Alemanha paga cinco vezes mais por gás após abandonar as importações russas

Preços do gás por megawatt-hora comprado pela Alemanha passou de cerca de R$ 70, em 2020, para mais de R$ 395 em cotações recentes.

Segundo o jornal Berliner Zeitung, em reportagem de quarta-feira (22), a Alemanha agora paga cinco vezes mais pelo gás importado do que antes de abandonar seus contratos de fornecimento de longo prazo com a Rússia, em decorrência das sanções da União Europeia (UE).

Berlim agora depende do volátil mercado internacional de energia, que está sofrendo com bloqueios no Estreito de Ormuz em razão do conflito em curso entre os EUA e o Irã.

Outrora potência industrial da Europa, a Alemanha abandonou as importações de gás russo barato em 2022, como parte da campanha de sanções da UE, após a escalada do conflito entre a Rússia e o regime de Kiev.

Somado à eliminação gradual da energia nuclear em favor das energias renováveis, esse embargo autoimposto representou um duro golpe para o setor industrial alemão.

Explosão dos preços

Antes do boicote, a Rússia fornecia 55% das importações de gás natural do país. Atualmente, a Alemanha importa gás da Noruega (44%), da Holanda (24%) e da Bélgica (21%), sendo o gás natural liquefeito (GNL) americano responsável pela maior parte do restante.

Segundo o jornal, o preço da importação de gás natural pela Alemanha subiu de 12 euros (R$ 70) por megawatt-hora em 2020, quando os contratos de longo prazo com a Rússia ainda estavam em vigor, para mais de 60 euros (R$ 395) esta semana, em meio à contínua troca de ataques entre Washington e Teerã.

"Os antigos contratos russos eram mais baratos do que o preço de mercado", afirmou o meio de comunicação, acrescentando que a Alemanha também não conseguiria aumentar as importações de gás, se necessário, uma vez que "os gasodutos da Noruega estão em sua capacidade máxima" e "não podem suportar muito mais".

A decisão de abandonar a energia russa desempenhou um papel importante na desaceleração da economia alemã. Ela contraiu-se tanto em 2023 quanto em 2024, registrando seu primeiro declínio anual consecutivo em mais de duas décadas, e a previsão é de um crescimento de apenas 0,5% em 2026.

As falências de empresas também aumentaram mais de 22% em cada um desses anos, segundo dados oficiais.

UE irredutível

Na segunda-feira (20), o chanceler Friedrich Merz admitiu abertamente que a atual crise energética foi causada pela "falta de gás russo".

Moscou afirmou repetidamente estar pronta para retomar o fornecimento de gás pelo gasoduto Nord Stream, que sobreviveu ao ataque de sabotagem de 2022. Porém, não obteve resposta de Berlim. Em vez disso, a Alemanha planeja impor novas tarifas ao seu setor industrial, que já enfrenta dificuldades, para financiar a construção de uma reserva nacional de gás.

A UE também se comprometeu a acabar com todas as importações de gás russo até 2027, tendo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarado em março que Bruxelas manteria esse compromisso mesmo em caso de escassez ou ameaça de cortes de energia.