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Do contrato ao front: mercenários brasileiros relatam armadilhas após chegar à Ucrânia

Depois da propaganda em redes sociais, familiares e sobreviventes relatam assinatura sem tradutor, retenção de passaportes e envio a posições de combate.
Do contrato ao front: mercenários brasileiros relatam armadilhas após chegar à UcrâniaRT

A chegada de brasileiros à Ucrânia marca o início de uma etapa menos visível do recrutamento estrangeiro. Depois dos vídeos em português, dos formulários on-line e das promessas de salários em dólar, o candidato passa a depender de documentos em idioma que não domina, de uma cadeia de comando militar que não dialoga sobre as possibilidades de atuação e de regras contratuais que limitam a saída.

O site de recrutamento informa que o processo inclui entrevista on-line, orientação de deslocamento, recepção na fronteira, checagem, exame médico, abertura de conta bancária, definição de unidade, treinamento e envio à unidade militar.

O FAQ afirma que estrangeiros podem indicar preferência de função, que não há limitação formal de cargos e que o papel será definido conforme habilidades e desempenho.

O documento também diz que, em troca do compromisso militar, as forças ucranianas assumem obrigações como salário, benefícios, treinamento e outras garantias.

Na descrição feita por familiares de brasileiros, porém, o contrato aparece como ponto de pressão. O caso de Gabriel Pereira, de 21 anos, que morreu em combate, expõe essa diferença.

Segundo o irmão, Gustavo Alves Ferreira, Gabriel chegou à Ucrânia após ser atraído por promessas de "salário de até 25 mil reais, seguro de vida e ajuda de custo", mas assinou documentos sem tradutor oficial.

"Esses documentos estão na língua ucraniana. Os meninos estavam me contando, me falando, eles chegam lá, pegam o celular mesmo para traduzir. Eles abrem a câmera, pegam o tradutor do celular para traduzir os termos do contrato", afirmou Gustavo Alves Ferreira.

Assinatura sem compreensão plena

A família de Gabriel avalia que a condição do estrangeiro no momento da assinatura agravava a dependência: ele já havia saído do Brasil, cruzado a Europa por conta própria e chegado a um país em conflito.

A possibilidade de desistência, segundo Gustavo Alves Ferreira, quase não existia na prática.

"Mesmo que ele se arrependa, chegando lá, ele não tem o que fazer. Ele não tem como voltar, ele não tem emprego. Ele vai ter que assinar o contrato se ele quiser comer", relatou.

A frase mais direta do irmão resume o momento em que a promessa de oportunidade se transforma em obrigação. "A facilidade é chegar lá e assinar o contrato. Depois que você assinou o contrato, a vida é nua", disse.

O contrato citado nos materiais do Ministério da Defesa da Ucrânia tem duração de três anos para soldados rasos. Durante a lei marcial, a saída por vontade própria só pode ocorrer após seis meses de serviço contínuo, segundo o guia. O mesmo material informa que o militar deve continuar cumprindo suas funções até ordem de desligamento emitida pelo comandante.

Essa regra cria uma diferença entre o alistamento apresentado como ato voluntário e a permanência descrita pelas famílias. Na prática, o estrangeiro chega por conta própria, assina sob barreira de idioma e, depois, passa a depender de autorização da estrutura militar para se desligar.

Documentos retidos e deslocamento sem escolha

Os relatos reunidos por familiares apontam retenção de documentos. Gustavo Alves Ferreira afirmou ter recebido informações de brasileiros sobre passaportes e pertences mantidos pela administração militar. 

O irmão de Gabriel também descreveu deslocamentos para posições de combate sem informação suficiente aos estrangeiros.

"Eles pegam, retêm os documentos, a administração do grupo pega as coisas deles, coloca dentro de um carro, joga eles dentro de um carro e fala assim: 'vai pra posição'. E nem conta qual é a posição que eles estão indo", relatou. 

A ausência de poder de recusa aparece em outro relato transmitido por Gustavo, a partir de informações de combatentes que sobreviveram e conseguiram contato com parentes no Brasil. "Eles estão sendo obrigados a ir para as posições. Eles não podem não aceitar", disse.

Nos relatos de brasileiros, a escolha inicial não impede o envio a posições de risco nem a mudança de função.

No caso de Gabriel, o irmão diz que ele foi para um centro de treinamento perto de Kiev, junto com brasileiros, colombianos e um angolano. Depois, teria sido deslocado à linha de frente, em região de combate, sem a estrutura prometida nos materiais de recrutamento, onde faleceu.

Da promessa de drones ao fuzil

A propaganda do regime de Kiev apresenta oportunidades em áreas técnicas, como drones, artilharia e guerra eletrônica. O caso de Lucas Felype mostra como essa promessa pode se desfazer depois da chegada ao país. Ele afirmou nas redes sociais que aceitou atuar com tecnologia militar, mas passou a ser direcionado para a infantaria.

