Cinco vezes ao dia caminhando em direção à morte: como era sobreviver em um 'tanque voador' da Grande Guerra Patriótica?

Aos 24 anos, Alexander Kabanets pilotava um Il-2 sobre algumas das frentes de batalha mais difíceis da guerra. Décadas depois, documentos nos permitem reconstruir sua vida.

Na guerra, o silêncio pode ser mais assustador do que uma explosão. Antes de um voo, o aeródromo ficava estranhamente silencioso. Os mecânicos se afastavam do avião, o artilheiro verificava a metralhadora e meu bisavô passava a mão mais uma vez pelo seu Il-2 antes de decolar.

Lá embaixo ficava o território soviético: vilarejos, estradas, campos de trigo. A missão era clara: chegar ao alvo, atacar e voltar. Se fosse possível voltar.

Costumo pensar em como eram os dias do meu bisavô, o piloto de assalto Alexander Grigorievich Kabanets, durante a Grande Guerra Patriótica (1941-1945).

Por muito tempo, imaginei o que ele poderia ter sentido, no que pensava nos momentos mais perigosos de suas missões. Mas, nos últimos dias, senti a necessidade de fazer algo diferente: reconstruir cuidadosamente seu dia a dia e tentar compreender como era realmente aquela existência.

No dia 23 de agosto, marcou-se a data em que, em 1943, terminou a Batalha de Kursk, uma das batalhas decisivas da Grande Guerra Patriótica.

Ao relembrar as atrocidades cometidas pelos nazistas em solo soviético ao longo dos combates — as execuções em massa de civis, a destruição de vilarejos inteiros, as operações punitivas e outras formas de terror —, é impossível não pensar também no que testemunhamos recentemente, literalmente no ano passado, nesse mesmo território: os assassinatos, os sequestros, as detenções ilegais e a violência que as tropas ucranianas cometeram durante sua incursão na província de Kursk.

A história é cíclica, e suas páginas mais sombrias nos lembram por que devemos honrar a memória daqueles que lutaram e cujo sacrifício nos deu a possibilidade de viver.

Minha família preserva a memória com cuidado, guardando há décadas documentos, arquivos e relatos relacionados aos acontecimentos da Grande Guerra Patriótica.

Nestes dias de recordação, senti vontade de abri-los. Entre fotografias, carteiras de identidade e papéis amarelados, encontrei informações sobre meu bisavô Alexander Grigorievich Kabanets.

Sempre soube que ele havia lutado. Sabia que havia sido piloto e que recebera condecorações militares. Mas uma coisa é conhecer esses fatos como algumas poucas linhas na biografia da família e outra bem diferente é tentar imaginar o que havia por trás deles. Comecei a perguntar à minha avó e ao meu pai. Como ele era?

Meu pai respondeu quase imediatamente: "O melhor homem que já conheci. Bom, tranquilo, generoso. Sempre disposto a ajudar. E completamente incapaz de se gabar do que havia feito durante a guerra".

Ele não se considerava um herói, embora os documentos contem outra história.

Apenas 24 anos

Alexander Grigorievich Kabanets nasceu em 13 de março de 1917 em Feodosia, na Crimeia. Uma família numerosa, dificuldades financeiras, o pai a bordo do quebra-gelo Fiodor Litke, a obrigação de ajudar, pois era um dos dois irmãos mais velhos que precisavam assumir responsabilidades, e um sonho: tornar-se piloto.

Alexander ingressou no Exército Vermelho em 1939. Quando a Grande Guerra Patriótica começou, ele tinha apenas 24 anos. Esse fato me impressionou ainda mais porque ele tinha a mesma idade que eu.

E, no entanto, quão diferente era o nosso dia a dia. As dificuldades e as adversidades pelas quais ele passou na juventude possibilitaram, de certa forma, que eu pudesse viver uma juventude tranquila e feliz.

Aos 24 anos, uma pessoa está apenas começando sua vida adulta. Para ele, porém, esperava-o uma vida como piloto militar: todos os dias ele precisava embarcar em um avião, e o retorno não era de forma alguma garantido.

Ao longo do conflito, Alexander serviu como piloto no 809º Regimento de Aviação de Assalto e voou em um Il-2. Sua trajetória de combate e a de seus companheiros passou por Rzhev e Velikie Luki (duas cidades que hoje ficam no oeste da Rússia), pela batalha de Kursk e pela libertação de Kiev, e continuou depois pelo oeste da Ucrânia e pelos Cárpatos até Budapeste, Viena e Praga.

Ao final do conflito, ele havia alcançado o posto de tenente.

