre a saúde do político que viria a morrer 27 dias depois.
"A tecnologia impõe perguntas inéditas e nós precisamos de inventar as respostas. Esse aprendizado é permanente para a gente garantir a liberdade da eleitora, do eleitor, de escolher sem interferências externas, sem estar na condição de cativo digital", afirmou a magistrada.
Para Cármen Lúcia, mesmo que um deepfake não tenha sido criado com a intenção de prejudicar alguém, seja autorizado e não conte nenhuma mentira, ele ainda sim não deixa de ser falso.
"O fake é algo que ou não existe ou existe de outra forma e o que lhe foi apresentado não é o fato como se deu. Digamos que eu fique muito nervosa diante de um público, de ter que falar com as pessoas. Então, eu não vou ao público, autorizo o uso da minha imagem, da minha voz, para falar o que eu falaria mesmo [para um vídeo deepfake]. Mas não sou eu", acrescentou.
A magistrada comparou o uso de deepfake à famosa foto de Tancredo Neves com seus médicos, que foi divulgada com a autorização do próprio presidente na época, em 1985, para tranquilizar os brasileiros sobre a saúde do mandatário, que morreu menos de um mês depois, o que, no final, acabou por induzir a população ao engano.
"Nós já tivemos casos na história, como uma celebérrima foto de um ex-presidente, de décadas atrás, que foi montada, alguém segurou atrás. Aquilo era falso, para o povo ficar em paz. Causou algum mal? Não. Foi uma montagem? Foi. Aquilo enganou, de alguma forma. Tudo isso vem à tona agora para a gente decidir", lembrou a ministra.