A visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, ao Egito, na terça-feira (1º) e na quarta-feira (2), teve um significado que vai além de uma celebração diplomática. É a primeira viagem de Xi ao Egito desde 2016 e coincide com o 70º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Em 1956, o Egito foi o primeiro país árabe e africano a estabelecer relações com a República Popular da China.
O contexto atual, no entanto, transforma a visita em algo mais do que um aniversário simbólico. A China busca ampliar seu peso econômico e diplomático no Oriente Médio, enquanto o Cairo tenta manter um delicado equilíbrio entre suas relações com Washington, Pequim e outras potências.
Influência econômica
A dimensão econômica é um dos pilares da parceria. Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Egito em bens não petrolíferos. O comércio bilateral alcançou quase US$ 20,7 bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, as exportações egípcias para a China aumentaram quase 200%, para US$ 840,8 milhões, enquanto as importações provenientes da China chegaram a US$ 10,4 bilhões.
A presença chinesa não se limita ao comércio. Pequim investiu mais de US$ 10 bilhões no Egito, em projetos de infraestrutura, transporte, energia e manufatura. Destaca-se sua participação na construção da Nova Capital Administrativa, a leste do Cairo, bem como em projetos ferroviários. Empresas chinesas também estão presentes em terminais de contêineres, projetos de hidrogênio verde, produção de tubos de ferro, pneus e satélites.
Um ponto central é a Zona de Cooperação Econômica e Comercial China-Egito TEDA, em Ain Sokhna, junto ao Canal de Suez. A zona abriga cerca de 200 empresas e concentra investimentos superiores a US$ 3,8 bilhões. Para Pequim, trata-se de uma peça importante da Iniciativa do Cinturão e Rota: uma plataforma industrial e logística para acessar os mercados do Egito, da Europa, da África e do Oriente Médio.
A importância do Egito para a China não pode ser compreendida sem o Canal de Suez. Os dados disponíveis mostram até que ponto a China depende do comércio marítimo associado a essa rota: aproximadamente 60% do comércio entre a China e a União Europeia passa por essa via.
Cooperação militar
A relação também está adquirindo uma dimensão militar. Em agosto de 2026, as forças aéreas dos dois países realizaram o exercício "Eagles of Civilization 2026", com a participação de diferentes tipos de caças e treinamento conjunto em operações aéreas. Participaram aeronaves chinesas J-16 e caças egípcios Rafale, de fabricação francesa.
Isso é especialmente significativo porque o Egito continua sendo um dos principais parceiros militares dos Estados Unidos e recebe cerca de US$ 1,3 bilhão por ano em ajuda militar norte-americana.
Para além dos acordos
Xi e o presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, concordaram em aprofundar a parceria estratégica abrangente. Ambos presenciaram a assinatura de mais de 20 documentos de cooperação em áreas como a Iniciativa do Cinturão e Rota, inteligência artificial, comércio, economia e cadeias industriais e de abastecimento, economia digital, ciência e tecnologia, educação e transporte.
Mas a mensagem mais importante foi geopolítica. Xi propôs construir uma "nova arquitetura de segurança" para o Oriente Médio, baseada em uma segurança comum, abrangente, cooperativa e sustentável. Segundo o líder chinês, os países da região devem ser "donos de seus próprios assuntos" e rejeitar interferências externas.
A viagem ao Egito, portanto, pode ser interpretada como parte de uma estratégia mais ampla. Especialistas consideram que o principal objetivo da visita é contrabalançar a influência dos Estados Unidos nessa região estratégica.
"A China busca se consolidar como um ator econômico e diplomático cada vez mais importante na região, especialmente como contrapeso aos EUA e como um ator regional mais responsável e menos intervencionista", afirmou Rob Geist Pinfold, professor de Segurança Internacional do King's College de Londres, ao portal Al Jazeera.
Para o Egito, o fortalecimento dos vínculos com a China faz parte de um esforço para diversificar suas alianças internacionais. Em um artigo publicado antes da visita, Sisi afirmou que o Egito segue uma política de "equilíbrio estratégico" em um contexto de crescente rivalidade global.
"O Egito quer ampliar o círculo de suas relações com as principais potências mundiais, incluindo a China", declarou à agência Reuters o ex-diplomata egípcio Ayman Zaineldine.
O aniversário de 70 anos fornece o marco simbólico, mas o verdadeiro significado da visita parece ser outro: China e Egito tentam transformar uma relação histórica em uma parceria econômica, tecnológica, militar e geopolítica adaptada ao novo equilíbrio de poder no Oriente Médio.