A indústria argentina atravessa uma crise profunda sob o governo do presidente Javier Milei, com o fechamento de aproximadamente 30 mil empresas e a perda de cerca de 90 mil empregos no setor desde agosto de 2023, conforme divulgou a Folha de S.Paulo na sexta-feira (11).
A política de abertura comercial e desregulamentação econômica promovida sob seu mandato tem gerado forte pressão dos empresários, que denunciam a "morte do mercado interno" e uma "avalanche de importações" que inviabiliza a competição local.
A fábrica de sapatos Kioshi, localizada em Esteban Echeverría, nos arredores de Buenos Aires, simboliza esse colapso.
De 120 funcionários em 2023, restam apenas 14 trabalhadores, produzindo um quarto do volume anterior. Emmanuel Fernández, diretor da empresa, afirma que "o mercado interno está morto" e que as pessoas "dificilmente vão comprar calçados" em meio à retração do consumo.
Alarme no setor
Em junho, a indústria argentina operava com cerca de 40% de capacidade ociosa, com uma queda de 5% na produção manufatureira rentre junho e julho, o maior recuo em 16 meses, conforme estatisticas oficiais.
A consultoria Equilibra apresenta dados ainda mais graves, demonstrando que 36 de 55 segmentos econômicos — dois terços da economia — registraram perdas severas entre 2023 e 2025, com destaque para o setor de calçados (queda de 29,8%) e têxtil (recuo de 27,1%).
Adicionalmente, no campo do trabalho, Argentina perdeu mais de 240 mil empregos formais no setor privado desde 2023, de acordo com pesquisas da Universidade de Buenos Aires.
A situação é dramaticamente ilustrada pelo caso da fábrica de produtos químicos da empresa suíça Clariant, em Zárate, que encerrou operações em 2025 por inviabilidade financeira após meio século de atividade.
Miguel Márquez, que trabalhou ali por 20 anos, conta que apenas dois dos 42 demitidos conseguiram emprego formal, citado pelo portal g1. Os demais, como ele, hoje com 62 anos, sobrevivem de trabalhos informais, dirigindo para aplicativos.
Embate entre governo e empresários
A União Industrial Argentina (UIA), durante o evento do Dia da Indústria em 2 de setembro, apresentou uma reivindicação ao governo solicitando medidas diante da abertura econômica, citando o plano brasileiro "Nova Indústria Brasil" (NIB) de 2024 como uma forte referência.
O presidente Martín Rappallini declarou que "a economia não pode ser medida apenas pela evolução da inflação, temos que olhar para a atividade".
No mesmo dia, Milei afirmou que sua política de austeridade "não é negociável".
O desgaste do relacionamento sob tensão ficou evidente, ressaltado pelo fato de que Milei se ausentou e enviou apenas funcionários de segundo escalão para participar das atividades.
O ministro da Economia, Luis Caputo, defendeu seu papel de "defender os interesses de 48 milhões de argentinos, não de determinados empresários", considerando "imoral e injusto" que os argentinos paguem por produtos de menor qualidade valores muito superiores.
Empresários como Alejandro Mayer, vice-presidente da fábrica de circuitos Ernesto Mayer, contestam a alegação de falta de competitividade.
"Ninguém quer não competir, mas também você tem que ter condições para competir", afirmou à imprensa. Ele destaca o "atraso cambiário" que encarece produtos locais em dólares, somado a juros elevados e carga tributária que impossibilitam concorrência com países como a China.
Aperta daqui, solta de lá
Estatísticas complexificam o cenário nacional, demonstrando que a economia argentina cresceu em 2025 — cerca de 4,4% do PIB nos dados do Banco Mundial —, impulsionada por hidrocarbonetos, mineração e agronegócio, embora a retração do comércio e da indústria afete as grandes cidades.
No primeiro trimestre deste ano, o país registrou queda de 11,2% na formação bruta de capital em capital fixo — indicador que mede o total dos investimentos em ativos fixos feitos por produtores em um país — denotando um desinvestimento acumulado de cerca de US$ 1,2 bilhão desde dezembro de 2023.
Milei efetivamente conseguiu reduzir a inflação de três dígitos para 33,8% na comparação interanual em julho, um dos principais resultados reivindicados pelo governo.
Contudo, pesquisas indicam que emprego e salários superaram a inflação como principal preocupação dos argentinos, representando um sinal de alerta para Milei, que tentará a reeleição em 2027.
"Não há inflação porque não há compras", afirma Gloria Aparicio, sócia da fábrica de instrumentos musicais Martin Blust, fundada em 1952, em Buenos Aires, que hoje emprega dez pessoas e fecha às sextas por falta de encomendas.
Cheque do câmbio
"Do Rodrigazo à corrida ao peso após as primárias de 2019, quase todas as grandes crises [da Argentina] combinaram inflação, déficit fiscal, impressão de dinheiro, dívida, defasagem cambial, perda de reservas e desvalorização", avalia o cientista político argentino Carlos Burgueño, em artigo publicado neste sábado (12).
Sem indústria forte, a economia poderia esconder uma vulnerabilidade crítica quando confrontados os dados de suas reservas cambiais e compromissos externos do país. As reservas brutas do Banco Central (BCRA) fecharam em pouco mais de US$ 50 milhões na última quarta-feira (9), após sofrer a maior queda diária do mês, em US$ 115 milhões.
A Argentina enfrenta uma dívida de US$ 44 bilhões com o FMI; com pagamentos estruturados em US$ 800 milhões para 30 de setembro e US$ 1,2 bilhão para 30 de outubro, o país está preso em um ciclo vicioso: precisa de reservas para honrar compromissos, mas não consegue acumulá-las adequadamente porque a indústria — que tradicionalmente geraria dólares através de exportações de valor agregado — está enfraquecida.
Com reservas insuficientes, o BCRA perde capacidade de intervir no mercado cambial para conter a alta do dólar. Em 2001, "a demanda de dólares superou amplamente a capacidade do país de gerar essas divisas", aponta a jornalista chilena Fernanda Paúl, levando aos episódios do "corralito" — que restringiu os saques em espécie para os argentinos — e ao colapso da convertibilidade.
A bandeira de dolarização levantada por Milei esgarça a atual contradição vivida pela política econômica do país: o câmbio artificialmente alto contém a inflação, mas impede acúmulo de reservas e a competitividade industrial; a iminência de uma reserva esgotada ameaça uma desvalorização cambial, que pode levar o país novamente à inflação.