
Analista avalia como relação entre Lula e Alexandre de Moraes impactou resultado do primeiro turno

O jornalista e analista político Thomas Traumann avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofreu desgaste eleitoral pela associação construída entre seu governo e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em análise publicada pelo jornal O Globo nesta terça-feira (6), ele sustenta que a crise envolvendo a Corte se tornou um componente relevante da eleição presidencial.
A preocupação, porém, não teria surgido apenas depois das urnas. A imprensa registrou ainda que setores do próprio governo Lula já identificavam, meses antes da eleição, o risco político da associação entre o presidente e Moraes.
A avaliação interna ganha destaque diante da interpretação de Traumann de que a identificação entre os dois acabou produzindo consequências eleitorais.
A tese já aparecia em análises publicadas pelo jornalista antes da votação. Em setembro, Traumann escreveu textos intitulados "Moraes é Lula. Mendonça é Bolsonaro", "Decisão de Mendonça transforma Moraes em personagem central das eleições" e "O STF pode decidir a eleição".

Crise no Supremo
Na avaliação de Traumann, Lula acabou arcando com parte do desgaste provocado pela crise de credibilidade do STF. O caso ganhou dimensão eleitoral especialmente após as revelações envolvendo Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Durante a campanha, Lula buscou adotar uma posição mais crítica em relação à Corte. Em setembro, afirmou que Moraes, André Mendonça ou qualquer outro ministro deveria responder caso fosse comprovada alguma irregularidade. "Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar. Se o Mendonça é culpado, ele tem que pagar", declarou.
O presidente também afirmou que ninguém pode utilizar um cargo público em benefício pessoal e defendeu mudanças no sistema de Justiça.
Para Traumann, porém, essas tentativas posteriores de estabelecer distância em relação a Moraes não eliminaram os efeitos políticos da associação construída anteriormente.
O analista relaciona esse quadro ao fortalecimento de Flávio Bolsonaro, que chegou ao segundo turno após terminar a primeira etapa da eleição à frente de Lula. Traumann também cita o desempenho do PL no Congresso e as vitórias de candidatos aliados nos estados como sinais do avanço do campo bolsonarista.
Desafio de Lula
O primeiro turno também confirmou a permanência da polarização entre lulismo e bolsonarismo como eixo central da política brasileira, aponta Traumann. Ele avalia que Lula terá de reorganizar a campanha, rever a equipe e aproximar sua comunicação das preocupações cotidianas do eleitor para tentar uma virada.
O cenário também amplia a importância do novo Congresso para o Supremo. O crescimento da direita no Senado pode alterar a correlação de forças na casa responsável pelo julgamento de pedidos de impeachment contra ministros da Corte, enquanto as investigações relacionadas ao Banco Master permanecem no centro da disputa institucional.

