Em menos de um ano, uma organização que sobrevivia à margem da política americana passou a ditar o ritmo das prévias democratas. Desde a eleição de Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York, em novembro de 2025, os Socialistas Democráticos da América (DSA) acumularam vitórias que ninguém no partido previa — e que agora ameaçam redesenhar a disputa pelo Congresso em novembro.
Ao final de junho, candidatos apadrinhados por Mamdani varreram as primárias nova-iorquinas. Claire Valdez, Brad Lander e Darializa Avila Chevalier derrubaram nomes firmados na elite do partido, entre eles dois parlamentares em exercício.
Os triunfos de candidatos agora se estendem às primárias de estados como Pensilvânia e cidades como Washington e Seattle, abrindo as portas para que candidaturas denominadas socialistas conquistem legislaturas e prefeituras de estados eleitoralmente determinantes nos EUA.
Emblemático é o caso da advogada e imigrante etíope Melat Kiros, de 29 anos, que tirou do páreo Diana DeGette, deputada eleita 15 vezes consecutivas no Colorado desde 1997.
A sequência de vitórias representa uma das maiores demonstrações de poder político da esquerda nos Estados Unidos.
O salto não é simplesmente simbólico ou limitado a candidaturas, expandindo também às bases de filiados. De cerca de 24 mil filiados em 2017, o grupo chegou a mais de 120 mil no 4 de julho deste ano, tornando-se a maior organização socialista da história americana — superando o Partido Socialista de Eugene Debs, que atingiu 113.371 membros pagantes em 1912.
Metade deste total se inscreveu após o fim de 2024, no contexto de protestos contra genocídio palestino de Israel em Gaza a universidades de todo o país e da reeleição do presidente Donald Trump.
Bandeiras programáticas
Em julho, o DSA lançou seu programa, "Workers Deserve More" [do inglês, "Trabalhadores Merecem Mais"], que declara um projeto de transferência de poder econômico e político das corporações para a classe trabalhadora.
Dentre suas pautas principais, o texto defende democracia multipartidária, controle de aluguéis, fim dos colégios eleitorais, abolição da Imigração e Controle de Alfândega (ICE), jornada de trabalho de 32 horas semanais, saúde e educação gratuitas.
Avançando de maneira ainda mais provocativa contra pontos tradicionais e estruturantes de consenso partidário, porém, propostas mais explosivas incluem extinguir o Senado e as prisões, submeter a presidência e Suprema Corte ao Congresso e encerrar a ajuda americana a Israel.
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Ashik Siddique, co-presidente nacional da organização e filho de imigrantes muçulmanos de Bangladesh, defendeu as mudanças institucionais. "Não vemos sentido no Senado. Historicamente, foi criado para servir pessoas muito ricas que possuíam muitas terras — e ainda é esse o sistema que temos hoje".
Reação entrincheirada
A reação do Partido Republicano se mostrou efusiva frente à clara defesa de pautas à esquerda da tradição democrata.
"Bárbaros estão dentro dos portões", clamou o presidente da Câmara, Mike Johnson, alertando que "o comunismo não é mais ameaça distante". Similar e mais notoriamente, o presidente Donald Trump, no âmbito dos 250 anos da independência americana, apontou que o comunismo é "uma ameaça maior que as duas guerras mundiais" e um "câncer" incompatível com os valores do país.
O incômodo maior, porém, veio das alas tradicionais do próprio Partido Democrata. O ex-presidente do comitê nacional democrata Jaime Harrison pediu que "quem detesta o partido que pare de usar sua estrutura para se eleger".
Um clamor de interseccionalidade ganhou voz na posição de Al Sharpton, bispo batista, apresentador de TV e ativista do movimento negro, que promoveu ao jornal The New York Times uma cobrança ao DSA de atenção ao recorte racial da crise de custo de vida, e não só ao de classe. O líder democrata do Brooklyn, Donovan Richards, acusou o DSA de "supremacia branca" em debate nas redes sociais, comentário que estampou a capa do jornal conservador New York Post e circulou amplamente entre críticos da organização.
O deputado Tom Suozzi, de Nova York, passou a encabeçar a oposição organizada à prefeitura e influência de Mamdani, liderando o manifesto "Promise to America" [do inglês, "Promessa aos EUA"].
"Somos capitalistas, não socialistas", lê-se em um dos pontos centrais do documento, que enumera questões como prosperidade econômica, responsabilidade fiscal e patriotismo como eixos centrais de sua resposta ao DSA. Em sua rejeição declarada a "falsas escolhas entre extremos de esquerda e direita", o movimento se apresenta como uma solução coesa de "discordância sem divisão" em um cenário político de dita polarização tribal.
Desafio à ortodoxia
A disputa interna do partido Democrata não se esgota necessariamente nas candidaturas ou endossos do DSA; antes disso, reflete uma tendência política de desgaste com o bipartidarismo americano e, especialmente, com a política externa dos EUA em relação a Israel; uma tendência da qual o DSA é tão somente a ponta mais organizada.