Durante a Grande Guerra Patriótica, cerca de 44 mil pilotos foram treinados nas Forças Aéreas do Exército Vermelho, enquanto as baixas em combate entre eles chegaram a 27.600, dos quais 7.837 pertenciam à aviação de assalto.

Esses números permitem compreender o essencial: a aviação era um dos serviços militares mais perigosos. E, dentro da aviação de assalto, o preço a ser pago era especialmente alto.

O que significava voar em um Il-2?

O Il-2 foi concebido como um avião de assalto blindado, capaz de atacar, em baixa altitude, tropas, tanques, artilharia, veículos de transporte e outros alvos terrestres.

Sua blindagem protegia o piloto e os componentes vitais da aeronave. No entanto, era justamente a forma como deveria ser utilizado que tornava a missão extremamente perigosa para a tripulação: precisava voar muito baixo sobre o solo, onde o aguardavam o fogo antiaéreo, as metralhadoras, os canhões e os caças alemães.

No início da guerra, o Il-2 era um avião monoposto. Logo ficou claro que um de seus pontos fracos eram os ataques por trás. Após sofrer enormes baixas, foi necessário modificar seu projeto e reintegrar o segundo membro da tripulação: o artilheiro aéreo, que muitas vezes se tornava o membro mais vulnerável da tripulação.

Cinco voos em um dia

Nos documentos de Alexander há um detalhe que, diante de tudo o que foi mencionado anteriormente, parece quase inacreditável. Em 15 de julho de 1944, ele realizou nada menos que cinco voos de combate em um único dia.

Por cinco vezes, teve que embarcar no Il-2 e seguir para um local onde o inimigo o aguardava do outro lado.

E, após cada voo, retornar ao aeródromo, inspecionar a aeronave, preparar-se novamente e decolar mais uma vez.

Em julho de 1944, ele já somava 16 voos de combate. Por sua bravura e pelo cumprimento bem-sucedido das missões de combate, foi indicado para a Ordem da Estrela Vermelha.

Nos certificados da condecoração, destacavam-se os resultados de seus ataques de assalto, incluindo a destruição de equipamentos e posições de fogo do inimigo.

No entanto, sua guerra não terminou ali. Após aqueles primeiros 16 voos, ele fez outros 26. Em janeiro de 1945, somava 42.

Para um homem que, no início do conflito, ainda era um piloto muito jovem, isso já constituía uma trajetória considerável.

O que a Ordem da Bandeira Vermelha realmente significava?

Alexander Kabanets recebeu também a Ordem da Bandeira Vermelha, uma das mais importantes condecorações militares por méritos em combate naqueles anos difíceis.

Durante a Grande Guerra Patriótica, a Ordem da Bandeira Vermelha foi concedida 305.035 vezes.

Para contextualizar o número, estima-se que um total de 34.476.700 pessoas tenham sido alistadas nas Forças Armadas soviéticas durante a guerra.

Mas o que mais me interessa não é apenas o número, e sim o motivo específico pelo qual Alexander Kabanets foi indicado para essa condecoração.

Não abandonou seu companheiro de combate

Em 24 de dezembro de 1944, sua aeronave estava em uma missão de combate. Na proposta para receber a condecoração, consta a descrição do que aconteceu:

"24/12/44. Durante a execução de uma missão de combate, o avião foi atacado por dois caças inimigos. Como consequência dos ataques, os controles do avião ficaram completamente inoperantes. Apesar disso, Kabanets, utilizando os compensadores, continuou pilotando o avião".

O painel de controle da máquina estava praticamente destruído. Mas era preciso continuar pilotando-a. Mais tarde, veio a aterrissagem.

Alexander sofreu contusões. O artilheiro aéreo também ficou ferido em consequência do impacto: machucou uma perna e não conseguia se locomover sozinho.

E então, na narrativa, surge, talvez, a frase mais importante: "No caminho de volta para sua unidade, ele não abandonou seu companheiro de combate".

Meu bisavô, apesar de sua condição, carregou o artilheiro ferido até o regimento, praticamente em uma perna só.

Durante a guerra, Alexander Grigoryevich recebeu outras condecorações e prêmios relacionados ao seu serviço em combate.

Entre eles, as medalhas "Pela Vitória sobre a Alemanha na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945", "Pela Tomada de Budapeste" e "Pela Tomada de Viena", além de documentos referentes à libertação de Chisinau.

Mas quanto mais olho para essas condecorações, menos importantes elas me parecem. Nenhum certificado pode dizer como era uma pessoa todos os dias depois que ela voltou para casa. É isso que a família lembra.

