Novo desejo de independência na Europa? Líder sérvio na Bósnia e Herzegóvina vê em Trump nova chance de emancipação

Milorad Dodik, ex-presidente da República Srpska, afirma que este é o momento de libertar a população cristã dos mais de 500 anos de domínio muçulmano.

Milorad Dodik, ex-presidente e ex-primeiro-ministro da República Sérvia (Srpska), parte constituinte da Bósnia e Herzegóvina, acredita que a região deveria se emancipar do país e espera que a Administração Trump o ajude com isso.

O político, cassado por um tribunal local, afirmou na sexta-feira (25) ao apresentador americano Wayne Allyn Root no programa 'War Zone' que os cristãos sérvios não querem continuar vivendo "sob o poder" dos muçulmanos bósnios.

"É que muçulmanos e turcos governaram aqui durante 500 anos e os sérvios sobreviviam de uma forma ou de outra", afirmou. Ele acrescentou ainda que não consegue imaginar "como eles suportaram os sofrimentos a que foram submetidos por cinco séculos".

Segundo Dodik, a população cristã hoje acredita que "a Bósnia e Herzegóvina não é o nosso lugar", e que enxerga em Donald Trump "um símbolo de liberdade e esperança".

Dodik recordou que a situação jurídica de seu país é regida pelo Acordo de Dayton (1995), que é "uma ficção inventada por Richard Holbrooke e os Clinton [Hillary e Bill], que estavam obcecados com a ideia de uma convivência multinacional".

Contexto histórico

A República Sérvia também conhecida como República de Srpska, é uma das duas entidades políticas em que está dividida a Bósnia e Herzegóvina, sendo a outra a Federação da Bósnia e Herzegóvina.

A República Srpska nasceu do colapso da Iugoslávia. Em 1991, com a independência da Eslovênia e da Croácia, a Bósnia e Herzegóvina, um Estado multinacional, mergulhou em tensão: sérvios, croatas e bósnios começaram a formar seus próprios movimentos nacionalistas.

Em 24 de outubro de 1991, 83 deputados sérvios contrários à separação da Bósnia e Herzegóvina da Iugoslávia criaram a "Assembleia do Povo Sérvio na Bósnia e Herzegóvina". Em 9 de janeiro de 1992, essa Assembleia proclamou a República do Povo Sérvio, e, a partir de agosto de 1992, a "República Srpska".

 

A proclamação contribuiu para o início da Guerra da Bósnia (1992–1995). O status definitivo veio com os Acordos de Dayton, em 1995, que dividiram a Bósnia e Herzegóvina em duas entidades: a República Srpska e a Federação da Bósnia e Herzegóvina. A primeira recebeu ampla autonomia dentro de um Estado unificado — com presidente, parlamento, governo e polícia próprios.

O papel dos EUA

Os Estados Unidos foram os principais arquitetos e mediadores dos Acordos de Dayton.

O presidente Bill Clinton fez do fim da guerra na Bósnia uma prioridade de sua administração, e o diplomata americano Richard Holbrooke conduziu a chamada "diplomacia itinerante" entre Belgrado, Zagreb e Sarajevo, reunindo os líderes das três partes beligerantes na base militar de Wright-Patterson, em Dayton (Ohio).

A pressão militar também foi decisiva: os EUA lideraram os ataques aéreos da OTAN em 1995 que forçaram os sérvios da Bósnia à mesa de negociações.

Washington também definiu a arquitetura constitucional do pós-guerra, insistindo na Bósnia e Herzegóvina como um Estado único composto por duas entidades — a República Srpska (49% do território) e a Federação da Bósnia e Herzegóvina (51%).

Além disso, os EUA enviaram cerca de 20 mil soldados para garantir a implementação do acordo. Bill e Hillary Clinton foram diretamente associados ao processo: Bill liderou o esforço diplomático e militar, enquanto Hillary, então primeira-dama, visitou a região e defendeu publicamente a intervenção americana.

A política da República Sérvia até agora

Após Dayton, a política da República Srpska foi marcada por uma tensão constante entre autonomia e separatismo, com Milorad Dodik se colocando como uma figura central neste processo por quase duas décadas. O ponto de virada veio em 2025, quando o Tribunal da Bósnia e Herzegóvina o condenou por desobediência ao Alto Representante da ONU, e a Comissão Eleitoral Central cassou seu mandato de presidente da República Srpska.

Em novembro de 2025, eleições antecipadas deram vitória a Siniša Karan, aliado de Dodik, mas o pleito foi manchado por fraudes em 136 seções eleitorais, exigindo que fosse realizada uma nova eleição em fevereiro de 2026, a qual ele ganhou novamente. Karan governará até as eleições gerais de outubro de 2026.

Nos bastidores, Dodik continua exercendo influência de facto sobre o governo da República Srpska, mesmo sem cargo formal.

Em 2026, Trump retirou as sanções contra Dodik e seus aliados, fortalecendo a ala nacionalista, o que fez com que ele voltasse a defender a separação da República Srpska da Bósnia e Herzegóvina apostando no apoio americano.