
Como o Pentágono intensifica a 'guerra às drogas' de Trump na América Latina

Quase um ano depois de os EUA lançarem uma polêmica e massiva campanha de bombardeios contra embarcações no Caribe e no Pacífico — justificada como uma luta contra os cartéis de drogas, mas que gerou acusações de falta de legitimidade e de configurar execuções extrajudiciais —, Washington planeja intensificar essas operações. Entre as medidas estão o uso de novas tecnologias e incursões em solo latino-americano, informou o The Wall Street Journal na terça-feira (29).
Autoridades americanas revelaram ao jornal que as mobilizações fazem parte de "um esforço mais amplo" da administração de Donald Trump para "cortar as redes de tráfico ilícito" ao redor do mundo, utilizando tecnologia militar sofisticada e outras ferramentas de combate ao terrorismo.

Nesse contexto, fontes afirmam que o Pentágono está considerando transferir os dispendiosos drones MQ-9 Reaper da África para a América Latina.
LEIA MAIS: MQ-9 Reaper — o drone que era 'símbolo de poder' dos EUA está se revelando um fiasco contra o Irã
Tais equipamentos, amplamente utilizados pelas forças norte-americanas, são capazes de interceptar comunicações eletrônicas, detectar calor e realizar ataques de precisão. Segundo relatos, os drones já foram usados em vários bombardeios contra embarcações na região.
Por sua vez, o chefe do Comando Sul, general Francis L. Donovan, não descartou a possibilidade de realizar ataques terrestres. "Queremos ter todas as opções sobre a mesa", disse ele. Donovan detalha que, entre essas ações, podem estar ataques, prisões, o desmantelamento de um esconderijo ou algo tão rotineiro quanto aumentar o uso de scanners de carga em postos de controle de fronteira.
Esse papel operacional crescente marca uma mudança significativa para o Comando Sul, que tradicionalmente mantinha uma presença discreta na região, concentrando-se amplamente no compartilhamento de inteligência, interdições, treinamento e assistência em casos de desastre, aponta a publicação.
Além disso, tais movimentos coincidem com a designação, por parte de Trump, de mais de 20 grupos como organizações terroristas estrangeiras, a revogação de vistos de autoridades latino-americanas supostamente ligadas ao narcotráfico e a decisão de redirecionar US$ 52 milhões em assistência militar norte-americana — originalmente destinados à Eslováquia, Macedônia do Norte, Tunísia e Iraque — para o Panamá, Peru, Equador e Colômbia.
Execuções extrajudiciais contra "narcoterroristas"
A estratégia de Trump soma-se a uma série de ações semelhantes já realizadas, que deixaram mais de 220 mortos tanto no Caribe quanto no Pacífico.
O que Washington apresenta como um novo capítulo de sua "guerra contra o narcotráfico" — e que começou sendo, de fato, uma das vertentes mais agressivas de pressão contra o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela — foi classificado por especialistas das Nações Unidas, organizações de direitos humanos e vários juristas como uma série de execuções extrajudiciais.
O cerne dessas críticas é que o combate ao narcotráfico é uma questão de aplicação da lei, e não um conflito armado. Portanto, rege-se pelo direito internacional, que limita estritamente o uso de força letal a situações de ameaça iminente. Nada nas informações disponíveis indica que as embarcações atacadas por forças norte-americanas atendessem a esse critério.
"Doutrina Donroe"
Anteriormente, Trump indicou que o eixo de sua estratégia está voltado para restringir a entrada de grandes quantidades de drogas e de "gente ruim" em território norte-americano.
Suas declarações e ações serviram para estabelecer um novo termo: "Doutrina Donroe", uma combinação do primeiro nome de Trump e do termo "Doutrina Monroe" — o conjunto de políticas estabelecido em 1823 pelo então presidente James Monroe. O presidente Theodore Roosevelt consolidou essa doutrina por meio de seu corolário de 1904, que justificava a intervenção norte-americana em nações do Hemisfério Ocidental para "manter os europeus afastados".
Durante uma coletiva de imprensa após a intervenção militar norte-americana na Venezuela, Trump declarou que, embora "a Doutrina Monroe seja muito importante", seu governo a havia "superado largamente". "Agora a chamam de 'Doutrina Donroe'", afirmou, acrescentando que "o domínio norte-americano nunca mais será questionado".