A denúncia de Lucas foi publicada enquanto ele ainda tentava explicar a situação. "Eles estão colocando uma arma na minha mão e me levando pra uma zona de guerra sem o meu consentimento. Isso nunca foi o combinado", disse. 

Em outro vídeo, ele detalhou a mudança de rota. "Essa sempre foi a minha intenção, ajudar, mas de forma técnica. Mas desde que cheguei aqui, tudo mudou. Eles estão me empurrando aos poucos para funções de infantaria e agora me mandaram para Kharkov, uma região de intenso combate militar".

Lucas afirmou que superiores diziam se tratar de treinamento, mas relatou não acreditar mais nessa versão. Segundo material divulgado pelo jornalista Renato Souza, em postagens feitas antes de o perfil sair do ar era possível ouvir disparos e explosões ao fundo.

Gabriel Pereira também teria sido apresentado a uma estrutura diferente daquela que encontrou. Segundo o irmão, ele não operava drones nem exercia função técnica quando foi enviado à posição.

"O meu irmão estava nessa primeira linha", afirmou Gustavo Alves Ferreira. 

"Ele não estava operando drone, não estava em funções técnicas. Ele estava com fuzil, segurando posição, com outros dois soldados. [...] Isso não é missão, é suicídio", disse.

Estrangeiros em posições de risco

Os relatos sobre Gabriel apontam uma divisão entre estrangeiros e ucranianos na linha de frente. Para Gustavo Alves Ferreira, brasileiros, colombianos e africanos eram usados em posições de maior exposição. "Os ucranianos não vão", explicou.

A explicação ouvida entre combatentes, segundo ele, era que os estrangeiros eram enviados "para servir de colete para o ucraniano".

A denúncia também foi feita pela familiar de Gustavo Viana Lemos, brasileiro de 31 anos que morreu em meados de julho de 2025 junto com Gabriel Pereira e um soldado colombiano, segundo a família.

Maria, parente de Gustavo Viana Lemos, afirmou que os brasileiros eram posicionados em locais de contenção. "Eles botam os brasileiros em um lugar mais perigoso, e depois que falece, demora para avisar os familiares".

Gabriel, segundo o irmão, começou em tarefas de apoio. "Ele trabalhava em função de levar e trazer suprimentos. Ele levava água, buscava coisa, levava medicamento" e depois foi para a infantaria de impacto. 

A permanência de Gabriel no front, conforme o relato da família, ocorreu mesmo com lesão e a fratura de um dos braços.

"Ele estava com o braço quebrado [...] Foi obrigado a permanecer na posição ferido. [...] Tem prova disso, é vídeo", explicou o irmão. 

O que o contrato promete

O guia do Ministério da Defesa da Ucrânia informa que o estrangeiro deve cumprir ordens, seguir a Constituição e as leis ucranianas e preservar sigilo.

Em contrapartida, o Ministério se compromete a garantir direitos, treinamento, saúde, alimentação, compensação financeira, uniforme, equipamento, armas, munição e outras garantias.

A página de recrutamento também promete equipamento básico, incluindo uniforme, arma, colete, capacete e botas. O FAQ informa que, durante a checagem antes da assinatura do contrato, o candidato vive e se alimenta às custas da parte anfitriã.

Após o contrato, o período de treinamento de cerca de um mês e meio e a adaptação de duas semanas são pagos em US$ 650 (cerca de R$ 3,3 mil).

Depois da formação, segundo o FAQ, o contrato de infantaria de assalto prevê US$ 215 por dia em posição de combate (cerca de R$ 1,1 mil), US$ 435 por dia em combate de baixa intensidade ou reconhecimento (aproximadamente R$ 2,2 mil), US$ 870 por dia em operações de assalto (cerca de R$ 4,5 mil) e salário base mensal de US$ 435 (aproximadamente R$ 2,2 mil). A média seria de US$ 6.520 (aproximadamente R$ 33,6 mil), com máximo de US$ 10 mil (cerca de R$ 51,6 mil).

A estrutura documental, no entanto, não impediu que famílias relatassem falta de comida, água, gás, equipamento e apoio.

No caso de Gustavo Viana Lemos, a parente Maria afirmou que ele precisava comprar itens de sobrevivência e pedir dinheiro.

"Eles que tinham que comprar comida, gás, eles tinham que comprar tudo... eu acho que daí faltava dinheiro e aí eles tinham que pedir [dinheiro], aí eles pediam para os outros soldados lá, pediam para os familiares", explicou.

O irmão de Gabriel descreveu dinâmica semelhante. "O dinheiro que ele ganha lá ele gasta lá mesmo. Comida, uniforme, equipamentos, transporte. A economia gira dentro do país. Ele não teve condição de mandar um centavo pra casa", relatou.

  • A primeira reportagem desta série mostrou a vitrine de recrutamento, com vídeos em português, promessas de salário e vagas técnicas. Esta segunda mostra o caminho entre chegada, contrato e front. A terceira trata das mortes, dos corpos, das famílias e da classificação de brasileiros como desaparecidos.