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'Ditadura do unilateralismo está ruindo': Chanceler da Rússia, Sergey Lavrov discursa na 81ª Assembleia Geral da ONU

Durante sua visita a Nova York, o chanceler russo manteve uma intensa agenda de reuniões bilaterais.
'Ditadura do unilateralismo está ruindo': Chanceler da Rússia, Sergey Lavrov discursa na 81ª Assembleia Geral da ONUGettyimages.ru / Michael Kappeler

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, discursa neste sábado (26) na Assembleia Geral da ONU, em um contexto marcado pelo conflito na Ucrânia, pelas tensões com o Ocidente e pelas crescentes disputas sobre a ordem internacional.

O chanceler russo criticou a política do Ocidente, que recorre cada vez mais à força bruta, age de forma imprevisível e temerária e coloca em risco a vida e o bem-estar do mundo. Nesse sentido, citou o presidente russo, Vladimir Putin: "A ditadura de um único hegêmona saiu de controle e é sensivelmente perigosa para aqueles que o cercam".

Europa tenta frustrar negociações de paz sobre a Ucrânia

Lavrov afirmou que, imbuído do objetivo utópico de conter a Rússia, o Ocidente destruiu o sistema de segurança europeu e cultivou um regime russofóbico em Kiev. O chanceler denunciou que, "compreendendo a futilidade de seus esforços, na Europa faz-se todo o possível para impedir uma solução pacífica e frustrar as perspectivas de negociações nas quais muitos estão interessados, inclusive a administração Trump".

O ministro russo acusou o Ocidente de fornecer armas ao regime ucraniano e de ajudar Kiev "a direcionar drones e mísseis contra civis e infraestrutura civil". Lavrov alertou: "No Ocidente, sonham em infligir uma derrota estratégica à Rússia. Mas esses sonhos, como já aconteceu muitas vezes no passado, levarão os próprios instigadores da guerra a um beco sem saída estratégico".

Críticas sobre Venezuela, Irã e Oriente Médio

Lavrov listou uma série de ações do Ocidente que violaram todas as normas internacionais, incluindo o sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada Cilia Flores, exigindo a pronta libertação de ambos.

Além disso, ele classificou como "inaceitável" o assassinato do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e denunciou que a agressão dos EUA e Israel atingiu "não apenas a infraestrutura civil do Irã, mas também instalações nucleares pacíficas sob proteção da AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica]", causando "danos irreparáveis ​​a todo o sistema de não proliferação".

Lavrov considera necessário estabelecer a confiança entre os Estados do Golfo, os países árabes e o Irã, e propôs o conceito russo de segurança coletiva para a região. Sobre a Palestina, ressaltou que "chegou o momento de garantir o status de Estado para o povo palestino", alertando que, se Israel continuar expandindo seus assentamentos na Cisjordânia, "será impossível criar um Estado palestino. Simplesmente não haverá espaço para ele".

Solidariedade com Cuba

O ministro das Relações Exteriores da Rússia indicou que são necessárias medidas urgentes para resolver a desastrosa situação humanitária em Cuba, país que hoje sofre uma pressão sem precedentes por parte de seu vizinho do norte. Ele reafirmou a "solidariedade com o povo e o governo cubanos" e clamou "veementemente pelo levantamento do bloqueio marítimo à Ilha da Liberdade, o cancelamento de todas as restrições ao comércio com Cuba e a exclusão do país da lista — há muito considerada odiosa — de Estados patrocinadores do terrorismo".

"Estes são apenas os exemplos mais flagrantes que exigem atenção prioritária da comunidade internacional. No entanto, não podemos nos limitar a eles. A política de força e a hipocrisia do Ocidente desestabilizam a situação em toda parte", assinalou Lavrov.

"Flagrantes Violações do regime ucraniano"

Ainda durante seu discurso, o chefe da diplomacia russa acusou o Ocidente de enviar armas em massa ao regime ucraniano e de ajudar Kiev a "direcionar drones e mísseis contra civis e a infraestrutura civil"

Lavrov denunciou ainda a ascensão do nacionalismo na Ucrânia. "O regime ucraniano mina abertamente um princípio fundamental da Carta da ONU, que é o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, idioma ou religião", denunciou Lavrov. "Não há outro país no mundo, exceto a Ucrânia, onde um idioma seja proibido por lei. Na Ucrânia, o russo é proibido; seu uso implica em punições que podem chegar à prisão", acrescentou.

