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O que Rússia denunciava desde 2022, EUA investigam agora — 120 laboratórios na Ucrânia sob suspeita

Após anos de alertas russos ignorados, os EUA agora investigam biolaboratórios localizados no exterior que realizam pesquisas secretas com patógenos e armas biológicas, enquanto que o governo Biden negava sua existência.
O que Rússia denunciava desde 2022, EUA investigam agora — 120 laboratórios na Ucrânia sob suspeitaGettyimages.ru / Britta Pedersen/picture alliance

Os Estados Unidos irão investigar mais de 120 laboratórios biológicos no exterior financiados pelo país, incluindo aqueles localizados na Ucrânia, cuja existência foi categoricamente negada pelo governo do ex-presidente Joe Biden.

A diretora de Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, informou na segunda-feira (11) em comunicado ao The New York Post que sua equipe vai "identificar onde estão esses laboratórios, quais patógenos eles contêm e que tipo de 'pesquisa' está sendo conduzida para pôr fim à perigosa pesquisa de mudança genética que ameaça a saúde e o bem-estar do povo americano e do mundo".

Citando fontes do Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA, o veículo de comunicação destaca que mais de 40 dos biolaboratórios sob análise estão localizados na Ucrânia, onde poderiam "correr o risco de serem comprometidos" no contexto do conflito militar com a Rússia.

A investigação americana ocorre após anos de alertas da Rússia sobre atividades ilícitas em laboratórios ucranianos financiados por países da OTAN. Desde 2022, Moscou tem apresentado provas dessas atividades em diferentes plataformas internacionais, inclusive na ONU. No entanto, nem os EUA, nem a Ucrânia, nem outras partes envolvidas responderam aos apelos russos para investigar o funcionamento desses biolaboratórios.

Alertas da Rússia

A Rússia tentou chamar a atenção da comunidade internacional para essa questão em diversas ocasiões, alertando sobre a existência na Ucrânia dos seguintes projetos:

  • Projeto UP-4: cujo objetivo seria investigar a possibilidade de transmissão de infecções particularmente perigosas por meio de aves migratórias
  • Projeto P-781: investigava o uso de morcegos como agentes de armas biológicas

As Forças Armadas da Rússia também obtiveram acesso a documentos que confirmam inúmeros casos de envio de amostras biológicas de cidadãos ucranianos para o exterior. "Com grande probabilidade, podemos afirmar que uma das tarefas dos EUA e de seus aliados é a criação de bioagentes capazes de afetar seletivamente diferentes grupos étnicos", indicou o tenente-general Igor Kirilov, ex-chefe das Tropas de Defesa Radiológica, Química e Biológica das Forças Armadas da Rússia.

O representante permanente da Rússia junto à ONU, Vassily Nebenzia, destacou já em 2022 que os projetos de pesquisa biológica desenvolvidos ao longo de anos em diversos laboratórios ucranianos em conjunto com os Estados Unidos violam a Convenção sobre Armas Biológicas. Segundo o diplomata, os documentos capturados durante a operação militar russa na Ucrânia são apenas a "ponta do iceberg".

A Rússia não recebeu nenhuma explicação sobre a atividade dos laboratórios biológicos americanos em território ucraniano, declarou há três anos o vice-ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Riabkov.

O que exatamente está sob investigação?

O ponto de partida dessa investigação, segundo explicou Gabbard ao New York Post, não foi uma acusação genérica, mas sim uma revisão com objetivos concretos:

  • Identificar onde estão os laboratórios financiados com recursos americanos;
  • Determinar quais patógenos eles possuem;
  • Esclarecer quais "pesquisas" estão sendo conduzidas com eles;
  • Encerrar as perigosas pesquisas de ganho de função (alteração genética induzida para intensificar determinada função biológica de um microrganismo), que ameaça a saúde e o bem-estar do povo americano e do mundo.

Qual seria a dimensão da rede de laboratórios?

Segundo Gabbard, os mais de 120 laboratórios financiados pelos EUA estão localizados em mais de 30 países.

Vários deles teriam recebido recursos por meio de um programa do Departamento de Defesa dos EUA do período pós-Guerra Fria voltado para a eliminação de armas de destruição em massa ou a redução desse tipo de risco.

O caso da Ucrânia

A presença de 40 dos laboratórios citados na Ucrânia representa um peso singular para o caso, especialmente porque o governo americano negou publicamente qualquer relação com instalações biológicas no país do leste europeu.

Em março de 2022, a então subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, confirmou perante o Congresso americano que a Ucrânia possui instalações de pesquisa biológica, mas, posteriormente, o governo Biden negou a existência de "laboratórios químicos ou biológicos de propriedade ou operados pelos Estados Unidos" no país eslavo, classificando as afirmações anteriores como propaganda chinesa e russa.

Supervisão deficiente e cadeia de financiamento secreta

As atividades dos biolaboratórios investigados fazem parte do Programa de Redução Cooperativa de Ameaças do Departamento de Defesa dos EUA. O programa oficialmente estudaria patógenos para prevenir surtos perigosos no futuro e aumentar a biossegurança do país.

No entanto, os críticos desse programa denunciam a supervisão falha do financiamento dessas pesquisas e a falta de transparência decorrente da forma como o dinheiro circula — que muitas vezes passa por agências americanas antes de chegar aos beneficiários finais.

Essa estrutura, por si só, dificulta que os americanos possam saber com certeza quais experimentos estão sendo financiados, onde são realizados, com quais patógenos e sob quais regras de controle.

Funcionários do escritório de Tulsi Gabbard destacaram que os ensaios clínicos conduzidos nesses biolaboratórios suscitam "importantes preocupações éticas, financeiras e de segurança".