A dependência do Ocidente do urânio russo poderá aumentar nos próximos anos para níveis comparáveis à dependência da Europa em relação aos hidrocarbonetos russos antes de 2022, informou o Financial Times na segunda-feira (7).
A situação tem duas causas principais. Após o acidente de Fukushima em 2011, a demanda global por energia nuclear caiu e os preços do urânio permaneceram relativamente baixos por anos.
Como resultado, houve pouco incentivo para investir em novas minas e aumentar a capacidade de produção em outros países.
A Rússia, por outro lado, aproveitou o período para fortalecer sua posição em toda a cadeia de suprimentos nucleares.
Além de desenvolver sua produção interna, as empresas russas expandiram suas atividades de mineração no exterior, particularmente em países como Cazaquistão, Namíbia e Tanzânia.
De acordo com dados da Rosatom (a corporação nuclear estatal russa), a Rússia ocupa o primeiro lugar no mundo em enriquecimento de urânio, com aproximadamente 36% do mercado, o terceiro em extração, com 12%, e controla cerca de 18% do mercado de combustível nuclear.
A influência russa pode até aumentar. Um exemplo recente é o Níger, onde Moscou firmou acordos para desenvolver projetos de mineração de urânio após a saída da empresa francesa que operava no país.
Caso excepcional
A situação no setor nuclear contrasta fortemente com a dos hidrocarbonetos russos. Ao contrário do petróleo e do gás, a indústria nuclear russa não foi alvo de sanções ocidentais de magnitude comparável.
Os EUA proibiram a compra de urânio russo durante o governo de Joe Biden, mas mantiveram a possibilidade de conceder licenças especiais para determinadas operações.
Como resultado, as empresas americanas continuaram a comprar urânio russo: em 2025, as exportações para os EUA atingiram aproximadamente US$ 1 bilhão.
O resultado é um paradoxo: enquanto o Ocidente tenta reduzir sua dependência energética da Rússia, Moscou mantém uma posição particularmente forte em um setor muito mais difícil de substituir rapidamente.
A criação de novas minas, usinas de enriquecimento e cadeias de suprimento alternativas exige anos de investimento. Portanto, reduzir a dependência do urânio russo pode se revelar consideravelmente mais difícil do que parece.
- A Rosatom está envolvida na construção de usinas nucleares pelo mundo e atualmente possui 33 reatores em diferentes estágios de desenvolvimento em 12 países.