O chanceler observou que a União Europeia, que se orgulha de salvaguardar os valores europeus, se silencia diante disso. "Involuntariamente, chega-se à conclusão de que tanto o nazismo quanto as violações flagrantes, por parte do regime ucraniano, da liberdade de expressão, de informação e de religião constituem a essência desses mesmos valores europeus", afirmou.

80 anos do Tribunal de Nuremberg

Em seu pronunciamento, o chefe da diplomacia russa lembrou que, no ano passado, foi celebrado o 80º aniversário da vitória sobre o nazismo alemão e o militarismo japonês e que, na próxima semana, em 1º de outubro, completar-se-ão 80 anos do encerramento dos trabalhos do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg.

Lavrov destacou que o veredito histórico daquele tribunal condenou severa e inequivocamente os criminosos nazistas e baniu a ideologia misantrópica do nazismo.

No entanto, o ministro russo afirmou que, 80 anos depois, as lições de Nuremberg não foram aprendidas por todos. Segundo Lavrov, "as elites governantes de muitos países da UE, a julgar pelas declarações de seus representantes, estão claramente infectadas pelo vírus da superioridade racial, nutrem ideias extremistas e russofóbicas e são condescendentes com os líderes do regime ucraniano quando estes homenageiam, em Kiev, criminosos de guerra e colaboradores de Hitler, cujas mãos estão manchadas até os cotovelos pelo sangue de russos, judeus, bielorrussos, ucranianos e pessoas de outras nacionalidades".

O chanceler russo denunciou que quase todo o Ocidente vota anualmente, na Assembleia Geral, contra a resolução russa que condena a glorificação do nazismo, incluindo a Alemanha, o Japão e todos os países da OTAN. "Isso não nos surpreende, mas gostaria de ressaltar que os resultados da Segunda Guerra Mundial constituem a base da ordem mundial do pós-guerra e estão consagrados na Carta da ONU", enfatizou.

Luta pela verdade e pela justiça

Ao abordar a situação na Ucrânia, o chanceler russo reafirmou a posição de Moscou sobre a operação militar especial. "Ao iniciar, em 2022, a operação militar especial para proteger a população de Donbass e de Novorossiya do extermínio por parte do regime de Kiev, a Rússia continua lutando por sua segurança e seus direitos em plena conformidade com a letra e o espírito da Carta da ONU", declarou Lavrov.

O ministro ressaltou com firmeza: "Nossa luta pela verdade e pela justiça irá até o fim. Os objetivos da operação militar especial serão alcançados, as ameaças à segurança da Rússia serão eliminadas e a vida pacífica será restabelecida".

Segundo Lavrov, "isso acontecerá, independentemente de quaisquer circunstâncias, incluindo a incapacidade da atual liderança da organização mundial de adotar a única posição correta em relação à situação na Ucrânia: a posição de defensora dos princípios da Carta da ONU — não de forma seletiva, mas em sua totalidade, plenitude e inter-relação".

Por fim, o chanceler russo expressou sua expectativa em relação à futura liderança da ONU: "Contamos com que o novo secretário-geral, que devemos eleger antes do final do ano, cumpra rigorosamente o seu mandato" como defensor de todos os princípios da Carta da ONU.

  • Em 22 de setembro, teve início em Nova York a Semana de Alto Nível do 81.º período de sessões da Assembleia Geral da ONU, reunindo chefes de Estado e de governo, ministros e diplomatas de todo o mundo. A sessão será conduzida sob o lema "Restaurar a confiança, gerir a transformação: uma ONU que cumpra o seu papel para todos", em um cenário global marcado por múltiplos conflitos e fortes tensões entre os Estados.
  • O ministro russo chegou a Nova York na quarta-feira (23). Durante sua estadia na cidade, Lavrov manteve uma intensa agenda de reuniões bilaterais à margem da Assembleia Geral. Entre elas, destaca-se o encontro com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, realizado em 23 de setembro e focado nas relações entre Moscou e Washington e na crise ucraniana.
  • O chefe da diplomacia russa também se reuniu com seus homólogos de Cuba, Nicarágua, Irã, Índia e outros países, além do secretário-geral da ONU, António Guterres, a quem entregou um relatório sobre a farsa ucraniana do suposto Massacre de Bucha.