Um teste de fôlego dessa virada ocorreu na semana passada no estado de Michigan, onde o médico Abdul El-Sayed, filho de imigrantes egípcios, se consagrou com vantagem de 1% como indicação democrata ao Senado, contra a candidatura da deputada Haley Stevens.
El-Sayed não é oficialmente apoiado pelo DSA e se descolou do rótulo socialista, afirmando-se um progressista que acredita no capitalismo regulado.
O confronto, contudo, ganhou tons proverbiais sobre o estado mais amplo da política americana e evocativo das disputas lançadas pelos socialistas democráticos, na medida em que grupos pró-Israel, incluindo notório grupo de lobby AIPAC, despejaram mais de US$ 50 milhões a favor da candidatura — derrotada — de Haley, registrando um valor recorde para uma prévia.
O caso ilustra como a questão Israel-Palestina se tornou um marcador de credibilidade política para a nova geração de progressistas democratas. O que antes permitia posições híbridas — progressismo em questões domésticas combinado com apoio incondicional a Israel — já não encontra receptividade entre setores crescentes do eleitorado, especialmente jovens e comunidades árabes-americanas.
A mesma tendência pode ser observada no Partido Republicano, ressalvadas as proporções, indicando um rompimento mais amplo com a ortodoxia bipartidária. Embora Trump e líderes republicanos do movimento MAGA mantenham retórica pró-Israel, pesquisas como as conduzidas pelo Pew Research Centerindicam crescente ceticismo entre eleitores mais jovens de ambos os partidos em face do apoio incondicional dos EUA.
A disposição de candidatos progressistas em articular críticas diretas à ocupação israelense, que arriscam ataques de antissemitismo e milhões em gastos contrários do AIPAC, sugere o cálculo de que benefícios eleitorais entre bases energizadas superam riscos de alienar doadores tradicionais.
Vitórias como as de El-Sayed demonstram a viabilidade dessa abordagem. O candidato sustentou durante sua campanha que cada dólar em guerras é um dólar que falta em saúde e moradia, cultivando uma associação demonstrada entre política externa e doméstica que torna pautas internacionais parte de uma agenda política local.
El-Sayed enfrenta agora o ex-deputado Mike Rogers, e o resultado pode decidir o controle do Senado.
Frações internas
Apesar do crescimento, as tensões e contradições internas também são significativas mesmo entre os quadros e militantes do DSA. A organização abriga desde simpatizantes de Bernie Sanders — favoráveis à expansão do estado de bem-estar social ao estilo do New Deal — até marxistas-leninistas e maoístas que veem seu papel como preparação para um movimento revolucionário e defendem a separação entre o DSA e o Partido Democrata.
O capítulo de Nova York prioriza "política de massas", focando em eleger membros do DSA para cargos de poder, aprovar legislação e expandir a organização. Esta abordagem pragmática contrasta com facções nacionais mais ideológicas, como Emerge, Marxist Unity Group e Red Star, que resistem a compromissos eleitorais.
A relação com a congressista Alexandria Ocasio-Cortez, conhecida como AOC, exemplifica essas divisões. Em 2024, líderes nacionais do DSA condicionaram o endosso à sua reeleição ao apoio ao movimento de boicote a Israel (BDS) e oposição a toda ajuda militar ao país; exigências que o capítulo de Nova York rejeitou por temer alienar a congressista.
Enquanto a organização inicia seu processo interno para selecionar seu candidato presidencial para as eleições majoritárias de 2028, muitos em Nova York avaliam que o DSA precisa mais de AOC do que ela do movimento. Mamdani, nascido fora dos EUA, está constitucionalmente fora da conta, o que faz de Ocasio-Cortez a hipótese mais discutida e um fator de intensificação dessas tensões.
"[AOC] terá que vender sua campanha e por que o DSA deve apoiá-la", declarou a co-presidente do DSA, Megan Romer, ao jornal Politico. "Não operamos com 'fazedores de reis'", acrescentou.
Enquanto alguns a veem como única socialista viável para disputar a Casa Branca, outros criticam seus compromissos com a liderança democrata, especialmente sobre Israel. Rashida Tlaib, a única representante do DSA no Congresso americano além de AOC, seria uma alternativa para setores mais críticos; a congressista, porém, não demonstra interesse em concorrer.
Nesse sentido, o desafio ao DSA será traduzir sucessos em distritos urbanos progressistas em poder político nacional sustentável, navegando princípios socialistas de diversas matizes com um plano concreto de ação entre as ruas e os mandatos.
Para ativistas como Suehaila Amen em Dearborn, contudo, o momento já representa vitória.
"Seria absolutamente espetacular assistir à queda desse suposto império que o AIPAC acha que possui", afirmou ao jornal catari Al Jazeera, na véspera da vitória de El-Sayed — em um desabafo revelador da importância atribuída a cada trincheira eleitoral em face da promessa de um futuro.