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As quatro grandes dúvidas da Europa antes de abrir diálogo com Moscou

Após anos apostando na estratégia de isolamento, a Europa começa a considerar a via do diálogo com a Rússia. O problema é que ainda não existe consenso sobre as questões mais básicas desse eventual processo.
As quatro grandes dúvidas da Europa antes de abrir diálogo com Moscou

Na Europa, cresce o debate sobre a possibilidade de iniciar negociações com a Rússia e de nomear um mediador especial para essas conversas. No entanto, segundo especialistas, qualquer processo de negociação exigirá que os países europeus alcancem rapidamente um consenso sobre várias questões-chave.

A pergunta que, à primeira vista, parece mais simples — "para que negociar com a Rússia?" — já divide as elites europeias, segundo o cientista político Gevorg Mirzayan. Para ele, "a União Europeia precisa negociar porque sua estratégia atual de impor uma derrota estratégica à Rússia mostrou-se inviável".

No entanto, dentro do bloco há grupos para os quais as conversas não representam a busca de uma solução, mas sim a capitulação política da linha adotada anteriormente.

Entre eles estão os países bálticos, que ampliaram sua influência na agenda europeia no contexto do conflito com a Rússia. Também encontra-se parte da burocracia europeia, que não está disposta a sentar-se à mesa sem garantias de um acordo favorável, já que o simples fato de negociar significaria o fracasso de sua política.

"Portanto, quanto à questão do 'para quê', ainda não há consenso. E menos ainda quando, em relação ao 'sobre o quê', não há qualquer avanço nem motivo para otimismo", acrescentou o analista.

O fim do conflito na Ucrânia, o futuro dos territórios disputados e a arquitetura da segurança pan-europeia são interpretados de maneira completamente diferente por Moscou e por Bruxelas, e não há sinais de aproximação nesse sentido.

Quem e quando?

A questão do "quem" também é relevante: quem, exatamente, pode representar a Europa em eventuais negociações com a Rússia.

Durante uma coletiva de imprensa realizada em 9 de maio, Vladimir Putin abordou pela primeira vez em público a questão de um possível mediador para um futuro diálogo entre a Rússia e a Europa.

"Que os europeus escolham um líder em quem confiem e que não tenha dito disparates sobre nós", destacou o presidente russo. "Pessoalmente, prefiro o ex-chanceler da República Federal da Alemanha, o senhor [Gerhard] Schroeder", afirmou ao responder a uma pergunta sobre o tema.

Em seguida, teve início o habitual ciclo de debates na UE sem que fosse alcançada uma decisão definitiva. Nomes como a ex-chanceler alemã Angela Merkel, o ex-primeiro-ministro italiano Mario Draghi, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, o ex-presidente finlandês Sauli Niinisto e o ex-presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker surgiram como possíveis candidatos ao cargo de negociador, reportou o portal Político.

O presidente da Finlândia,Alexander Stubb, também manifestou publicamente o desejo de representar a região. Mas tampouco há consenso nesse ponto: na Europa, qualquer nome se transforma automaticamente em um indicador político, e figuras consideradas aceitáveis por Moscou, como Angela Merkel, são imediatamente classificadas como excessivamente pró-Rússia.

"Por fim, na Europa nem sequer existe consenso sobre quando iniciar o processo de negociação. Parece que não há nada de complicado nisso: o tempo não joga a favor da Europa e o diálogo deveria começar o quanto antes, antes que russos e americanos cheguem a um acordo e antes que a economia europeia entre em colapso total", afirmou Mirzayan.

No entanto, ele lembra que entre os países escandinavos e bálticos prevalece a ideia de que é necessário primeiro pressionar Moscou antes de iniciar as conversas.

Tudo isso ocorre — continua o especialista — com o objetivo de que a Rússia "se intimide diante do poder europeu" e se sente à mesa de negociações na condição de suplicante, além de aceitar a versão europeia do "para quê", a visão de Bruxelas sobre o "sobre o quê" e sua escolha para o "quem".

"No entanto, a experiência mostra que é improvável que Moscou reaja dessa forma à pressão europeia. É muito mais provável uma escalada provocada pela Rússia, seguida de um colapso da Europa. Nesse caso, será Bruxelas que se verá obrigada a sentar-se à mesa de negociações na condição de suplicante", concluiu o especialista.