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Entenda o programa nuclear do Irã

O programa nuclear iraniano teve início na segunda metade dos anos 50 com apoio dos EUA e passou por muitas "idas e vindas" ao longo de sua história.
Entenda o programa nuclear do IrãGettyimages.ru / Morteza Nikoubazl/NurPhoto

Em 1957, o então xá do Irã, Mohamed Reza Pahlavi, firmou com os EUA um acordo de cooperação para o desenvolvimento de pesquisas no campo da energia atômica para fins pacíficos no âmbito do programa "Átomos pela Paz" (do inglês Atoms for Peace) do presidente Dwight Eisenhower.

No ano seguinte, o país se tornou membro da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA).

Em 1968, o Irã tornou-se signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

Em 1974 é fundada a Organização de Energia Atômica do Irã. No mesmo ano, com ajuda dos EUA, o xá aprovou a construção de mais de 20 usinas nucleares até o ano 2000.

Também em cooperação com a França, foi construído um centro de pesquisas atômicas na cidade de Isfahan.

O governo de Teerã assinou em 1975 um acordo com o consórcio alemão Kraftwerk Union AG para a construção do reator da primeira usina nuclear do país na cidade de Bushehr.

No ano seguinte, com o objetivo de proporcionar lucros milionários a empresas norte-americanas, o então presidente dos EUA, Gerald Fordassinou uma diretiva de cooperação com o país persa.

De acordo com o documento, o Irã deveria utilizar plutônio enriquecido produzido nos EUA como combustível para suas centrais nucleares.

O plano de Ford visava suprir as necessidades energéticas do país persa com energia nuclear enquanto que o petróleo seria reservado para exportação e uso na indústria petroquímica.

A Revolução mudou tudo 

A pesquisa atômica, contudo, foi interrompida pela Revolução Iraniana de 1979.

O novo governo suspendeu os projetos das usinas nucleares e expulsou empresas e especialistas estrangeiros do país.

« REVOLUÇÃO IRANIANA DA 1979: DA MONARQUIA ABSOLUTISTA AO PODER REVOLUCIONÁRIO CLERICAL »

Somente em 1981, o Irã retomaria seu programa atômico. 

Os reatores da usina de Bushehr foram constantemente bombardeados entre 1984 e 1988 durante a Guerra Irã-Iraque, período em que o programa nuclear da República Islâmica foi novamente suspenso.

Em 1992, o Irã firmou um acordo de cooperação com a Rússia no campo da energia nuclear. Ainda no mesmo ano, inspetores da AIEA visitaram as instalações do país, atestando o caráter pacífico do programa nuclear persa.

Os EUA decidem impor unilateralmente sanções econômicas à Teerã em 1995, no mesmo ano em que a República Islâmica e a Rússia firmaram um acordo para retomar a construção da usina nuclear de Bushehr.

Crise diplomática

Em 2002, o presidente dos EUA na época, George W. Bushincluiu o país persa no chamado "Eixo do Mal", grupo de nações Washington acusou, sem fundamentação, de serem "apoiadoras do terrorismo".

No ano seguinte, os EUA acusaram Teerã de ter planos de desenvolver armas nucleares. Contudo, no final daquele ano, com a mediação da França, Alemanha, Rússia e Reino Unido, o Irã tornou-se signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e, após inspeção da AIEA, concluiu-se que as instalações nucleares iranianas não estavam sendo utilizadas para fins bélicos.

Em 2004, Hassan Rohani, que na época era o responsável pelas negociações com a AIEA, anunciou que o Irã iria voluntariamente suspender seu programa de enriquecimento de urânio como gesto de boa vontade ao Ocidente, mas o programa foi posteriormente retomado em 2006 pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad.

A fim de conter o suposto desenvolvimento de armas nucleares da República Islâmica, Washington voltou novamente a impor sanções econômicas ao Irã apesar de um relatório da CIA ter descartado a possibilidade de o país persa ser capaz de produzir armas nucleares a médio prazo.

