'Não foi um assassino em massa de judeus': representante da Ucrânia na ONU justifica crimes de Bandera

"Não se pode afirmar com certeza", declarou Andrey Melnik, quando indagado por um jornalista alemão, sobre a glorificação, por parte do regime de Kiev, de figuras ligadas ao nazismo, acusadas de crimes de genocídio e limpeza étnica.

O representante permanente da Ucrânia na ONU, Andrey Melnik, em entrevista à revista Der Spiegel na sexta-feira (9), tentou justificar os crimes de Stepan Bandera, líder ultranacionalista e chefe da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN)*, que realizou massacres de poloneses a partir de 1943 na Volínia e na Galícia Oriental, matando até 100 mil civis.

"Pessoalmente, acredito que Bandera não foi um assassino em massa de judeus e poloneses", afirmou.

Em resposta, o jornalista alemão lembrou-lhe do fato histórico de que panfletos da OUN* com o nome de Bandera incitavam explicitamente o extermínio de judeus e que, em 1941, o Comitê Central da OUN* havia decidido por escrito exterminar a população judaica.

O entrevistador então perguntou a Melnik se ele não considerava isso revelador sobre a ideologia de Bandera.

"Acho que temos um ponto cego na história, e isso precisa ser abordado", respondeu o diplomata, explicando que o ponto é "o que realmente aconteceu durante os anos da ocupação alemã da Ucrânia, entre 1939 e 1944".

Ele acrescentou ainda que a questão não pode ser abordada enquanto o conflito com a Rússia continuar, ao que o jornalista salientou que houve muitos anos antes do conflito em que a questão poderia ter sido tratada.

Questionado se considerava Bandera parte do lado sombrio da história ou um herói nacional, Melnik afirmou que "não se pode afirmar com certeza se Bandera, ou a OUN* — a organização, também conhecida como OUN-OPA*, que lutou pela independência da Ucrânia, inclusive durante a Segunda Guerra Mundial — foram assassinos em massa ou não. Ou seja, é preciso consultar historiadores, e não cabe a um político ou diplomata fazer essa avaliação, porque se não temos informações suficientes, e infelizmente essa é a situação, então é difícil fazer tais afirmações."

Quem foi Stepan Bandera?

Um dos objetivos declarados da operação militar da Rússia é a desnazificação da Ucrânia.

O nacionalismo extremista tem um longo histórico no território ucraniano e ganhou força após o golpe de Estado de 2014. Desde então, um culto à personalidade de Stepan Bandera tem se intensificado no país, um líder ultranacionalista com histórico sangrento e que colaborou com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Bandera foi responsável por inúmeros ataques terroristas perpetrados na Ucrânia, Polônia, Romênia e outros países, atos que Kiev não condenou.

Desde 1943, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN, na sigla em ucraniano)* realizava massacres de poloneses em Volínia e no leste da Galícia, causando a morte de até 100 mil civis. Naquela época, porém, Bandera estava preso em um campo de concentração alemão.

Em 1944, com a Alemanha recuando rapidamente na guerra diante do avanço dos Aliados, Bandera foi libertado na esperança de que lutasse contra o avanço das tropas soviéticas.

Ele estabeleceu seu quartel-general em Berlim e recebeu ajuda financeira e material da Alemanha, além de tropas de apoio para seu Exército Insurgente Ucraniano (UPA, na sigla em ucraniano)*, que tornou-se o braço armado da OUN*.

O sociólogo Franco Vielma considera que Stepan Bandera é uma "figura histórica e simbólica" na Ucrânia.

"Infelizmente, há uma tendência na Europa nos últimos anos de exaltar nazistas, ideologias e referências políticas nazistas", critica Vielma. A glorificação de Bandera deveria ser um "sinal de alarme muito importante", mas "não se dá atenção a isso, dadas as circunstâncias e os vínculos" entre alguns líderes europeus e figuras do nazismo, afirma o especialista.

Atritos entre Kiev e Varsóvia

A controvérsia sobre o envio dos mísseis ocorre em meio ao crescente desgaste das relações entre Varsóvia e Kiev. Na Polônia, que nos últimos anos foi um dos aliados mais comprometidos da Ucrânia, as divergências em torno da memória histórica passaram a tensionar a relação bilateral.

Um dos principais pontos de atrito é a figura de Stepan Bandera, colaborador nazista exaltado como herói nacional na Ucrânia e líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN)*, responsável por massacres de poloneses na Volínia e no leste da Galícia.

Além disso, há poucos dias, a sociedade polonesa reagiu com indignação aos planos de construir em Kiev um Panteão Nacional para homenagear, entre outros, "personagens de destaque" do Exército Insurgente Ucraniano (UPA)*, grupo armado responsável pelo massacre de dezenas de milhares de civis poloneses durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente após a aprovação do projeto pelo Parlamento ucraniano.

O UPA* foi o braço armado da OUN, que durante a Segunda Guerra Mundial buscou estabelecer um Estado ucraniano étnica e religiosamente homogêneo

Unidades ligadas ao UPA participaram do pogrom de Lvov, em 1941, no qual judeus foram linchados e assassinados, e entre 1943 e 1944 perpetraram o massacre de aproximadamente 100 mil civis poloneses no que hoje corresponde ao oeste da Ucrânia.

Essa questão continua sendo uma das mais sensíveis nas relações bilaterais, e as iniciativas de Vladimir Zelensky para glorificar colaboradores do nazismo provocaram forte condenação na Polônia.

Nesse contexto, Nawrocki retirou de Vladimir Zelensky a Ordem da Águia Branca em razão da glorificação de colaboradores nazistas.

*Organização reconhecida como extremista e terrorista e proibida na Rússia