A cidade de Alyoshki, na margem esquerda do rio Dnieper, na província russa de Kherson (em frente à cidade de Kherson, controlada por tropas ucranianas) passa por uma grave emergência humanitária.
Isolada do fornecimento de bens essenciais e sob fogo diário das tropas ucranianas, a localidade aguarda o início de uma operação humanitária internacional, prevista para começar amanhã, às 4h (horário de Moscou).
A primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, que atuou como intermediária entre Moscou e Kiev para viabilizar um cessar-fogo localizado, descreveu a situação como desesperadora.
"Alyoshki é uma cidade em guerra, na linha de frente, à beira de um desastre. A população que permanece no local é composta, em sua maioria, por idosos que necessitam urgentemente de atendimento médico, medicamentos, alimentos e água potável", ressaltou a primeira-dama.
Um cerco pelo ar
Segundo a comissária dos Direitos Humanos da Federação da Rússia, Yana Lantratova, a crise é resultado de "um bloqueio criado artificialmente pelas Forças Armadas da Ucrânia", informa a TASS.
O Ministério da Defesa russo informou que as forças ucranianas utilizam drones para instalar minas remotamente nas rotas de acesso, com o objetivo de impedir a evacuação de civis e bloquear a entrega de alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais.
De acordo com o ministério, as estradas são alvo de ataques de artilharia e drones há mais de dois anos, mas o bloqueio se tornou total em maio de 2026, quando as ofensivas passaram a impedir a entrada de suprimentos.
Lantratova também denunciou a destruição, em ataques ucranianos, de uma caravana de voluntários cujos veículos traziam a inscrição "Gente".
Kiev "aniquila a população civil"
O embaixador em missão especial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Rodion Miroshnik, classificou as ações ucranianas como uma das "operações terroristas de Kiev".
Segundo ele, as forças ucranianas estão bloqueando o fornecimento de alimentos, medicamentos e outros bens de primeira necessidade a Alyoshki, utilizando drones fornecidos pelo Ocidente e atacando transportes civis que se dirigiam à cidade.
O chefe do distrito municipal, Ruslan Khomenko, afirmou que as forças ucranianas lançam entre 7 e 36 minas por dia. "As pessoas estão morrendo em Alyoshki. O outro lado simplesmente destrói a população civil", declarou.
Às vésperas da trégua humanitária, o governo de Kiev estaria se esforçando para dificultar ao máximo a evacuação da população de Alyoshki.
Segundo dados do Ministério da Defesa russo, nos últimos sete dias, as tropas ucranianas realizaram 18 ataques de artilharia e mais de 120 ataques com drones contra a cidade e suas vias de acesso.
Enquanto isso, engenheiros do agrupamento militar russo Dnieper realizam operações de desminagem e, nos últimos sete dias, desativaram mais de 300 artefatos explosivos e minas-armadilha.
Sobreviver e fugir em meio às minas
Sem eletricidade nem abastecimento externo, os moradores que permanecem na cidade tentam sobreviver com conservas caseiras antigas, enquanto convivem com o zumbido constante dos drones.
"Nem comida, nem água, nem lenha para o inverno... Você vai dormir e fica pensando se amanhã vai comer ou não, porque hoje você não comeu. E amanhã também não come: fazer o quê, azar o seu", relatou à RT um morador que conseguiu escapar.
Como as estradas estão minadas, os poucos suprimentos que chegam precisam ser transportados à mão.
Os moradores que tentam fugir seguem de bicicleta, em carrinhos de mão ou a pé, segundo uma mulher retirada de ambulância junto com um homem que perdeu as duas pernas após a explosão de uma mina enquanto recolhia nozes dentro da cidade.
"As pessoas estão doentes. Estão passando fome", afirmou, em lágrimas, outra idosa evacuada da localidade.
Uma trégua de "vários dias" e a rejeição à evacuação forçada
Para permitir o envio de ajuda à população civil, o chefe do Estado-Maior russo, Valery Gerasimov, anunciou uma trégua temporária a partir de amanhã. A pausa nos combates deverá permitir uma avaliação técnica da área e garantir a passagem segura de um comboio com medicamentos, alimentos e produtos de higiene.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que Moscou "saúda os esforços" de Melania Trump e o trabalho dos defensores dos direitos humanos dos dois países. Segundo ele, a operação deverá durar "pelo menos vários dias".
A missão humanitária foi acordada entre Lantratova e seu homólogo ucraniano, Dmitry Lubinets, mas enfrenta divergências políticas.
Lubinets mencionou a criação de um mecanismo para a "evacuação forçada de famílias com crianças" de Alyoshki, com base na legislação ucraniana.
Em resposta, Lantratova declarou que a cidade é território russo e que apenas as leis da Federação Russa se aplicam no local, defendendo que qualquer saída seja voluntária e livre de pressões políticas.
"Ordenem às suas tropas que parem de bombardear a cidade todos os dias e de minar todas as estradas. Assim, as pessoas poderão decidir se querem permanecer em Alyoshki ou ir para onde desejarem", pediu Lantratova.
Ela afirmou ainda que o lado russo fará todo o possível para garantir a segurança dos moradores e preservar sua liberdade de escolha.