A Casa de Moneda da Argentina está descumprindo um acordo firmado com a Casa da Moeda do Brasil para encerrar disputas envolvendo contratos de impressão de cédulas, revelou neste domingo (2) a coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo.
O pacto, assinado em dezembro passado, reconhece uma dívida equivalente a R$ 63,6 milhões referente a serviços executados entre 2021 e 2023.
As duas primeiras parcelas, que deveriam ter sido quitadas em junho e julho deste ano, não foram pagas, sendo o colunista.
A inadimplência com o Brasil ocorre enquanto a Argentina busca apoio do Fundo Monetário Internacional, que aprovou um programa de US$ 20 bilhões em abril de 2025, apesar do país ter falhado em cumprir metas de acumulação de reservas monetárias.
Histórico de atrasos e dívidas
Não é a primeira vez que a Argentina atrasa pagamentos ao Brasil pela produção de pesos. Em março de 2023, a Casa de Moneda já acumulava débitos desde outubro do ano anterior, somando cerca de US$ 10 milhões, divulgou o jornal Bloomberg.
À época, a instituição argentina admitiu enfrentar déficit operacional superior a 11,5 bilhões de pesos e dívidas com fornecedores estrangeiros que superavam US$ 150 milhões.
A parceria entre os dois países na impressão de moedas remonta a 1984, mas ganhou impulso a partir de 2010.
Naquele ano, pela primeira vez, a Argentina recorreu ao Brasil para produzir cédulas de 100 pesos, diante da incapacidade tecnológica da Casa de Moneda argentina de ampliar a fabricação.
Entre 2020 e 2024, a Casa da Moeda brasileira fabricou 2,4 bilhões de cédulas para o país vizinho, segundo levantamento do jornal Poder360, representando 62% do total histórico enviado à Argentina. A intensificação ocorreu principalmente devido à desvalorização do peso argentino e à inflação galopante, que atingiu 254,2% em janeiro de 2024.
Cortes de Milei
Sob a gestão do libertário Javier Milei, o governo suspendeu a impressão de notas pela Casa de Moneda argentina, em outubro de 2024, alegando custos elevados e atrasos no fornecimento.
A decisão resultou na redução do número de trabalhadores da instituição à metade entre outubro de 2023 e março de 2026; a produção de cédulas, por sua vez, foi totalmente terceirizada, principalmente para a China, através da estatal Banknote Printing and Minting Corporation.
A quantidade de notas em espécie circulando na Argentina também despencou pela metade, atingindo 5,9 bilhões de unidades em maio de 2026, o menor volume desde junho de 2020. A queda reflete tanto a menor demanda por papel-moeda devido aos meios eletrônicos de pagamento quanto a estratégia do governo de reduzir a emissão.
Milei assim avança na privatização da Casa de Moneda, transformada em sociedade anônima em abril de 2025 e incluída na lista de empresas a serem vendidas em 2026.