
Como a 'Suíça do Oriente Médio' se tornou alvo de Trump

As ameaças de Donald Trump e de seu governo contra Omã, um aliado histórico dos EUA, colocaram o país — conhecido como a "Suíça do Oriente Médio" — no centro das atenções geopolíticas, informou a CNBC em publicação nesta sexta-feira (29), citando analistas da área.
Localizado na costa sudeste da Península Arábica, em frente ao Irã, do outro lado do estratégico Estreito de Ormuz, o sultanato tem desempenhado um papel fundamental como mediador em crises regionais, incluindo a agressão lançada por Washington e Tel Aviv contra a República Islâmica.
Ameaças dos EUA contra Omã
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, advertiu na quinta-feira (29) que Washington imporá sanções "enérgicas" a Mascate caso ajude o Irã a estabelecer um sistema de pedágio no Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial.
Especificamente, ele ameaçou que os EUA "perseguirão com firmeza qualquer ator envolvido — direta ou indiretamente — na facilitação de pedágios no estreito, e qualquer parceiro disposto a colaborar será sancionado".

As declarações foram feitas menos de 24 horas depois de Trump aparentemente ameaçar com uma ação militar o aliado do Golfo. Ao ser questionado por um jornalista durante uma reunião de gabinete sobre a supervisão conjunta do comércio na estratégica rota marítima por Mascate e Teerã, o presidente respondeu:
"Omã vai se comportar como todos os outros, ou teremos de fazê-los explodir. Eles entendem. Vai ficar tudo bem."

O Irã indicou que poderia administrar o Estreito de Ormuz em conjunto com Omã, embora o país árabe não tenha demonstrado interesse em controlar um dos pontos estratégicos mais importantes do mundo para o transporte de petróleo.
"Um mediador que dialoga com todas as partes"
Analistas geopolíticos afirmaram que as ameaças dos Estados Unidos contra seu parceiro econômico e de segurança representam uma mudança de postura extremamente incomum.
Brian Katulis, pesquisador sênior do Middle East Institute, centro de estudos sediado em Washington, destacou que Omã desempenha um papel importante no Estreito de Ormuz devido à sua localização geográfica, na costa ocidental da via marítima, e mantém há décadas uma política de defesa da livre circulação de petróleo e outras mercadorias.
"Também é considerado a 'Suíça do Oriente Médio': um mediador que dialoga com todas as partes e busca manter relações positivas com todos os países", afirmou.
"As ameaças de Trump contra Omã são um sinal de sua frustração e desespero diante da incapacidade de obter os resultados que esperava no Irã", acrescentou. Segundo ele, trata-se de "mais um exemplo de sua diplomacia performática e do uso de táticas de pressão que provavelmente não passarão de meras palavras".
"Mais um sinal de por que esta guerra saiu do controle"
Por sua vez, Mehran Haghirian, diretor de pesquisa e programas da Fundação Bourse & Bazaar, afirmou que a advertência de Trump contra Omã foi a primeira vez que Washington ameaçou atacar um Estado-membro do Conselho de Cooperação do Golfo.
"Isso ocorreu em resposta a uma pergunta sobre relatos recentes que sugerem que Irã e Omã estão desenvolvendo um novo mecanismo no Estreito de Ormuz, sem pedágios, mas com um 'controle' compartilhado. O controle é algo que Irã e Omã manterão para sempre graças à sua localização geográfica", explicou.
Ele acrescentou que a declaração do presidente dos EUA "provavelmente não foi intencional e se deve ao seu desprezo pelo ministro das Relações Exteriores de Omã após a mediação de Al Busaidi em fevereiro".
"De qualquer forma, o Conselho de Cooperação do Golfo deverá emitir declarações para condenar as palavras de Trump", opinou.

O senador democrata Chris Murphy criticou duramente o presidente. "A ameaça de 'fazer explodir' Omã, aliado dos Estados Unidos e intermediário-chave nas negociações com o Irã, é mais um sinal de por que esta guerra saiu do controle. Eles vivem em estado constante de pânico, cometendo erro após erro", escreveu na quinta-feira (29) nas redes sociais.
"Normalização da anarquia e da intimidação nas relações internacionais"
Autoridades da República Islâmica destacaram que Omã "sempre desempenhou um papel construtivo, eficaz e responsável na paz e na segurança regionais e, durante muitos anos, dedicou seus nobres esforços ao serviço da paz e da estabilidade regional como mediador em processos diplomáticos".
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que a ameaça de "destruir" um país-membro das Nações Unidas "não apenas constitui uma violação do princípio fundamental da proibição da ameaça do uso da força, mas também é mais um sinal perigoso da normalização da anarquia e da intimidação nas relações internacionais".
Baghaei expressou solidariedade a Mascate, mediador-chave no conflito, após as "ameaças de autoridades americanas".


