
Segundo Ormuz: Poderoso trunfo do Irã caso volte a ser atacado

Diante da intenção de Donald Trump de retomar os ataques contra o Irã, as partes se preparam cada vez mais intensamente para uma nova escalada.
Especialistas alertam que a próxima rodada do conflito poderá ser muito mais dura do que a anterior e ter consequências muito mais graves para a economia mundial.
Nesse contexto, em Teerã, insinua-se com maior frequência a existência de novos instrumentos de pressão, capazes de custar muito caro aos iniciadores de uma possível agressão. Trata-se dos cabos submarinos de fibra óptica que atravessam o golfo Pérsico e fornecem à região acesso à rede global.
Três passos práticos
A ideia de utilizar infraestrutura submarina como ferramenta de pressão foi levantada, pela primeira vez, no início de maio em uma publicação da agência estatal iraniana Tasnim.

O veículo propôs "três passos práticos" para obter receitas com essa infraestrutura: em primeiro lugar, cobrar direitos de licença das empresas estrangeiras pelo uso dos cabos submarinos; em segundo lugar, exigir que as gigantes da tecnologia (menciona Meta*, Google, Amazon e Microsoft) "operem de acordo com as leis da República Islâmica do Irã", o que provavelmente implica a criação de empresas conjuntas; e, em terceiro lugar, monopolizar o reparo e a manutenção desses cabos submarinos.
A Tasnim citou o exemplo do Egito que, segundo informou, gera entre 250 e 400 milhões de dólares por ano mediante a cobrança de tarifas pelo uso desse tipo de cabeamento.

Que consequências isso teria?
Os cabos submarinos são a base da economia digital moderna. Por meio deles circula a maior parte do tráfego mundial da Internet, das operações bancárias, das transações do mercado de ações, das comunicações militares e do funcionamento dos serviços em nuvem.
Em Teerã, a importância dessa infraestrutura é altamente valorizada. A publicação da Tasnim destaca que, por meio dos cabos que passam pelo estreito de Ormuz, circulam diariamente transações financeiras superiores a 10 trilhões de dólares. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação iranianos reclamam que o país permaneceu à margem por muito tempo do controle dessa infraestrutura e das receitas associadas a ela.
Como destaca a CNN, apesar das tentativas das empresas ocidentais de evitar as águas territoriais iranianas ao traçar as rotas, alguns cabos importantes, como o Falcon e o Gulf Bridge International, passam por elas. É justamente isso que transforma a situação em um grave fator de risco em caso de uma nova escalada.
Irã responde às ameaças
Diante das declarações cada vez mais duras de Donald Trump sobre a possibilidade de retomar as ações militares, Teerã começou a insinuar abertamente que considera a infraestrutura de cabos como uma possível ferramenta de pressão.
"Imporemos taxas aos cabos de Internet", declarou o porta-voz militar iraniano Ebrahim Zolfaghari no X na semana passada.
Especialistas sustentam que, caso a escalada seja retomada, esses cabos poderão se transformar em um instrumento da República Islâmica. "Teerã está analisando cada vez mais a possibilidade de cortar as principais redes de cabos submarinos de fibra óptica que percorrem o golfo Pérsico, artérias pelas quais flui a maior parte do tráfego de internet do Conselho de Cooperação do Golfo, incluindo transações financeiras no valor de bilhões de dólares. As autoridades iranianas veem isso cada vez mais como um segundo Estreito de Ormuz em potencial: um novo e poderoso ponto de influência capaz de perturbar a economia global em enorme escala", opina Trita Parsi, vice-presidente executivo do Instituto Quincy para Governança Responsável.
Catástrofe digital
Embora o Irã não ameace abertamente atacar a infraestrutura submarina, ele dispõe dos meios necessários para realizar esse tipo de operação — desde mergulhadores de combate até drones subaquáticos e pequenos submersíveis —, afirma Alan Mauldin, diretor de pesquisa da TeleGeography, uma empresa de pesquisa em telecomunicações, acrescentando que qualquer ataque poderia desencadear uma "catástrofe digital" em cadeia, afetando vários continentes.
A conexão à Internet e os sistemas bancários dos países do Golfo Pérsico poderiam ser ameaçados. O especialista aponta que o Estreito de Ormuz é um corredor digital fundamental entre centros de dados asiáticos, como Singapura, e algumas estações de aterrissagem de cabos na Europa. Além disso, qualquer interrupção poderia desacelerar as operações financeiras e as transações transfronteiriças entre a Europa e a Ásia, enquanto algumas áreas da África Oriental poderiam sofrer cortes de Internet.
O dano poderia ser muito maior caso os houthis iemenitas tomassem uma medida semelhante e atacassem outros cabos no Mar Vermelho. Em 2024, três cabos submarinos foram cortados quando um navio que havia colidido com os houthis arrastou sua âncora pelo leito marinho ao afundar, interrompendo quase 25% do tráfego de Internet na região.

Uma medida justa
O subdiretor e responsável pela Área de Geopolítica e Anti-imperialismo da Revista La Comuna, Pablo García Varela, afirmou à RT que é justo que o Irã aproveite os cabos submarinos como parte de sua estratégia para se defender da agressão de Washington.
"O que o Irã está fazendo é utilizar todas as cartas que tem à mão para se defender dessa agressão. E a carta de utilizar a cobrança sobre os cabos submarinos é uma carta bastante inteligente e, além disso, acredito que bastante justa", indicou.
O especialista destacou que a imprensa ocidental falará da injustiça de tal medida; no entanto, afirmou que as gigantes tecnológicas se beneficiam dessa infraestrutura em águas iranianas sem pagar absolutamente nada.
*Classificada na Rússia como organização extremista, cujas redes sociais estão proibidas em seu território.


