'Qual é o problema da França?': o alerta de um Nobel da Economia

A segunda economia da Europa atravessa sua terceira semana de protestos estudantis violentos e uma crescente pressão financeira. Ao mesmo tempo, os mercados financeiros deixaram de confiar na economia francesa.

A França enfrenta uma possível crise de dívida da qual outros países da União Europeia poderiam acudi-la, escreveu nesta quinta-feira (8) o vencedor do Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman.

No momento, a segunda maior economia da Europa enfrenta suaterceira semana de protestos estudantis violentos e uma pressão financeira crescente. 

O aumento das taxas de juros dos títulos do Governo francês gera o temor de que a França possa dar um calote de sua dívida nacional. Agora, o presidente francês, Emmanuel Macron, sem maioria parlamentar, terá de aprovar um orçamento que convença os investidores da credibilidade da economia do país.

"Qual é o problema da França? O país está numa trajetória fiscal insustentável. A dívida já é muito alta em relação ao PIB, e o governo a aumenta com déficits elevados, sem nenhuma emergência — guerra, recessão grave ou pandemia — que os justifique", escreveu Krugman no Substack. 

Ele também destacou que o envelhecimento da população pode elevar muito os gastos com aposentadorias. A idade oficial de aposentadoria na França é de quase 63 anos; na Dinamarca e na Alemanha, 67.

Krugman afirma que a idade de aposentadoria francesa é "insustentável" e que esta "generosidade" provoca cortes em outras áreas, como a educação. "Na prática, a França dá uma ajuda generosa aos idosos às custas do resto da população", conclui. 

"Grande demais para ser salva"

Os mercados não confiam na economia francesa, e a dependência do euro pode transformar isso numa crise de dívida explosiva, destrutiva para a união europeia, segundo Krugman.

Ele lembra que algo parecido já aconteceu entre 2009 e 2012 na Grécia, Portugal, Espanha e Itália: investidores param de comprar títulos, cresce o medo de calote, o capital foge, os juros sobem e o círculo vicioso se agrava. 

Krugman diz que a crise acabou quando o Banco Central Europeu (BCE) sinalizou que emprestaria, se necessário, o suficiente aos devedores em apuros para evitar o calote. 

"Mas vale perguntar se o BCE poderia ou estaria disposto a resgatar a França da mesma maneira", alertou.

Em 2012, os países do sul da Europa cortaram gastos públicos em massa. A França, porém, caminha na direção oposta à responsabilidade fiscal.

Se continuar aumentando os gastos, Paris enfrentaria oposição política dos países credores. E, sendo a segunda economia da Europa, a ajuda necessária para cobrir o calote seria gigantesca.

"Talvez a França tenha passado de 'grande demais para quebrar' para 'grande demais para ser salva'", afirmou.