O Banco Digimais, de propriedade do bispo Edir Macedo, utilizou fundos de investimento dos quais é cotista para omitir centenas de milhões em créditos inadimplentes de suas demonstrações financeiras, revelaram documentos obtidos pelo jornal Estadão e publicados nesta segunda-feira (18).
A instituição, que não possui agências nem opera com Pix, atua principalmente no financiamento de veículos usados, operando com juros elevados e níveis altíssimos de inadimplência em carteiras vendidas a fundos de investimento.
Ao fim do ano passado, o Digimais declarou lucros de R$ 31 milhões ao fim de 2025, mas deixou de contabilizar ao menos R$ 480 milhões em créditos vencidos que deveriam reduzir seus resultados.
A manobra teria sido executada por meio de transações, na prática, entre o próprio banco, nos dois lados das negociações. Os fundos nos quais o Digimais tem cotas permitiriam que o banco comprasse seus próprios créditos, mantivesse sua propriedade indireta e fabricasse resultados contábeis artificialmente.
Inadimplência em fundos
Parte das carteiras da instituição foi transferida para fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), que passaram a concentrar parte relevante dos riscos.
O Fundo Tabor, que recebe investimentos do Digimais, tinha R$ 960 milhões em carteiras em abril de 2026, sendo R$ 575 milhões deste valor registrados como inadimplentes (59,9%) e mais de R$ 200 milhões em atraso superior a dois anos.
Enquanto somente o fundo Tabor registrava R$ 479 milhões em inadimplência em dezembro de 2025, o balanço do Digimais no mesmo período reportou somente R$ 366 milhões em créditos vencidos na carteira de veículos.
Fundo e negociação
Outro ativo associado ao grupo é o fundo Hermon, ligado a uma disputa judicial envolvendo indenização da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia, encampada na década de 1940 durante a criação da Vale.
A holding ligada a Edir Macedo adquiriu R$ 741 milhões em cotas do fundo, que estima receber cerca de R$ 2,2 bilhões em uma ação ainda sem definição final na Justiça. Uma auditoria independente identificou irregularidades na venda, destacando que a operação não previu remuneração compatível com sua natureza econômica.
Adicionalmente, R$ 3 bilhões em fundos não puderam ser auditados pela ausência de documentação, valor equivalente a 75% dos investimentos do banco nessa modalidade.
"Riscos elevados"
Em dezembro de 2025, o banco apareceu entre as instituições com uma das maiores taxas de juros do país, segundo o Banco Central do Brasil: 2,97% ao mês e 41,07% ao ano.
O foco em veículos mais antigos e clientes com maior risco de crédito é apontado como um dos fatores que explicam o custo elevado das operações.
Em 2021, o financiamento de veículos representava 94% das operações de crédito do banco. Com a venda de carteiras a fundos, essa participação recuou para cerca de 52%, segundo balanços enviados ao regulador.
Nos últimos meses, o BTG Pactual passou a negociar uma possível aquisição do Digimais. A instituição afirma que o processo ainda está em fase preliminar e depende de condições e aprovação regulatória.