Conspiração marroquina? Gustavo Petro acusa Netanyahu de financiar crise migratória em Ceuta

O presidente da Colômbia afirma que primeiro-ministro de Israel paga muçulmanos pobres para emigrarem, em resposta à publicação de um documento EUA aprovaram US$ 40 mi para Marrocos.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, publicou uma polêmica declaração neste domingo (2) em que acusa o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de orquestrar a crise migratória em Ceuta, território espanhol no norte da África.

Petro traçou um paralelo histórico audacioso entre o atual primeiro-ministro israelense e o ditador Francisco Franco — aludindo ao golpe de julho de 1936 contra a Segunda República Espanhola, iniciado no Protetorado Espanhol de Marrocos, de onde Franco, vindo das Canárias, assumiu o comando do Exército de África, cujas tropas — incluindo milhares de soldados marroquinos — foram transportadas à Península por ponte aérea alemã e italiana. 

Sem poupar críticas, ele se refere a Netanyahu como "genocida foragido" e acusa o premiê de interferir nas eleições da Colômbia e de pagar "aos pobres do islã para emigrar à Espanha", utilizando recursos financeiros similares aos empregados na aquisição de armamentos usados em Gaza.

"Com dinheiro, com o mesmo que pagaram pelos mísseis sobre Gaza para matar bebês, mulheres e anciãos, tiraram a liberdade da Palestina, querem destruir o progressismo democrático da Europa", afirmou Petro em suas redes sociais.

A declaração de Petro responde outra publicação na plataforma, que identifica um relatório oficial, referente ao projeto de lei HR 8595, aprovado na Câmara dos Representantes dos EUA em 15 de junho, quinze dias antes do estopim da crise em Ceuta.

O documento delineia o destino de verbas para segurança nacional e para o Departamento de Estado para o ano fiscal de 2027, indicando que os EUA aprovaram duas parcelas de US$ 20 milhões ao exército e a programas de segurança nacional de Marrocos.

A designação orçamentária acompanha uma nota de apoio explícito à reivindicação marroquina sobre Ceuta e Melilla; territórios administrados pela Espanha, mas localizados em território da África Mediterrânea, como enclaves ao território marroquino.

«POR QUE CEUTA PERTENCE À ESPANHA, MAS ESTÁ LOCALIZADA NA ÁFRICA?»

O presidente colombiano convocou os povos europeus e árabes às ruas, invocando o lema antifascista "Não passarão!" e pedindo diálogo entre civilizações.

Antecedentes diplomáticos

A associação entre os países não é arbitrária e decorre em grande parte da natureza das relações bilaterais entre Marrocos e Israel. O país do Mediterrâneo Ocidental é signatário de acordos bilaterais no contexto dos Acordos de Abraão, mediados pelos EUA durante o primeiro mandato de Donald Trump, em 2020, entre Israel e países árabes.

Os acordos visaram a normalização das relações diplomáticas destes países com Israel, em um esforço adicional de reconhecimento da soberania israelense sem compromissos de definição de fronteiras ou desocupação de território palestino; além de contenção da influência regional do Irã.

No contexto marroquino, a adesão conferiu em dezembro de 2020 o reconhecimento pelo governo Trump da reivindicação de Marrocos frente ao território do Saara Ocidental, disputado com a Frente Polisario, um movimento independentista pela autodeterminação do povo saaraui; o reconhecimento pelo governo Netanyahu não tardou, e foi oficializado em julho de 2023.

Já as tensões entre Espanha e Marrocos possuem raízes igualmente profundas e retorcidas, considerando o domínio colonial espanhol do território africano, de 1912 a 1956.

Em 2021, o governo marroquino relaxou controles fronteiriços; o que, como um notável antecedente, permitiu a entrada de cerca de 10 mil migrantes em Ceuta, aparentemente em retaliação ao tratamento médico contra Covid-19 concedido pela Espanha ao líder da Frente Polisario, Brahim Ghali.

As relações se estabilizaram em 2022, quando Madrid reverteu décadas de política e passou a apoiar a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, nos termos de um plano de autonomização da região.

Após os Acordos de Abraão, porém, o estreitamento das relações com Israel são motivo de ruído na posição com a Península. Enquanto a Espanha sob Pedro Sánchez tem sido uma das vozes europeias mais consistentemente pró-Palestina, Marrocos permitiu que navios israelenses atracassem em seus portos em 2024, após a recusa espanhola.

Mais recentemente, diante da crise em Ceuta, o embaixador israelense na ONU, Danny Danon, provocou Madri ao questionar por que a Espanha mantém "enclaves coloniais na África" antes de "dar lições a Israel". O ministro de Transportes espanhol, Óscar Puente, respondeu sugerindo que a participação israelense nos eventos estava se tornando evidente.