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Em audiência nos EUA, setor produtivo se distancia de fala política de Flávio Bolsonaro

Senador e pré-candidato à Presidência criticou o governo Lula, o STF e suposta corrupção antes de representantes empresariais defenderem negociação bilateral.
Em audiência nos EUA, setor produtivo se distancia de fala política de Flávio BolsonaroMarina Uezima

Representantes do setor produtivo brasileiro se distanciaram da fala política do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, durante audiência pública nos Estados Unidos sobre novas tarifas contra produtos do Brasil.

Enquanto o senador abordou temas como governo Lula, Supremo Tribunal Federal, corrupção, mensalão, Lava Jato, INSS, Banco Master e Partido dos Trabalhadores, entidades empresariais concentraram suas manifestações nos efeitos econômicos da medida.

A audiência teve início na terça-feira (7), na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Washington, no âmbito da investigação da Seção 301 da legislação comercial norte-americana.

O procedimento é conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, USTR, e trata de práticas atribuídas ao Brasil em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

A proposta em discussão prevê uma sobretaxa de 25% sobre bens brasileiros, com exceções para alguns produtos. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI) a medida pode se somar a outras cobranças em análise e elevar a tarifa sobre mais de 4 mil produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos para até 37,5%.

De acordo com a CNI, 4.187 produtos brasileiros, que somam US$ 14,9 bilhões em exportações, estão sob risco de aumento tarifário. A entidade afirma que 62% desses itens são bens intermediários, usados como insumos em processos produtivos.

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Falas em sentidos diferentes

Flávio foi o primeiro expositor do painel 8 da audiência. Ele se apresentou como líder da oposição e afirmou que havia se reunido no mês anterior com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, J.D. Vance e Marco Rubio para pedir que Washington não impusesse tarifas a empresas brasileiras.

Na exposição, Flávio disse que tarifas já aplicadas teriam sido exploradas pelo governo brasileiro no debate político, afirmou que o comércio do Brasil com a China havia alcançado US$ 171 bilhões em 2025 e sustentou que novas tarifas fortaleceriam o governo que os Estados Unidos pretendiam pressionar.

O senador também defendeu o PIX, sistema de pagamento instantâneo citado na investigação norte-americana. Ele afirmou que o PIX foi criado durante o governo Jair Bolsonaro, o que não corresponde à realidade, e defendeu o sistema de pagamentos instantâneos, classificando-o como "uma solução".

  • O desenvolvimento do PIX foi idealizado ainda em 2014, durante o governo Dilma Rousseff e começou de fato no Banco Central em 2016, durante o governo de Michel Temer, com diretrizes definidas em 2018. O sistema foi lançado, então, em novembro de 2020, já na gestão Bolsonaro.

Indústria defende negociação

Roberto Azevedo, representante da CNI e ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, afirmou que uma tarifa uniforme de 25% sobre quase todos os produtos brasileiros não atenderia aos requisitos de proporcionalidade da Seção 301, porque atingiria itens sem relação com as práticas investigadas.

Azevedo também disse que os Estados Unidos não têm déficit com o Brasil, mas superávit de US$ 41,8 bilhões em bens e serviços em 2025, mesmo argumento utilizado pelo presidente Lula. Ele defendeu que as preocupações de Washington fossem tratadas por canais bilaterais.

Representantes do setor calçadista também direcionaram suas falas aos efeitos da proposta. Pela Abicalçados, Letícia Sperb Masselli afirmou que os Estados Unidos são destino histórico das exportações brasileiras de calçados e que o Brasil é o quinto maior produtor mundial do setor e o maior fora da Ásia.

Pela Footwear Distributors & Retailers of America, FDRA, Matt Priest disse que novas tarifas sobre empresas americanas que compram do Brasil seriam a abordagem errada e elevariam custos para consumidores nos Estados Unidos.

Peter Grueterich, da Bernardo Footwear, afirmou que tarifas amplas sobre calçados produzidos no Brasil prejudicariam empresas americanas, trabalhadores dos EUA e consumidores.