Starlink e drones são usados em operações de garimpo ilegal na América Latina, alerta CIDH

A comissão denuncia uso de tecnologias por redes criminosas para coordenar pagamentos, monitorar territórios e ampliar sua atuação em áreas remotas.

Organizações criminosas na América Latina, incluindo o garimpo clandestino, estão utilizando serviços de internet via satélite, como a Starlink, drones e plataformas digitais para apoiar atividades ilegais.

O alerta foi divulgado pela Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA), vinculada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), informou a Associated Press.

Segundo a REDESCA, serviços de internet via satélite, como os oferecidos pela Starlink, de Elon Musk, são utilizados para coordenar pagamentos, logística e deslocamentos em operações de mineração ilegal.

A tecnologia permite a comunicação em regiões remotas que não possuem infraestrutura tradicional de telecomunicações.

A comissão também identificou o uso de drones por grupos armados e organizações criminosas para vigilância e controle territorial em áreas associadas a atividades econômicas ilícitas. Os equipamentos permitem monitorar regiões onde essas organizações atuam.

Um levantamento do Armed Conflict Location & Event Data Project registrou cerca de 670 incidentes envolvendo drones armados na América Latina desde 2018.

Mais de 72% dos episódios ocorreram entre janeiro de 2025 e agosto de 2026. Os números abrangem diferentes formas de violência e não se limitam a crimes ambientais.

A REDESCA também apontou casos documentados de drones sobrevoando comunidades indígenas em meio a disputas relacionadas à exploração ilegal de madeira, além do uso de equipamentos armados para intimidar civis indígenas.

A entidade ressaltou, porém, que nem sempre é possível estabelecer uma ligação direta entre esses episódios e atividades de proteção ambiental.

Mercúrio nas redes

O uso de plataformas digitais também preocupa a comissão. Segundo a REDESCA, promotores identificaram 108 publicações no TikTok anunciando mercúrio destinado ao garimpo ilegal de ouro, que acumularam mais de 5,8 milhões de visualizações. A entidade não informou em qual país ocorreu a investigação.

O mercúrio é um metal tóxico utilizado na extração ilegal de ouro, capaz de contaminar cursos d'água e se acumular em peixes consumidos por comunidades locais.

Diante dos riscos, a REDESCA pediu aos governos maior fiscalização sobre a transferência e o uso de tecnologias, além de investigações sobre sua utilização por organizações criminosas.

O alerta coincide com uma conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o crime organizado transnacional, realizada em Viena, na Áustria, entre 19 e 23 de outubro.

Os governos discutem a possibilidade de iniciar negociações para um acordo internacional de combate a crimes ambientais, como mineração ilegal, exploração irregular de madeira e tráfico de animais silvestres.

A comissão também destacou que imagens de satélite, sistemas de GPS e drones podem ajudar comunidades indígenas a identificar desmatamento e garimpo ilegal, permitindo reunir provas de invasões e reduzir a exposição a grupos armados.

A REDESCA defendeu o apoio governamental a essas iniciativas, sem transferir às comunidades a responsabilidade das autoridades públicas pela proteção de seus territórios.