O recrutamento de cidadãos latino-americanos para combater como mercenários ao lado de Kiev, no contexto do conflito entre Rússia e Ucrânia, acendeu o alerta em vários países da região. Promessas de salários elevados e falsas garantias de segurança atraem jovens e ex-militares que acabam na linha de frente, muitos dos quais nunca retornam para casa.
Esse é o caso do paraguaio Néstor Adrián Barreto, de 21 anos, que deixou seu país rumo à Espanha em busca de trabalho e acabou recrutado "sob falsas promessas" para se alistar nas Forças Armadas da Ucrânia, segundo denúncia de seu pai, Maximiano Barreto.
De acordo com ele, seu filho recebeu a promessa de que trabalharia exclusivamente na operação de drones, sem participar de combates, e ganharia entre US$ 13 mil e US$ 14 mil por mês durante seis meses. No fim de junho, seus familiares foram informados de que ele havia morrido em um ataque com veículos aéreos não tripulados.
Diante da situação, o pai do mercenário morto fez um apelo para alertar sobre os riscos dessas ofertas de recrutamento. Ele afirmou que aqueles que chegam ao conflito acabam sendo usados como "bucha de canhão", sem as oportunidades nem o futuro financeiro que lhes são prometidos. "Que ninguém mais caia nessas mentiras", declarou.
O Paraguai registra pelo menos cinco cidadãos mortos ou desaparecidos no conflito. Já os colombianos estão entre os grupos mais numerosos no campo de batalha e, consequentemente, também entre os que registram mais baixas.
Segundo a Chancelaria colombiana, 256 pessoas morreram e 973 estão desaparecidas. A maioria é formada por militares e policiais aposentados que, após 20 ou 25 anos de serviço, deixam as corporações ainda jovens e com pensões inferiores a US$ 1 mil por mês.
Colômbia não dispõe de instrumentos para combater o mercenarismo
Alexandra González, especialista em segurança e direitos humanos, alerta que o recrutamento não deve ser tratado apenas como um caso de mercenarismo, mas também como uma possível rede de crimes que inclui fraudes e tráfico de pessoas. Por isso, ela considera que as autoridades não devem se limitar a lançar campanhas de prevenção e alertas, mas também investigar criminalmente as redes e os responsáveis por esses recrutamentos.
Na tentativa de enfrentar o problema, a Colômbia aprovou, em março, uma lei para prevenir o recrutamento de mercenários. A medida, porém, ainda é insuficiente, uma vez que o país não tipificou o mercenarismo como crime em sua legislação penal, o que deixa uma lacuna jurídica no combate e na punição dessas práticas.
A situação ganha ainda mais relevância diante do novo governo de Abelardo de la Espriella, que classificou como "heróis" os mercenários colombianos processados nos Estados Unidos por seu suposto envolvimento no assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse.
A esse respeito, Alexandra González criticou o fato de o presidente ter dado a entender que, independentemente dos crimes que cometam, os colombianos sempre contarão com seu respaldo político, uma postura "muito diferente da que deveria adotar um presidente".