Papel do Brasil 

Em julho de 2009, o presidente Barack Obama encontrou-se com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula do Grupo dos Oito (G8) na cidade italiana de L'Aquila.

Obama pediu a Lula para ajudar na assinatura de um acordo nuclear com o Irã.

Em outubro de 2009, após um intervalo de 15 meses, ocorreu uma rodada de negociações entre o P5+1 (Estados Unidos, China, França, Rússia, Reino Unido mais Alemanha), União Europeia e Irã.

Nas margens desse encontro, foi acordado em que o Irã transferiria a maior parte de seu estoque de urânio enriquecido a baixo nível (LEU) em troca de urânio enriquecido a níveis mais altos de pureza para uso no Reator de Pesquisa de Teerã (TRR), utilizado principalmente para produção de radioisótopos para fins médicos.

Em abril de 2010, o presidente Obama enviou uma carta a Lula descrevendo o mesmo acordo que os EUA tinham buscado sem sucesso em outubro.

Na carta, Obama escreveu: "Para nós, o acordo do Irã em transferir 1.200 kg de urânio enriquecido a baixo nível (LEU) para fora do país construiria confiança e reduziria tensões regionais, reduzindo substancialmente o estoque de LEU do Irã".

No dia 14 de maio de 2010, durante reunião com o presidente russo Dmitry Medvedev em Moscou, Lula declarou estar otimista aos jornalistas, e que tinha "99% de chance" de fechar um acordo(Medvedev estimava apenas 30%). 

Lula convence Irã a aceitar acordo

No dia 17 de maio de 2010, o presidente Lula da Silva e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogananunciaram em Teerã que haviam conseguido o acordo do Irã, sob a "Declaração Conjunta do Irã, Turquia e Brasil".

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Ramin Mehmanparastanunciou que o acordo demonstrava que o Irã não perseguia armas nucleares, "mas sim tecnologia nuclear pacífica". 

Obama sabota o próprio acordo 

Em briefing de fundo de 28 de maio, altos oficiais da administração Obama reconheceram os esforços de Brasil e Turquia, mas observaram que a proposta "não respondeu a preocupações reais sobre o programa nuclear iraniano".

Funcionários de Obama insistiram que Lula e Erdogan ignoravam preocupações críticas que havia apenas em "múltiplas conversas" orais, não na carta, incluindo a necessidade de parar o enriquecimento de urânio a 20% e o fato de que o Irã havia duplicado seu estoque de urânio desde outubro.

Apesar do acordo alcançado por Lula e Erdogan, o Conselho de Segurança da ONU adotou a Resolução 1929, impondo a quinta onda de sanções contra o Irã.

Brasil e Turquia, como membros não-permanentes do Conselho de Segurança, votaram contra a resolução.

O ministro das Relações Exteriores brasileiro Celso Amorim posteriormente declarou em entrevista ao Financial Times que o Brasil havia gasto muito capital político defendendo o programa nuclear iraniano e que o Brasil não atuaria mais como mediador proativo na questão nuclear iraniana.

Estaria o Irã visando desenvolver armas nucleares?

Em 2011, a AIEA publicou um relatório alegando que o Irã já possuía a tecnologia necessária para a construção de uma bomba nuclear, o que fora confirmado por Washington.

Em resposta à possível ameaça iraniana, um novo pacote de sanções foi elaborado pelo Conselho de Segurança da ONU, tendo como alvo entidades financeiras iranianas tais como o banco central do país, bem como a imposição de um embargo dos EUA e da UE ao petróleo oriundo da nação persa.

Em 2012, a AIEA anunciou ter avançado na resolução da questão nuclear iraniana, em que, à princípio, seria acordada uma inspeção ao complexo de Parchin, onde supostamente estariam sendo realizados experimentos nucleares.

