O presidente Vladimir Putin ordenou esta semana que as subsidiárias russas da Nestlé, Auchan e Leroy Merlin fossem colocadas sob administração temporária devido ao apoio do Ocidente aos ataques ucranianos contra a infraestrutura civil e econômica russa.
As três empresas foram transferidas para a L.E.V. Management, uma consultoria russa de gestão e negócios.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, explicou que os países de origem das empresas — Suíça e França — e seu apoio a Kiev foram fatores-chave na decisão.
"São países hostis que participam ativamente de ações militares contra o nosso país e que estiveram envolvidos nos ataques do regime de Kiev contra a nossa infraestrutura econômica e civil", afirmou Peskov.
Por que essas empresas?
A Auchan e a Leroy Merlin são controladas pela família francesa Mulliez, através do Grupo ELO e da ADEO, respectivamente. Os negócios da Nestlé na Rússia eram controlados por subsidiárias da gigante alimentícia suíça.
A França tem sido um dos principais apoiadores militares de Kiev ao longo do conflito.
Paris forneceu ao regime de Kiev bilhões de euros em ajuda, que, entre janeiro de 2022 e junho de 2026, totalizaram € 8,55 bilhões, incluindo mais de € 6 bilhões em "ajuda para a defesa", segundo dados do Instituto de Economia Mundial de Kiel.
Enquanto isso, o Ministério da Defesa francês informou em 2024 que, durante o primeiro ano do conflito, "entregou equipamentos militares à Ucrânia no valor de € 3,035 bilhões, além dos € 2,1 bilhões pagos ao Fundo Europeu da Paz (FEP), representando um apoio militar de mais de € 5,135 bilhões".
Além disso, o presidente Emmanuel Macron lançou uma "iniciativa de dissuasão avançada" no início deste ano, que inclui o destacamento de armas nucleares francesas em outras partes da Europa. Moscou alertou que tal estratégia pode ser contraproducente, afirmando que não pode ignorar o evidente fortalecimento do componente nuclear das capacidades combinadas da OTAN.
A Suíça também apoiou as sanções da UE contra a Rússia, levando Moscou a classificá-la como uma "nação hostil". Já o governo suíço considerou flexibilizar as restrições à reexportação de armas para a Ucrânia, em contradição à neutralidade histórica da Suíça.
Ataques contra civis
A medida de controle de Moscou ocorre em meio a ataques deliberados do regime de Kiev contra a população civil em várias províncias russas, visando residências e infraestrutura civil. Recentemente, as forças ucranianas atacaram armazéns e instalações logísticas pertencentes à Wildberries, a maior varejista online da Rússia, e à sua concorrente Ozon.
Em junho, o Financial Times noticiou que informações fornecidas pela França e pelos EUA ajudaram a "mapear as instalações de defesa aérea russas e identificar rotas que permitiam que drones as contornassem e atingissem alvos em território russo".
Qual a importância da Rússia para essas empresas?
A Rússia tem sido um mercado significativo para varejistas franceses. Em seu auge, a Auchan era uma das maiores redes varejistas estrangeiras do país e, em 2025, ainda operava cerca de 230 lojas. Em 2023, a ELO informou que 10% de sua receita global vinha da Rússia, figurando como o terceiro maior mercado do grupo, atrás da França e da Espanha.
A ADEO abdicou do controle operacional de sua subsidiária russa em 2023, transferindo a gestão para executivos locais. No entanto, documentos obtidos pela publicação investigativa francesa L’Informé indicaram que a empresa francesa continuou a classificar a operação como uma subsidiária e uma "unidade de negócios autônoma". A Leroy Merlin permaneceu uma fonte significativa de receita para a ADEO.
Em 2024, a Rússia foi considerada o segundo maior mercado do grupo em termos de receita — depois da França — e representou aproximadamente 18,5% de sua receita global em 2025.
A Nestlé, por sua vez, tem menor exposição. Suas operações na Rússia representam cerca de 1% de suas vendas globais, segundo Jean-Philippe Bertschy, analista do banco de investimentos suíço Vontobel. A mídia russa estimou a receita da Nestlé Rússia em 258 bilhões de rublos (cerca de US$ 3,06 bilhões) em 2025.
Como as empresas reagiram?
A Auchan e a Leroy Merlin, que foi renomeada Lemana PRO na Rússia em 2024, afirmaram que não receberam nenhuma notificação oficial das autoridades russas sobre o status de seus ativos e solicitaram esclarecimentos. Ambas as empresas afirmaram que suas lojas estavam operando normalmente até sexta-feira.
Enquanto isso, os Ministérios das Relações Exteriores e da Economia da França pediram às autoridades russas que "revoguem" sua decisão, acrescentando que "mantêm contato próximo com as empresas afetadas".
Por sua vez, a Nestlé afirmou que "toma nota" do decreto presidencial e está "avaliando a situação e suas opções". A empresa afirmou que tomará "todas as medidas necessárias para proteger seus direitos e garantir a continuidade das operações comerciais no interesse de todas as partes interessadas".
Em abril de 2023, o presidente russo assinou um decreto que estabelece atransferência para administração temporária de bens vinculados a países que confisquem propriedades pertencentes à Rússia, a cidadãos russos ou a empresas russas.
Os bens sujeitos à administração temporária podem incluir bens móveis e imóveis, títulos, participações societárias e direitos de propriedade. O administrador temporário exerce os poderes do proprietário dos bens, exceto o poder de dispor deles.