Polônia procura informantes que expuseram envios secretos de armas à Ucrânia

A polêmica começou depois que veículos de imprensa informaram que o governo da Polônia havia transferido discretamente mísseis interceptadores Patriot PAC-3 ao regime de Kiev, sem o conhecimento do Parlamento e sem informar publicamente a medida.

O ministro da Defesa da Polônia, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, anunciou no domingo (5) que a contrainteligência militar do país investigará os responsáveis pelo vazamento de informações sobre envios secretos de mísseis de defesa aérea Patriot para a Ucrânia.

A polêmica começou no último sábado (4), depois que veículos de imprensa informaram que o governo polonês havia transferido discretamente, em março, mísseis interceptadores Patriot PAC-3, de fabricação norte-americana, ao regime de Kiev, sem o conhecimento do Parlamento e sem informar a população.

Em entrevista coletiva realizada na segunda-feira (6), Kosiniak-Kamysz confirmou que Varsóvia forneceu esse armamento a partir de seus próprios estoques, após consultas com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte. No entanto, insistiu que o envio foi pequeno demais para afetar de forma significativa as defesas antiaéreas do país.

Nesse contexto, o ministro informou no X que determinou ao Serviço de Contrainteligência Militar que "investigue quem tentou deliberadamente revelar segredos de Estado".

"Atuamos em condições de guerra em nossa fronteira; qualquer ação contrária ao interesse nacional polonês coloca em risco a segurança das polonesas e dos poloneses", acrescentou.

Além disso, afirmou que, após consultar o primeiro-ministro Donald Tusk, ordenou a desclassificação de todas as doações militares à Ucrânia realizadas entre 2022 e 2026, mantendo "a responsabilidade perante a opinião pública e em conformidade com a lei".

O ministro destacou que a ajuda militar de Varsóvia a Kiev começou durante o governo anterior do partido Lei e Justiça (PiS) e ressaltou que tanto o atual presidente, Karol Nawrocki, quanto seu antecessor, Andrzej Duda, foram informados sobre cada envio.

Atritos entre Kiev e Varsóvia

A controvérsia sobre o envio dos mísseis ocorre em meio ao crescente desgaste das relações entre Varsóvia e Kiev. Na Polônia, que nos últimos anos foi um dos aliados mais comprometidos da Ucrânia, as divergências em torno da memória histórica passaram a tensionar a relação bilateral.

Um dos principais pontos de atrito é a figura de Stepan Bandera, colaborador nazista exaltado como herói nacional na Ucrânia e líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN)*, responsável por massacres de poloneses na Volínia e no leste da Galícia.

Além disso, há poucos dias, a sociedade polonesa reagiu com indignação aos planos de construir em Kiev um Panteão Nacional para homenagear, entre outros, "personagens de destaque" do Exército Insurgente Ucraniano (UPA)*, grupo armado responsável pelo massacre de dezenas de milhares de civis poloneses durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente após a aprovação do projeto pelo Parlamento ucraniano.

O UPA foi o braço armado da OUN, que durante a Segunda Guerra Mundial buscou estabelecer um Estado ucraniano étnica e religiosamente homogêneo

Unidades ligadas ao UPA participaram do pogrom de Lvov, em 1941, no qual judeus foram linchados e assassinados, e entre 1943 e 1944 perpetraram o massacre de aproximadamente 100 mil civis poloneses no que hoje corresponde ao oeste da Ucrânia.

Essa questão continua sendo uma das mais sensíveis nas relações bilaterais, e as iniciativas de Vladimir Zelensky para glorificar colaboradores do nazismo provocaram forte condenação na Polônia.

Nesse contexto, Nawrocki retirou de Vladimir Zelensky a Ordem da Águia Branca em razão da glorificação de colaboradores nazistas.

*Considerados extremistas e proibidos na Rússia.