Jogadores de Pokémon Go contribuíram, sem saber, para o treinamento de um sistema de navegação visual hoje associado a drones, robôs militares e outros equipamentos de defesa nos Estados Unidos. A apuração é do jornal neerlandês Trouw.
Segundo a publicação, usuários do jogo fizeram, ao longo dos anos, scans de ruas, prédios, árvores e outros elementos urbanos em troca de recompensas dentro da plataforma. Esses registros passaram a integrar o acervo da Niantic Spatial, empresa formada a partir da desenvolvedora original de Pokémon Go.
Quase 30 bilhões de scans feitos por centenas de milhões de usuários estão hoje sob controle da empresa. O material foi usado para treinar um modelo 3D capaz de permitir navegação precisa quando o sinal de GPS não está disponível.
O caso ganhou nova dimensão após a Niantic Spatial e a empresa norte-americana Vantor anunciarem, no fim de 2025, uma cooperação para uso da tecnologia em drones e robôs militares. A Vantor atua com inteligência espacial para setores como defesa.
Coleta de dados e uso militar
Em resposta ao Trouw, a Vantor negou que vá usar diretamente dados de Pokémon Go. A empresa, no entanto, não esclareceu se o modelo que pretende empregar foi treinado com esses dados.
Para Jeroen van den Hoven, professor de ética e tecnologia da Universidade Técnica de Delft, os jogadores contribuíram de forma indireta para aplicações militares.
"Sem a grande quantidade de scans de todos esses jogadores, o desenvolvimento deste sistema nunca teria avançado tão rapidamente", afirmou o professor ao jornal.
Segundo ele, em modelos de IA, os dados originais passam por processos de treinamento e enriquecimento que tornam difícil identificar, depois, quais partes específicas vieram de cada fonte.
A Niantic Spatial também não detalhou ao Trouw qual foi o papel dos dados de Pokémon Go no sistema que será utilizado pela Vantor. Em resposta anterior sobre outra parceria, com a Coco Robotics, a empresa afirmou que os scans do jogo foram usados para treinar uma versão inicial do modelo.
A companhia declarou ainda que os jogadores aceitaram voluntariamente os termos de uso e que trabalha para que seus produtos sejam empregados de modo responsável, com respeito aos direitos humanos e a princípios éticos.
Questionada sobre a cooperação com a Vantor, a Niantic Spatial disse não ter novas informações a compartilhar.
"Quem pensava que estava participando de um jogo foi claramente enganado. As empresas não usam necessariamente nossos dados para melhorar nossas vidas, por exemplo, aprimorando a educação. O objetivo é ganhar dinheiro. Se conseguirem vender um conjunto de dados ou um modelo de IA por um bom preço, elas o farão", explicou Van Den Hoven.
Navegação sem GPS
O sistema desenvolvido pela Niantic Spatial é baseado em VPS, sigla em inglês para sistema de posicionamento visual. A tecnologia permite determinar a localização de um dispositivo por meio de câmera, sem depender de satélites. Segundo o Trouw, poucos pontos visuais reconhecíveis podem bastar para indicar a posição de um usuário, drone ou robô.
Esse tipo de navegação é considerado útil em locais onde o sinal de GPS é instável ou sofre interferência. A Vantor citou campos de batalha modernos como exemplo de ambientes em que a tecnologia pode ser aplicada. Em lugares em situação de conflito, a interferência em sinais de satélite é uma prática usada para desorientar drones.
A empresa norte-americana afirmou que pretende aplicar o sistema em drones militares, veículos, óculos de realidade aumentada e outros equipamentos de campo.
Floris De Hingh, jogador neerlandês de Pokémon Go citado pela reportagem, disse que não imaginava que imagens feitas durante o jogo poderiam treinar sistemas usados por drones militares. "Primeiro você pensa que está jogando um jogo, e de repente seus dados podem ser usados em uma guerra", afirmou ao Trouw.
Segundo a especialista em ética de dados da Data School da Universidade de Utrecht, Iris Muis, usuários comuns não conseguem prever como seus dados poderão ser usados no futuro. Para ela, uma aplicação tecnológica criada anos depois pode gerar efeitos com os quais o usuário não concordaria.
O Trouw relata que alguns jogadores chegaram a fazer scans em ambientes internos, inclusive dentro de apartamentos.