
Peter Thiel pede que bilionários abandonem campanha de doação de riqueza

Signatários da campanha filantrópica "Giving Pledge", lançada por bilionários como Warren Buffett, Bill e Melinda Gates, para incentivar indivíduos a doarem mais da metade de suas fortunas, estão deixando o projeto. Um dos responsáveis por esse abandono é Peter Thiel, fundador do PayPal, como reporta o The New York Times.
"A maioria com quem conversei ao menos expressou arrependimento por ter assinado", afirmou Thiel, crítico frequente de Bill Gates, acrescentando que falou com cerca de uma dúzia de pessoas para que saíssem do "Giving Pledge".
Thiel argumenta que o dinheiro seria destinado a "organizações sem fins lucrativos de esquerda escolhidas por Bill Gates".
Além dele, outros classificam a filantropia como mera estratégia de relações públicas. Elon Musk, por exemplo, afirmou que seus negócios "são filantropia".

O escândalo envolvendo Jeffrey Epstein e sua relação com Bill Gates, que culminou no divórcio do empresário em 2021, também influenciou outros bilionários a deixarem a iniciativa.
Influência
Em entrevista ao The New York Times, Thiel afirmou que sair da iniciativa é "muito perigoso". Isso porque "as pessoas se sentem como se estivessem sendo chantageadas" a permanecer na lista pública de signatários.
"Pode haver muitas maneiras de desfazer [o compromisso] sem uma grande declaração pública", acrescentou. Já John Arnold, um dos primeiros signatários, avaliou que houve ao longo do tempo uma "reação negativa contra muitas doações beneficentes".
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, também classificou a iniciativa como "bem-intencionada", mas "muito amorfa".
A campanha
Em maio de 2010, os bilionários Warren Buffett, Bill Gates e sua então esposa Melinda French lançaram o "Giving Pledge" ["Compromisso de Doação"], uma campanha filantrópica que convidava outros magnatas a doar mais da metade de suas fortunas para causas sem fins lucrativos.
"Em apenas alguns meses fizemos um bom progresso", afirmou Buffett em dezembro de 2010. Dias depois, eles visitaram o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na Casa Branca para impulsionar a iniciativa, que contava com apoio tanto de democratas quanto de republicanos, informou o The New York Times.
O "Giving Pledge" chegou a ter mais de 250 signatários. Os primeiros faziam parte do círculo próximo a Buffett e ao casal Gates, enquanto atualmente estão principalmente no exterior ou têm perfil mais discreto.
Após o sucesso inicial, o número de adesões caiu ao longo do tempo. Nos primeiros cinco anos, 113 pessoas aderiram à iniciativa; nos cinco seguintes, foram 72; e no lustro seguinte, 43, incluindo quatro em 2024. Em 2015, houve 14 novos signatários.
O apoio político também se reverteu, já que a iniciativa não conta com o respaldo do presidente Donald Trump, e alguns bilionários passaram a direcionar doações para outros fins, como investimentos nas eleições dos EUA.
Quanto ao volume das doações, Melinda French afirmou em entrevista em dezembro passado que alguns contribuíram em "grande escala". "Mas doaram o suficiente? Não. Alguns estão fazendo isso, outros tentam ou ainda não estão prontos", disse.
Posição do setor tecnológico
Nos últimos anos, magnatas do setor de tecnologia passaram a criticar o modelo tradicional de filantropia. "Isso apaga todos os seus pecados. Reclassifica você de um tipo de magnata empresarial suspeito para um filantropo virtuoso", afirmou em 2024 o empresário e investidor Marc Andreessen, que não aderiu à iniciativa.
Ele também criticou a ideologia "woke" em iniciativas sem fins lucrativos, afirmando que ela coloca a população contra o setor tecnológico e os milionários.
Alguns representantes do setor, no entanto, não compartilham dessa visão. "Me entristece que muitas pessoas ricas, especialmente na indústria de tecnologia, tenham adotado recentemente uma atitude cínica e niilista de que a filantropia é inevitavelmente fraudulenta ou inútil", afirmou Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic.
Diante desse cenário, e enquanto se mantém o impulso dos fundadores da iniciativa — Buffett, Gates e French —, Taryn Jensen, que atualmente dirige o "Giving Pledge", declarou: "Nos primeiros anos, o 'Giving Pledge' ajudou a construir normas onde poucas existiam. Nosso objetivo é continuar construindo uma cultura em que doar seja a norma e oferecer o apoio necessário para transformar o compromisso em ação".


