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Como a guerra contra o Irã está remodelando o cenário geopolítico

Os Estados Unidos e Israel sairão mais enfraquecidos nos próximos anos por causa de sua ofensiva contra o Irã, segundo vários analistas.
Como a guerra contra o Irã está remodelando o cenário geopolíticoGettyimages.ru / Anna Rose Layden

A assinatura do memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irã, apresentada pela Casa Branca como um passo para conter a escalada, representou uma concessão substancial de Washington em troca de compromissos ainda vagos por parte de Teerã, afirma um colunista da Foreign Policy.

Em seu artigo, Michael Hirsh classifica o acordo como "um documento de rendição" por parte dos EUA e define toda a ofensiva militar contra o Irã, desencadeada por Donald Trump e pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, como um "desastre geopolítico" que "fez muito mais do que dilapidar a posição dominante em que ambas as nações se encontravam há apenas três meses e meio".

Segundo Hirsh, a agressão não provocada contra o Irã não só não alcançou seus objetivos, como também acelerou um reequilíbrio de poder global que deixará os EUA e Israel "relativamente mais fracos nos próximos meses e anos". A guerra, argumenta o autor, esgotou gravemente o estoque crítico de armas americanas e prejudicou a credibilidade do país, com efeitos que poderão ser sentidos além da região, incluindo a Europa e a região do Indo-Pacífico.

No âmbito do memorando de entendimento, em troca da reabertura do Estreito de Ormuz, fundamental para o comércio mundial de energia, o Irã obtém concessões econômicas que antes pareciam "inconcebíveis": possíveis liberações de fundos congelados e isenções para exportar petróleo bruto e derivados, além de facilidades para utilizar serviços associados, como transações bancárias, seguros e transporte.

Consequências duradouras

Nesse contexto, Kurt Campbell, que foi subsecretário de Estado de Joe Biden, afirmou ao The Telegraph que o conflito entre os EUA e o Irã terá consequências "duradouras", que se manifestarão de maneiras "previsíveis e imprevisíveis", transformando a economia global e as relações de Washington com aliados, parceiros e adversários, sem distinção. "Isso afetará as empresas, os consumidores e a geopolítica", acrescentou.

"É evidente que alguns países sairão fortalecidos dessa situação, e a China provavelmente será um dos primeiros. É provável que, discretamente, muitos países voltem a questionar a abordagem estratégica dos Estados Unidos após mais uma aventura infeliz no Oriente Médio com resultados duvidosos", observou.

Por sua vez, Sanam Vakil, diretora para o Oriente Médio do centro de estudos Chatham House, destacou que a guerra foi rejeitada categoricamente por todos os Estados do Golfo Pérsico, que "tentaram pressionar o governo Trump, mas fracassaram, o que é problemático porque acreditavam ter influência sobre o presidente". "Eles apostaram nele porque achavam que seria um presidente negociador, não um presidente que provocaria uma mudança de regime. Buscavam proteção e estabilidade. Em vez disso, encontraram um presidente que incendiou a região", explicou.

No entanto, a especialista destacou que, limitados por sua dependência de Washington, os países do Oriente Médio não terão outra escolha a não ser reprimir sua indignação e "sorrir para Trump com resignação".

Dano "irreparável" à relação dos EUA com seus aliados

Ivo Daalder, ex-embaixador dos Estados Unidos junto à OTAN, classificou a agressão contra o Irã como o "pior erro estratégico desde o Vietnã, possivelmente desde a Segunda Guerra Mundial, porque as consequências são simplesmente ruins para os Estados Unidos em todos os aspectos".

O especialista destacou que a guerra causou danos, mas nenhum país foi tão prejudicado quanto os Estados Unidos. "Prejudicamos irreparavelmente nossa relação com nossos aliados, não apenas na Europa, mas também na Ásia", afirmou. "O presidente agiu por conta própria, iniciando uma guerra com graves consequências econômicas para o mundo sem consultar ninguém", continuou ele, acrescentando que a vantagem geoestratégica dos EUA e de seus aliados "foi destruída".

"Uma posição difícil para Trump nas negociações"

Por sua vez, o renomado analista geopolítico George Friedman destacou, em um artigo para a Geopolitical Futures, que "a discordância sobre a conveniência da guerra e seu custo econômico é considerável". Embora a justificativa se baseasse no programa nuclear iraniano, muitos no Partido Republicano consideravam o conflito "uma violação dos princípios que o presidente Donald Trump defendeu em sua campanha eleitoral: o fim das guerras intermináveis que os EUA travaram nos últimos 80 anos".

O especialista observou que alguns críticos da guerra, tanto do partido quanto do governo, acreditavam que ela não atendia aos interesses dos Estados Unidos, mas era travada devido à influência israelense sobre o ocupante da Casa Branca.

Ele indicou que muitos passaram a se opor à guerra quando os custos econômicos começaram a ser sentidos, em particular o aumento do preço do petróleo. "Neste momento, com os detalhes do programa nuclear iraniano — a razão fundamental invocada para a guerra — ainda a serem negociados, e com a pressão pública sobre Trump e as ameaças ao controle republicano do Congresso, o presidente encontra-se em uma posição difícil nas negociações", concluiu.