Divulgação de fotos agravam crise envolvendo presidente da Bolívia com 'guru' da direita latino-americana

O presidente Rodrigo Paz Pereira é acusado de ligações com o consultor argentino Fernando Cerimedo, que assessorou, entre outros, Milei e Bolsonaro.

A crise política que o presidente boliviano Rodrigo Paz Pereira enfrenta se agravou com a divulgação de novas fotografias que supostamente confirmam sua ligação com Fernando Cerimedo, consultor argentino preso por tentativa de feminicídio, enriquecimento ilícito e tráfico de drogas.

Cerimedo era uma figura extremamente importante nos bastidores da direita latino-americana nos últimos anos, tendo assessorado os presidentes da Argentina, Javier Milei; de Honduras, Nasry Asfura; e do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Ele também trabalhou na campanha de Paz Pereira e em seu governo. Paz Pereira assumiu o cargo em novembro passado e agora enfrenta um escândalo com repercussões internacionais.

A peça-chave do escândalo é Nadia Beller, advogada que era sócia de Cerimedo e que, em 17 de agosto, foi atacada por pistoleiros supostamente a mando dele. Ela afirma que foi alvo do atentado por possuir informações sensíveis sobre as supostas conexões políticas e empresariais do consultor.

Após a confirmação das acusações contra Cerimedo pelo sistema judiciário boliviano e sua prisão preventiva, o presidente da Bolívia tentou minimizar a influência do consultor dentro do governo.

No entanto, Beller publicou fotos de seu ex-sócio na sede da presidência boliviana em La Paz supostamente tiradas em maio passado. Na imagem, o consultor aparece falando ao telefone e sentado em uma mesa como se estivesse em seu próprio escritório. A foto tenta demonstrar que, ao contrário das declarações de Paz Pereira, o consultor de fato trabalhava em estreita colaboração com o governo.

Mais alegações

Beller também divulgou fotos de conversas que supostamente teve com Cerimedo nas quais este solicitava relatórios de inteligência que, supostamente, somente funcionários deveriam ter acesso.

Nos primeiros dias do escândalo, a imprensa já havia publicado imagens de Cerimedo em reuniões de gabinete e eventos oficiais que o Ministério Público adicionou ao processo. A investigação busca determinar se o assessor se enriqueceu ilicitamente graças à sua influência dentro do governo boliviano.

Logo após o escândalo vir à tona, o próprio vice-presidente boliviano, Edmond Lara, denunciou que o assessor argentino estava dando ordens a ministros. Outra fotografia, divulgada novamente pela imprensa na semana passada, mostra Cerimedo em uma reunião entre Paz Pereira e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, como parte da delegação boliviana.

Embora Cerimedo fosse visto frequentemente junto de Paz Pereira, não existe nenhum contrato oficial que especifique suas funções ou salário. Tampouco foi explicado por que ele possuía um certificado que o identificava como membro da polícia boliviana, documento encontrado durante buscas em suas residências.

O jornal La Nación obteve uma cópia da declaração inicial do consultor em juízo na qual ele alegava ganhar um milhão de dólares por mês por seu trabalho de consultoria em toda a América Latina, mas se recusava a especificar seu cargo no governo boliviano. O consultor apenas afirmou que o processo contra ele fazia parte de uma tentativa de "golpe" contra Paz Pereira.

Repercussões Políticas

O ex-presidente colombiano Gustavo Petro (2022-2026) e o boliviano Evo Morales (2006-2019) reforçaram nos últimos dias suas exigências por uma investigação sobre a estrutura que Cerimedo criou na América Latina com seu sócio, Javier Negre, para denegrir candidatos e governos de esquerda na região por meio de notícias falsas no jornal La Derecha Diario.

Recentemente, o jornal ligado a Cerimedo difundiu noticiais falsas sobre uma onda de imigração ilegal de marroquinos ao Brasil em meio à campanha eleitoral para as eleições em outubro.

"Minha acusação de manipulação de milhões de eleitores por meio de milhões de perfis falsos em redes sociais criados pelo Sr. Cerimedo e pelo Sr. Negre durante a última campanha de Abelardo [de la Espriella, atual presidente da Colômbia] agora é um fato comprovado", declarou Petro em uma mensagem enfatizando as alegações de tráfico de drogas contra o assessor.

"Cerimedo recebeu comissões para facilitar o envio de cocaína para a Bolívia. Trata-se de uma coerção maciça do eleitorado colombiano, realizada por estrangeiros e com dinheiro estrangeiro, para alcançar a vitória eleitoral de um estrangeiro, cujo objetivo final é a entrega da soberania nacional e dos recursos naturais do país. Estamos diante da maior fraude eleitoral da história da Colômbia", acusou.

Morales, por sua vez, afirmou que Cerimedo "não era apenas um agente do império, mas também um narcotraficante".

As repercussões do escândalo "Cerimedogate" também chegaram até o Chile. Beller afirmou que o seu ex-parceiro conduziu campanhas de desinformação nas redes sociais para levar as pessoas a rejeitarem o projeto de nova Constituição que foi submetido a um plebiscito em 2022 e 2023.