Em 2013, o chamado Grupo 5+1, composto pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos) mais a Alemanha, conseguiu assinar um acordo provisório com o Irã em Genebra, na Suíça.

documento estipulava o congelamento das atividades científicas iranianas que mais causavam apreensão à comunidade internacional (sobretudo o enriquecimento de urânio a 20%) em troca de uma suspensão parcial das sanções.

Acordo nuclear alcançado 

Em 2015 foi firmado entre o Irã e os membros do Grupo 5+1 junto com a União Europeia o chamado Plano de Ação Conjunto Abrangente (Joint Comprehensive Plan of Action - JCPoA), também conhecido como "acordo nuclear do Irã", que limitava o programa nuclear iraniano em troca de um alívio das sanções contra o país.

Trump sabota o acordo 

Em 2018, o governo Trump anunciou a retirada dos EUA do Plano de Ação Conjunto Abrangente e restomou as sanções econômicas, acusando o Irã de violar os termos do acordo ao desenvolver um programa de mísseis balísticos e apoiar grupos considerados terroristas pelo ocidente.

Irã proíbe inspeções 

Em 2020, o parlamento iraniano aprovou a lei de "Ações estratégicas para suspender as sanções e proteger os direitos da nação", proibindo inspetores da ONU de entrarem nas instalações nucleares do país e ordenando a retomada do programa de enriquecimento de urânio a 20% caso as sanções contra Teerã não fossem aliviadas dentro de um período de dois meses.

A lei foi aprovada em resposta ao assassinato do físico nuclear Mohsen Fakhrizadeh em 27 de novembro de 2020, que o Irã atribui ao serviço de inteligência de Israel.

Situação atual

O Irã tem mantido conversações com os outros países-membros do Grupo 5+1 e com a IAEA desde abril de 2021 a fim de restaurar o acordo nuclear em seu formato original, contudo sem sucesso até o momento.

Em 20 de dezembro de 2022, a Casa Branca anunciou que retiraria o restabelecimento do acordo nuclear iraniano de sua agenda sem qualquer previsão de retomá-lo no futuro próximo.

Em outubro de 2024, no âmbito da cúpula dos BRICS realizada em Kazan, na Rússia, a declaração final dos países-membros reiterou que o acordo nuclear iraniano deveria ser retomado por todas as partes.

Porém, durante 2025, a situação se deteriorou significativamente. Em março de 2025, a IAEA reportou que o Irã aumentou substancialmente seu estoque de urânio enriquecido, com os estoques de urânio enriquecido a 60% aumentando de 182 kg em outubro de 2024 para 275 kg em fevereiro de 2025. 

Irã é bombardeado 

Em junho de 2025, os EUA e Israel fizeram ataques aéreos contra instalações nucleares iranianas, e a IAEA retirou seus inspetores do país. 

As hostilidades voltaram a desencadear a partir de 28 de fevereiro de 2026.

O Irã afirmou, através de seu Ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi em 15 de março de 2026, que seu urânio enriquecido encontra-se "sob os escombros" criados pelos ataques de junho de 2025, sem planos de recuperar esse material.

Apesar das incertezas geradas pelos ataques, um desenvolvimento diplomático significativo ocorreu em junho de 2026, quando os EUA e o Irã assinaram um Memorando de Entendimento comprometendo-se a "negociar e alcançar" um acordo que abrange a programação nuclear do Irã e as sanções dos EUA e da ONU, dentro de um período "máximo de 60 dias extensível com consentimento mútuo". 

O programa nuclear iraniano foi abordado no documento, mas sem muita clareza, sendo deixado para discutir depois, com o Irã somente se comprometendo a não desenvolver armas nucleares.

Um dos maiores pontos de discordância foi a exigência dos EUA em confiscar o urânio do Irã, enquanto a República Islâmica seguia classificando as exigências do lado americano como "inaceitáveis". 

O memorando não resolveu esse impasse. 

No início de julho, os ataques foram retomados por parte dos EUA por suposta violação do memorando por lado do Irã.  A resposta do Irã seguiu logo com ataques contra os países-aliados dos EUA no Oriente Médio.