Só uma espiadinha: entenda a crise nacional nos EUA contra as câmeras de vigilância Flock

Rede de 120 mil câmeras de IA rastreia veículos em todo país, mas casos de abuso por policiais, buscas ilegais de imigração e perseguição de mulheres geraram revolta popular, campanhas eleitorais acirradas e legislação restritiva.

Uma retaliação ao complexo de vigilância nos Estados Unidos tomou as ruas e o debate público em escala nacional neste mês de agosto contra os sistemas da empresa Flock Safety, com atos de vandalismo contra câmeras ambientais em pelo menos 36 dos 50 estados e cancelamentos de contratos em mais de 100 cidades, segundo relatórios de organizações civis e veículos de imprensa.

A empresa, fundada em 2017 e avaliada em US$ 8,4 bilhões, instalou 120 mil câmeras de leitura automática de placas veiculares em todo o país, operando em 7 mil agências policiais — o que equivale a 40% dos departamentos nacionais.

A tecnologia utiliza inteligência artificial para capturar placas, marcas, modelos, cores e adesivos de veículos, criando um banco de dados nacional acessível por autoridades policiais com poucas restrições.

Embora a Flock afirme que suas câmeras auxiliaram em 1 milhão de investigações criminais anuais, incluindo casos de veículos roubados e pessoas desaparecidas, críticos apontam sérios problemas de privacidade e uso indevido.

Olhos por toda a parte

Dezenas de casos documentados revelam policiais usando o sistema Flock para perseguir parceiros românticos, realizar buscas relacionadas à imigração e rastrear mulheres que possivelmente realizaram abortos.

O jornal The Washington Post decumentou 46 casos de uso não autorizado — contabilizando somente o sistema Flock e desconsiderando serviços concorrentes —, identificando acusações, cobranças ou condenações de agentes.

Na cidade de Savannah, estado da Geórgia, quatro ex-funcionários da polícia foram presos por uso indevido do sistema. No Texas, um oficial enfrentou acusações de perseguição após rastrear uma mulher por cinco meses usando as câmeras. Em Milwaukee, um policial foi acusado criminalmente de usar dados das câmeras para monitorar pessoas com quem se relacionava.

Autoridades no Texas realizaram mais de 80 mil buscas em câmeras nacionais após uma denúncia de aborto caseiro, embora não tenham localizado a mulher.

Policiais também auxiliaram agentes de imigração do ICE em estados onde esse tipo de cooperação é ilegal, como Illinois e Califórnia.

Quem vigia os vigias

Cidadãos passaram então a destruir fisicamente as câmeras em reação crescente de desaprovação a sistemas de inteligência artificial e ao desgaste da privacidade de dados.

Insurgentes ou vândalos, estes cidadãos cortaram postes com serras elétricas em Nova York, jogaram tinta na Califórnia, atropelaram estruturas com caminhões em Idaho e dispararam espingardas contra os equipamentos. Colorindo uma variedade de métodos, um homem na Flórida criou método pacífico, sentando-se em cadeira de jardim com placa de papelão para bloquear a lente.

O grupo DeFlock conferiu uma dimensão organizada a essa onda e criou um mapa colaborativo que identifica todas as câmeras Flock no país. Mobilizadas em uma Semana Nacional de Ação entre 16 de 22 de agosto, os organizadores do movimento apontaram que mais de 25 mil pessoas foram registradas em protestos e sessões educativas.

Em São Francisco, manifestantes do Sunrise Movement protestaram na casa do bilionário Chris Larsen, que doou US$ 9,4 milhões para expansão de tecnologia de vigilância na cidade.

Rompendo contratos e protocolos

Pelo menos 56 municípios desativaram, cancelaram ou rejeitaram contratos com a Flock neste ano, incluindo Los Angeles, Denver, Madison, Knoxville e Syracuse, segundo dados do Deflock.

Algumas cidades como Longmont e Syracuse, porém, simplesmente trocaram a Flock por concorrentes como Motorola ou Axon, sem resolver questões subjacentes de privacidade e permitindo que competidores simplesmente capitalizem sobre os problemas da rival mais notória.

O CEO Garrett Langley pediu "compromisso nacional" entre privacidade e segurança em entrevista à emissora Fox News, argumentando que reguladores estaduais deveriam focar em responsabilizar autoridades policiais, não em banir a tecnologia.

A empresa seguiu reafirmando não vender dados e não trabalhar com ICE por padrão, embora admita que polícias locais decidem que dados compartilham e com que agências.

Em 13 de agosto, a Flock anunciou reformas em meio à controvérsia nacional. As alterações reduziram o prazo padrão de retenção de dados de 30 para sete dias, implementou ferramenta de auditoria que detecta buscas anômalas e exigiu código de caso criminal antes de acessar dados.

Clamor de regulamentação

Críticos, porém, consideram as mudanças insuficientes. A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), notória ONG de atuação judicial nos EUA, questionou se são as medidas "mudança real ou apenas mais um movimento de relações públicas", destacando que o "Modo Evidência" permite estender a retenção de dados, em sentido contraditório ao anunciado.

Similarmente, outras organizações civis defendem requisito de mandado judicial para buscas e limite de retenção de 48 horas, em um cenário de tratamento totalmente diverso entre entes federativos: enquanto o estado de New Jersey reduziu o limite de retenção de dados de placas de automóveis de cinco para três anos, o estado de New Hampshire, na ponta mais extrema, estabeleceu o limite de armazenamento dos dados em três minutos.

A questão das câmeras Flock emergiu como um campo de concordância bipartidária no Capitólio, com conservadores e progressistas se pronunciando sobre o tema nas semanas recentes. No Congresso, três republicanos apresentaram projeto proibindo compras federais de tecnologia Flock, enquanto o senador independente Bernie Sanders defendeu banimento total