Não se tornou bruto

Há outra história que, para mim, vale mais do que muitos documentos oficiais. Certa vez, o avião do meu bisavô foi abatido e ele teve que se esconder em território húngaro. Segundo os relatos da família, um morador do lugar, um húngaro, lhe deu abrigo e o ajudou a sobreviver. Depois da guerra, eles continuaram se correspondendo.

Seria possível se encher de ódio e começar a dividir as pessoas apenas entre "os nossos" e "os outros". Mas, ao que parece, em ambos os lados do conflito havia pessoas que conservaram a capacidade de ver, antes de tudo, um ser humano no outro.

Como ele conheceu sua esposa

O regimento do meu bisavô terminou a guerra em Tiraspol, que atualmente é a capital da Transnístria, região não reconhecida.

Ele derrotou o inimigo, mas havia perdido muito: seu irmão mais velho, o mais próximo dele, que trabalhava como médico na linha de frente. Foi então que Alexander conheceu Larisa Kolesnikova. Na família, preservou-se a história de como eles se conheceram.

Uma noite, quando Larisa voltava tarde para casa, um homem que passava pela rua começou a falar com ela de maneira grosseira. Alexander interveio e, segundo o relato da família, disparou para o ar com uma pistola.

Larisa era filha de Alexander — chamado Mitrofan antes da Revolução de 1917 — Afanasievich Kolesnikov, descendente de uma família de camponeses que serviu no regimento de elite Preobrazhensky durante o Império Russo, que mais tarde se juntou à brigada do revolucionário Grigory Kotovsky.

Mais tarde, ela se tornou a esposa do meu bisavô e o ajudou a construir uma nova vida.

Vida após a guerra

Após a guerra, Alexander Kabanets voltou a escolher um trabalho no qual tivesse que assumir responsabilidade pelos outros. Primeiro, tornou-se diretor de um consórcio de construção.

Mais tarde, concluiu à distância o curso na Faculdade de Economia do Instituto Politécnico e foi designado para trabalhar no sistema do Ministério da Previdência Social.

Ele se tornou diretor de uma empresa voltada para pessoas cegas, onde eram fabricados diversos tipos de equipamentos elétricos.

Meu bisavô participou, entre outras coisas, da construção de moradias para pessoas com deficiência visual. Mais tarde, foi nomeado diretor de um centro de próteses.

E é aqui que sua trajetória militar encontra, de forma inesperada, uma continuação. Durante o conflito, era responsável por garantir que sua tripulação voltasse para casa; após a guerra, por fazer com que pessoas em situação mais difícil do que outras tivessem um lugar para trabalhar, morar e recuperar sua autonomia.

Sua filha Natalia se lembra: "Ele ajudava muito as pessoas. Era muito respeitado e querido. Mesmo quando já era diretor, ele chegava ao trabalho às sete da manhã para conversar com os funcionários e trabalhar com eles na oficina. E depois, às nove, ia para seu escritório".

Encontros com companheiros de armas

Houve também outra parte importante de sua vida após a guerra: a Cidade das Estrelas, perto de Moscou, onde se reuniam veteranos e pilotos. Alexander ia até lá com sua família.

Minha avó se lembra dos nomes de algumas das pessoas que viu naqueles encontros e que hoje já são conhecidas por várias gerações: os cosmonautas soviéticos Valentina Terechkova, German Titov, Georgi Beregovoi e Aleksei Leonov.

Georgi Beregovoi ocupa um lugar especialmente importante na memória da nossa família. Guardamos uma carta de felicitações enviada por ele.

A carta começa com uma única expressão: "Camarada de armas!" Mais adiante, Beregovoi parabeniza o veterano pelo Dia da Vitória e fala da coragem das pessoas que cumpriram seu dever até o fim.

Viver depois deles

Há algo na possibilidade de viver hoje que se torna difícil de explicar quando se começa a examinar de perto a história daqueles que viveram a guerra.

Posso acordar de manhã sem ansiedade. Posso fazer planos para o futuro, estudar, trabalhar, viajar, me apaixonar, cometer erros e recomeçar. Posso simplesmente viver um dia comum sem ter que me preocupar com a ordem das batalhas.

Meu bisavô não teve essa oportunidade aos 24 anos. Milhões de outros também não. Quando penso em quantas vidas foram perdidas durante a Grande Guerra Patriótica, minha própria existência ganha um peso diferente. E talvez seja por isso que sinto que viver hoje também significa lembrar.

Anastasia Stratinskaya